Guerra religiosa

Trump “crucificado” em nome da escatologia

13 de abril 2026 - 11:30

Com as negociações EUA-Irão, mediadas pelo Paquistão, num aparente impasse, os tambores da guerra religiosa podem voltar a ressoar em Washington em pleno processo de sacralização da política norte-americana

porPedro Caldeira Rodrigues

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Reza na Sala Oval
No início de março houve uma oração na Sala Oval em torno de Trump pelo sucesso da operação militar "Fúria Épica", o ataque ilegal dos EUA e Israel ao Irão. Foto publicada por Paula White nas redes sociais.

No início de abril, no decurso de um encontro privado na Casa Branca em período pascal, a televangelista Paula White-Cain, “conselheira espiritual” de Donald Trump e que o acompanha há anos, traçou paralelos diretos entre os desafios enfrentados pelo Presidente dos EUA e o percurso de Cristo.

“Jesus mostrou-nos que uma grande transformação exige grande sacrifício”, afirmou. E dirigindo-se ao Presidente, acrescentou: “Ninguém pagou o preço como você pagou. Quase lhe custou a vida”.

A comparação foi ainda mais longe. Paula White afirmou que Trump foi “traído, detido e falsamente acusado”, descrevendo um “padrão familiar” ao vivido por Cristo. E concluiu com uma mensagem de vitória: “Tal como Ele venceu, você também vencerá.”

Trump reagiu com um simples “obrigado” neste momento simbólico, sorrindo perante o aplauso da audiência, onde também se encontrava o pastor Tom Mullins. Mas a comparação de Trump com Jesus suscitou reações imediatas provenientes de sectores oposicionistas ou do próprio clero, com acusações de “blasfémia” e “insanidade”, mas de pouco efeito prático.

Na sua mensagem pascal, em plena agressão militar ilegal dos EUA e Israel ao Irão, e dirigindo-se aos “milhões de cristãos”, o próprio Trump tinha previamente acentuado o tom: “Por aquilo que Jesus fez na cruz todos nós podemos viver cada dia com esperança na promessa de Deus sabendo que, no final, o mal e a maldade não vão prevalecer. Em espírito de alegria e renovação nesta Páscoa também celebramos o extraordinário renascimento da fé e da religião na América. Como já disse muitas vezes, para ser uma grande nação é preciso ter religião e é preciso ter Deus”.

Cerca de um mês antes, em 5 de março de 2026, cerca de uma semana após o início dos ataques dos EUA e Israel contra o Irão e outras regiões do Médio Oriente, Trump recebia no seu Salão Oval 20 pastores evangélicos. Rezaram em conjunto pelo Presidente e pelos militares em ação no Médio Oriente, e Tom Mullins pediu a Deus que proteja as forças militares norte-americanas e conceda ao Presidente “a sabedoria vinda do céu”.

Poucas semanas depois, o mesmo Tom Mullins precisará os objetivos do movimento no mediático encontro na Casa Branca, antes da criticada intervenção de Paula White: a defesa de Israel. Para os predicadores evangelistas, a intervenção militar constitui uma “libertação espiritual” do Irão, um cumprimento das profecias bíblicas, e Israel surge como a representação de um povo apoiado por Deus contra as forças do Mal.

Neste sentido, esta corrente do designado cristão sionismo relaciona os conflitos contemporâneos do Médio Oriente às profecias que anunciam o fim dos tempos. Apoiar Israel não se tornou apenas uma opção geopolítica, também um ato destinado a cumprir o plano divino.

A ascensão do fascismo do fim dos tempos

por

Naomi Klein e Astra Taylor 

10 de maio 2025

A “identidade cristã” dos EUA

No seu combate contra o “regime Biden marxista” – abusiva referência ao seu antecessor Joe Biden – e em favor dos “cristãos perseguidos”, a nova administração republicano-trumpista colocou a religião no centro do combate político, mas centrada mais numa questão de “identidade” que de fé. Trump e os seus pastores evangélicos invocaram e invocam o combate pela “alma da América”, uma definição da identidade dos EUA.

No decurso de um comício na Virgínia durante a campanha presidencial de 2024, que implicou o seu regresso à Casa Branca, Trump declarou: “Vamos perseguir os globalistas, os comunistas, os marxistas e os fascistas, e rejeitar a classe política doente que detesta o nosso país”.

De imediato, foi desencadeado um combate sem tréguas contra a secularização da sociedade, o aborto, o casamento homossexual, os direitos das minorias em geral, em particular dos imigrantes. E a emergência de uma “maioria moral”, como já defendia Ronald Reagan.

Este “ressurgimento” está intimamente associado ao recente movimento dos designados “cristãos carismáticos” que frequentam os corredores do poder. A evangelista e conselheira espiritual Paula White está na origem do Conselho nacional da religião juntamente com Lance Wallnau, autor do livro “O candidato do caos de Deus: Donald Trump”.

A particularidade dos cristãos carismáticos revela-se pelo seu processo de conquista de poder político nos EUA. Trump é um “eleito de Deus”. E ao revelar o “Mandato das Sete Montanhas”, Paula White esclareceu que os cristãos são convocados a dirigir sete instituições decisivas da sociedade: família, igreja, educação, media, artes, empresas e governo.

Antes da sua morte, o teólogo Charles Peter Wagner, um dos inspiradores deste movimento nacionalista cristão com crescente aceitação no Partido Republicano, definiu-o como “a alteração mais radical desde a Reforma protestante”. Uma evolução do protestantismo norte-americano também fomentado pelas redes sociais. Na Florida, os canais religiosos são hoje mais numerosos que os desportivos.

Uma direita redefinida pelo trumpismo, como o Projeto 2025 da fundação Heritage, em que o lugar da religião constitui uma rutura na história norte-americana, uma “revolução pela República americana”.

A deriva tinha já sido acentuada pelo movimento cosmopolita QAnon – em particular nos tempos da pandemia de covid em 2020, com crescente uso das redes sociais – e na declaração de princípios sobre Deus e Religião divulgada em 2022 pelo movimento NatCon (National Conservatism Conference, focalizado na ‘soberania nacional e nos valores tradicionais’),  pelo qual a religião deve deixar de apenas pertencer ao domínio da esfera privada: “Onde existe uma maioria cristã, a vida pública deve enraizar-se no cristianismo e na sua visão moral, que deve ser respeitada pelo Estado e as outras instituições públicas e privadas”.

Pete Hegseth, um “cruzado” em nome da “hegemonia cristã”

A imposição de uma visão guerreira e centrada em Cristo, que viola o princípio da neutralidade do Estado e o respeito da diversidade religiosa no seio das Forças Armadas, insere-se num processo que decorre desde há algumas décadas mas que despontou numa “relação transacional”, pela qual a direita evangélica necessita do apoio de Trump, e apoia-se nele para fazer avançar a sua agenda.

Neste cenário, uma figura tem merecido lugar de particular destaque: o secretário da Defesa dos EUA, Pete Hegseth, 45 anos, que alterou o nome do seu ministério para Ministério da Guerra, e que vê nas cuzadas medievais um modelo na sua batalha contra a esquerda e Islão.

Nacionalista cristão, Hegseth é um dos principais impulsionadores da conotação religiosa imposta ao conflito com o Irão. Em 2020, no seu livro “Cruzada americana: o nosso combate para permanecermos livres” (American Crusade: Our Fight to Stay Free) define-se como um “cruzado” dos tempos modernos envolvido numa batalha existencial para salvar a “alma” dos EUA.

E considerou Trump o mais qualificado para conduzir este combate contra os inimigos internos (a “esquerda radical”) e externos, o Islão. Um dos capítulos intitula-se “Make the Crusade Great Again” (Façamos regressar a gradeza das Cruzadas).

Antigo jornalista da Fox News, extremista evangélico e inspirado pela ideologia de extrema-direita da “grande substituição”, coloca a religião em primeiro plano. No início de março, logo após os primeiros ataques dos EUA e Israel ao Irão, disse: “As nossas capacidades são superiores. A providência do nosso todo-poderoso Deus protege as nossas tropas e estamos determinados em concluir esta missão. Os EUA combatem fanáticos religiosos que procuram obter a arma nuclear para um Armagedão religioso. Nestes momentos, os militares necessitam de uma ligação com o seu Deus”.

Em dezembro de 2024, após o anúncio da sua nomeação como secretário da Defesa na nova administração Trump, o New York Times revelava que Pete Hegseth considerava as cruzadas medievais como “um modelo para a nossa época”.

“Ao adotar nos últimos anos uma conceção combativa do cristianismo, escreveu que aqueles que usufruem dos benefícios da civilização ocidental deveriam agradecer uma cruzada”, escreveu o diário.

Um proselitismo reforçado após a guerra contra o Irão, um país muçulmano e de predomínio xiita. Numa oração ao lado de Douglas Wilson em 25 de março, rezou para que as tropas norte-americanas promovam “uma ação de esmagadora violência contra quem não merece qualquer piedade”. “Pedimos isto com confiança inquebrantável, em nome do poderoso e glorioso Jesus Cristo”.

Desde o verão de 2025, Pete Hegseth instituiu no Pentágono sessões de oração mensais todas presididas por pastores evangélicos. Em geral, orações provenientes da Bíblia, em particular do Antigo Testamento, onde se apela ao julgamento de Deus contra os seus inimigos.

Uma perspetiva de hegemonia cristã, potencialmente à escala mundial. Um movimento que procura instaurar um “reino de Deus” na terra. Adepto do dominionismo (do pastor neocalvinista Douglas Wilson, fundador da Communion of Reformed Evangelical Churches, CREC), “teoria” que considera a democracia uma heresia, que deve ser substituída por uma ordem teocrática patriarcal.

Pete Hegseth é um “cruzado vivo”, como tenta comprovar com as suas tatuagens. No peito a cruz de Jerusalém, símbolo do reino latino de Jerusalém fundado após a primeira cruzada em 1099. No braço, “Deus vult” (Deus o quer), o “grito de guerra” dos cruzados.

As tatuagens foram explicadas pelo próprio: "Quando estava a realizar uma série para a Fox Nation, dei uma entrevista enquanto era tatuado pelo único tatuador de Belém (Palestina ocupada). Tatuou-me Yehweh, que significa Jesus em hebraico. Também tenho no meu antebraço um Benjamin Franklin, mais precisamente uma caricatura política da década de 1760. Trata-se da serpente Join or Die (Unam-se ou morram). Tenho ainda tatuado Deus Vult (Deus quer) no músculo do braço, que era o grito de guerra dos cruzados. Tenho uma grande bandeira com a AR-15 que usei no Iraque. Depois, no meu ombro, tenho o emblema da unidade com a qual servi no Iraque. O meu peito está completamente coberto com uma cruz de Jerusalém. Israel, o cristianismo e a minha fé são coisas que me são profundamente queridas".

Sacralização da política…

A mais recente escalada militar dos EUA contra o Irão – aliás definido como uma República islâmica teocrática –, inscreve-se num campo simbólico e religioso onde tradições teológicas, narrativas identitárias e diversos imaginários contribuem para legitimar, contestar ou reinterpretar a violência das armas.

Assim, os apoiantes nos EUA da intervenção contra o Irão (em conjunto com o regime de Israel), recorreram com frequência ao registo religioso: sacralização da liderança política dos EUA, cenário religioso da guerra, visão apocalítica do atual conflito em diversos setores militares, justificações bíblicas por diversos meios cristãos pró-israelitas. Acentuou-se a componente religiosa do conflito e glorificou-se a construção messiânica de uma nação.

Este imaginário político-religioso tem vindo a ser propagado pelos teólogos e líderes fundamentalistas da “Nova Reforma apostólica”, movimento relativamente recente que se afirma como a verdadeira restauração do poder espiritual cristão e onde os acontecimentos são interpretados e profetizados como sinais divinos.

E os seus líderes – Paula White é um dos seus expoentes – apresentam Trump como um ator providencial inserido na história da salvação e numa tipologia bíblica assente na figura do rei David, escolhido por Deus apesar dos defeitos pessoais. Uma justificação que serve para tudo… Assim, Trump é inserido numa abordagem providencialista, apresentando-se como “O Escolhido” através de uma eleição divina.

Uma radicalização religiosa que tem reflexos em Israel com a ascensão do Kahanismo, a par dos sinais de crescente crise interna e fratura social, aliás comuns aos dois países aliados.

Esta ideologia religiosa sionista assenta nos princípios do rabi Meir Kahane (1932-1990) fundador da Liga de defesa judaica e do partido político Kach, extinto em 1994, defensor da erradicação da população árabe-palestiniana de Israel, e a expansão colonial.

Em 2004 foi banido do governo israelita e o Departamento de Estado dos EUA inclui-o na lista de organizações terroristas estrangeiras. Foi retirado desta lista em 2022 por “provas insuficientes” apesar de ainda permanecer “proscrito”. O seu sucessor, o kahanista Otzma Yehudit, garantiu seis deputados nas legislativas de 2022 e integra o atual Governo de Israel.

O discurso de Trump tem-se adaptado a esta abordagem cristã sionista, que se baseia numa linguagem apocalítica. Num discurso em julho de 2024 sugeriu uma “transformação radical” da ordem política norte-americana, em consonância com a tradição fundamentalista milenarista, que interpreta a história contemporânea como o prelúdio de uma confrontação entre o Bem e o Mal.

As suas declarações após o atentado de 13 de julho de 2024, quando foi alvejado na orelha direta, foram também esclarecedoras: “Salvo por Deus” para impedir o “declínio da América”.

… e da ação militar

Nesta perspetiva, a política externa norte-americana pode ser interpretada como uma etapa inserida no drama da escatologia, do “fim dos tempos” e da “segunda vinda de Cristo”. A guerra torna-se um dos acontecimentos possíveis para o cumprimento da história divina, do anunciado regresso do Salvador. A teologia fundamentalista torna-se institucional.

A decisão militar é transformada em objeto de oração pública, que associa a ação presidencial à interferência pastoral. Uma ação militar de grande envergadura mantida por uma nação “protegida por Deus”, uma guerra que usufrui de proteção divina.

Em 7 de fevereiro de 2025, Trump tinha anunciado um “Gabinete da Fé” na Casa Branca então já atribuído a Paula White, e esta articulação entre poder político, retórica religiosa e símbolos nacionais contribui para sacralizar a ação militar.

Uma sacralização da guerra que também se estende a diversos segmentos do aparelho militar.  A retórica cristã radical para justificar a agressão contra o Irão instalou-se, com diversos oficiais e explicarem aos soldados que o conflito se insere num “plano divino de Deus”, originando centenas de manifestações de reprovação.

Segundo um oficial subalterno, um comandante terá afirmado: “O Presidente Trump foi designado por Deus para iniciar no Irão o fogo que provocará o ‘Armagedão’”. Uma ligação explícita entre intervenção militar e a batalha escatológica do “Armagedão” descrita no Livro do Apocalipse atribuído ao apóstolo João.

Os críticos desta abordagem consideram que o aumento do extremismo religioso nas Forças Armadas dos EUA constitui uma clara violação do princípio da separação entre Igreja e Estado, e tem-se intensificado o debate no Exército norte-americano sobre o lugar do nacionalismo cristão nas instituições militares.

A sistemática sacralização pró-israelita tem, ainda, suscitado efeitos paradoxais através de uma polarização extrema: a legitimação teológica da intervenção e uma radicalização antissemita em certos setores do campo antiguerra.

Diversos segmentos da extrema-direita nos EUA adotaram um discurso cosmopolita e antissemita. Parte do MAGA (Make America Great Again, a ‘base social’ do trumpismo e pró-isolacionista), acusou o Governo de promover uma guerra por conta de Israel. E Nick Fuentes, representante da corrente Groyper, e da “alt-right”, denunciou uma política externa dominada por interesses israelitas.

Diversas igrejas protestantes moderadas e responsáveis católicos nos EUA também se pronunciaram contra a guerra ilegal dos EUA e de Israel. E algumas das críticas mais incisivas foram provenientes do Vaticano, onde um norte-americano exerce o pontificado, e quando aumenta a contestação da mobilização do sagrado ao serviço da guerra.   

“Hoje podemos (…) sentir nas cinzas que nos são impostas o peso de um mundo em chamas, de cidades inteiras destruídas pela guerra: as cinzas do direito internacional e da justiça entre os povos, as cinzas de ecossistemas inteiros e da concórdia entre as pessoas, as cinzas do pensamento crítico e de antigas sabedorias locais, as cinzas daquele sentido do sagrado que habita em cada criatura”, referiu o Papa Leão XIV numa homilia pascal.

Pedro Caldeira Rodrigues
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Pedro Caldeira Rodrigues

Jornalista