Passaram já alguns dias desde que se deu a tragédia do acidente de comboio em Santiago de Compostela que provocou 79 mortos e dezenas de feridos. A informação que recebemos é muitas vezes contraditória, com diferentes esferas interatuando, desde a dimensão política passando pela técnica até à mediática. Podemos tentar fazer um pequeno balanço em torno de alguns eixos essenciais, tendo em conta que é muito possível que apareça nova informação.
Que aconteceu? Entre a informação e a construção político-mediática da tragédia
Imediatamente após o descarrilamento do comboio, começou a especulação sobre o que provocara o trágico acontecimento. As três hipóteses encontradas foram “erro humano”, “insuficiência técnica” e “atentado”. Como podemos ver, algumas não são necessariamente incompatíveis, nem tão pouco unívocas. Mas comecemos pela tese do atentado.
A tese do atentado foi rapidamente eliminada pelo Ministério de Interior, não sem antes ter sido considerada como plausível por fontes da Câmara (Ayuntamiento) de Santiago de Compostela. Algumas cadeias televisivas, como o Canal 24 horas da RTVE, fizeram eco desta possibilidade, difundindo de forma ambígua que os vizinhos tinham escutado três grandes explosões. O facto de se divulgar, a partir de uma instituição oficial, uma versão deste tipo diz muito da visão com que a tragédia foi encarada pela corporação compostelana (governada pelos sectores mais ultras do Partido Popular): uma oportunidade política para aproveitar a dor, uma tentativa de semear dúvidas sobre determinados sectores da população (casualmente, nos dias 24 e 25 de julho a esquerda nacionalista celebra atos de comemoração do “dia da pátria galega”), bem como desviar a atenção sobre qualquer possível falha técnica. Como era de esperar, esta hipótese foi descartada, mas é curioso que a metodologia seja especular com uma tese deste tipo sem ter a mínima evidência.
As outras duas hipóteses (erro humano e insuficiência técnica) estão em cima da mesa e não são necessariamente incompatíveis. O maquinista, Francisco José Garzón, com mais de duas décadas de experiência, foi imputado por homicídio involuntário, acusação pela qual poderá ser condenado a entre 2 e 12 anos de prisão. Deverá comparecer semanalmente no tribunal e devolver a licença durante seis meses, com o que fica inabilitado para conduzir comboios até fevereiro de 2014. Admitiu que “se despistou”, equivocando-se no momento de identificar o troço e travando demasiado tarde. A imagem de um homem completamente abatido, psicologicamente destroçado pela tragédia, tem ocupado as capas de jornais e tele-diários, sendo o eixo em torno do qual se constrói o relato oficial, tanto político como mediático. Os mass média do regime não duvidaram em convertê-lo no protagonista da tragédia, com uma campanha de duvidosa ética jornalística, na qual se chegou a difundir os seus “estados” do facebook tirados do contexto, apresentando-o como um imprudente que, tarde ou cedo, estava destinado a cometer um crime. As capas dos diários da extrema direita como ABC ou La Razón impulsionaram alegremente esta campanha, realçando ao mesmo tempo a sua filiação no Sindicato de Maquinistas1.
O maquinista foi julgado mediaticamente em paralelo com a escassa importância concedida às insuficiências técnicas que permitiram o acidente. O governo da Xunta de Galiza chegou a insinuar que há causas obscuras por trás das exigências de investigar se existiu uma deficiência técnica2.
Há causas perversas nesta tentativa de enterrar estas hipóteses. A emergente indústria da alta velocidade ferroviária, formada por empresas estatais e privadas, converteu-se numa das referências da “marca Espanha”, impulsionando construções julgadas desnecessárias pela população (os vizinhos de Angrois, lugar do acidente, estavam há meses a organizar-se contra a construção do AVE), pois suprimem linhas de curta ou média distância consideradas pouco rentáveis economicamente mas tão úteis socialmente, muito usadas pela população trabalhadora para se deslocar diariamente. Por outro lado, este influente setor está atualmente a participar num concurso para construir um AVE no Brasil, competindo com diferentes empresas internacionais. Uma das pré-condições para optar na concessão é não ter sofrido nenhum acidente provocado por uma falha técnica nos últimos cinco anos. A empresa chinesa Communications Construction já foi descartada do concurso por um acidente na província de Zhejiang que provocou 33 mortos3. A ministra de Fomento Ana Pastor, cujo ministério não teve dúvidas em assinalar o maquinista como único responsável pela tragédia4, viajou recentemente ao Brasil para defender os interesses espanhóis (por “interesses espanhóis” entende-se, obviamente, “interesses das empresas espanholas”), que se jogam num contrato de nada menos que 12.000 milhões de dólares. O prazo dado aos consórcios pelo Estado brasileiro para apresentar o projeto expira a 16 de agosto: o objetivo do governo, das empresas e do judiciário parece ser demonstrar rapidamente a culpa do maquinista para poder continuar a optar por um negócio tão substancial. Parece que os interesses privados são antagónicos ao direito social de conhecer as autênticas causas do acidente.
No entanto, algumas brechas foram abertas no relato oficial. O presidente da Administração de Infraestruturas Ferroviárias (ADIF), Gonzalo Ferre, admitiu que o sinistro poderia ter sido evitado se se tivesse contado com um sistema de segurança ERTMS (que reduz automaticamente a velocidade anulando qualquer possibilidade de que uma falha humana termine em acidente), instalado na maior parte da alta velocidade espanhola5. Os sindicatos de maquinistas também têm realçado o anacronismo dos sistemas de sinalização. O site eldiario.es revelou que o sistema de segurança do troço onde se deu o acidente tinha mais de meio século, demonstrando que substituindo os dispositivos analógicos por digitais (cujo custo é apenas de 12.000 euros), o acidente poderia ter sido evitado. O dispositivo já está instalado noutros troços da mesma rota do sinistro6.
Como vemos, de um ponto de vista lógico, as versões de “falha humana” e “deficiências técnicas” não são necessariamente incompatíveis. Mas é necessário clarificar uma questão fundamental: a tragédia podia ser contingente, mas não inevitável. A falha humana podia existir, mas não teria provocado mortos se tivessem estado em funcionamento os meios técnicos adequados. Estes meios técnicos não são ciência de ficção nem vivemos no século XIX, quando a condução do caminho-de-ferro dependia da sorte e perícia do maquinista. O relato, completamente ideológico, de associar o erro do trabalhador a culpabilidade, está completamente sobredeterminado por um facto concreto: os interesses económicos privados antepõem-se à preocupação em trazer à luz a verdade com todas as suas consequências; é óbvio que o erro poderia não ter acabado em tragédia. A tecnologia e o seu uso estão longe de ser neutrais ou apolíticos (ainda que a técnica tenha uma dimensão relativamente autónoma): o maquinista está submetido aos ritmos que a máquina impõe. Não deixa de ser tragicamente amargo que existindo as possibilidades tecnológicas para evitar o acidente, o relato político dos interesses económicos privados se imponha ao técnico. A tecnologia passa a ser secundária quando primam os interesses de uns poucos. O grave da linha da argumentação dominante é que não é traçada com uma perspetiva de evitar que uma tragédia assim torne a ocorrer, mas procura caçar o culpado o mais depressa possível, enterrar responsabilidades políticas e continuar a fazer negócios.
As respostas políticas: dos de baixo e das instituições
A reação do povo galego e de outras nacionalidades do Estado espanhol foi uma autêntico exemplo de solidariedade popular. Em reação ao impacto da tragédia, na noite do sinistro os trabalhadores públicos responderam com grande eficácia e entrega. Enfermeiras no desemprego acudiram a colaborar nos hospitais. Psicólogos voluntários ofereceram o seu trabalho para apoiar vítimas, familiares ou vizinhos. Bombeiros suspenderam greves para ajudar nos trabalhos do resgate. A cidadania galega respondeu doando em massa sangue, até que as autoridades sanitárias declararam que não era preciso mais. Milhares de mensagens de solidariedade foram divulgadas nas redes sociais. A política com maiúsculas invadiu a Galiza, demonstrando que as classes populares podem responder às situações adversas com solidariedade e cooperação, longe da concorrência imposta pela lógica capitalista.
O problema vem de outro lado. A coordenação dos serviços públicos (responsabilidade das autoridades) esteve longe de ser eficiente. A operação de emergência requerida demorou mais de 100 minutos a ser ativada7. Dezenas de feridos foram transferidos para a saúde privada, quando o hospital mais próximo era público, sendo o facto denunciado pelos próprios trabalhadores8.
A outra parte da resposta política, para além da gestão pós-acidente, foi a do relato institucional. Os políticos do Partido Popular optaram por uma linha de defesa dos interesses empresariais, culpando o maquinista pelo acidente. O PSOE desapareceu do mapa político, confiando numa explicação parlamentar que demorará dias a chegar, se é que chega. Nos dias posteriores à tragédia, os cargos públicos da direita trataram de impor um silêncio sobre a tragédia, instrumentalizando a dor, acusando as vozes dissidentes do relato oficial de tentar “politizar” a tragédia, enquanto eles percorriam as zonas do acidente, visitando feridos e tirando fotos com as famílias. É amargamente irónico que sejam os mesmos responsáveis pelos cortes e pelas políticas de austeridade que degradam os serviços públicos, precarizando os trabalhadores e subordinando o bem-estar da maioria aos interesses do capital privado, aqueles que fazem a acusação de "politização" da tragédia. A classe dominante tem um grande interesse em decidir o que é político e o que não é. A imprensa do regime tem contribuído para essa “despolitização” (isto é, que só os responsáveis políticos dirigentes podem falar de política), mercantilizando a tragédia e convertendo a dor das famílias em imagens prontas para consumo. O ponto culminante dessa dinâmica foi a comemoração oficial de homenagem às vítimas em forma de missa nacional-católica na catedral de Santiago, com a presença dos príncipes e a cúria religiosa. Todo um exemplo de “neutralidade": o funeral convertido num cínico comício do regime de 1978.
No entanto, esta representação foi questionada pela esquerda. Em primeiro lugar, foram suspensos os atos comemorativos do “25 de julho, dia da pátria galega”, que iam celebrar-se no dia seguinte ao da tragédia. Depois, a esquerda, tanto a parlamentar (AGE e BNG) como a extraparlamentar negou-se a subscrever o relato oficial, sem cair na criminalização do maquinista, defendendo o labor dos trabalhadores públicos e exigindo uma investigação independente que determine as responsabilidades políticas9. É particularmente significativa a brecha aberta no consenso institucional pela esquerda parlamentar, negando-se a participar nos atos oficiais organizados pelo Partido Popular, alimentando assim o “espírito de cisão” em relação à versão da classe dominante. Uma boa parte da sociedade civil não está disposta a dar como válido, acriticamente, o relato da classe dominante, pois a credibilidade dos políticos e empresários está seriamente corroída pelas suas atuações em casos como o Prestige ou o 11-M. As políticas austeritárias, juntamente com os escândalos de corrupção, também têm limitado a convicção de que os representantes públicos oferecem todos os meios disponíveis para ajudar o cidadão comum. Esta crise de legitimidade é uma janela de oportunidade para que uma catástrofe como a de Compostela seja investigada, para que não se permita que o maquinista seja o “bode expiatório”, para que se faça justiça às vítimas, para que não volte a suceder uma tragédia perfeitamente evitável.
A modo de conclusão: os limites do modelo neoliberal
O modelo neoliberal, consistente em combinar privatizações com desinvestimentos no público para pagar a dívida e um modelo de gestão mimético aos parâmetros da empresa privada, ficou seriamente desprestigiado com esta tragédia. No terreno da eficácia da atuação pós-acidente, o caos da gestão burocrática só foi compensado pela vontade dos trabalhadores públicos. A subutilização dos hospitais públicos, que converte o direito à assistência dos feridos numa transferência de recursos públicos para o sector privado, e o caos na organização da resposta de urgência foram introduzidos na agenda política.
No terreno da prevenção, o falhanço do projeto neoliberal na hora de aplicar as medidas técnicas apropriadas é mais que evidente. Os trabalhadores da Renfe (empresa estatal de caminho-de-ferro) reclamam há anos mais investimentos no sector público, enquanto os engenheiros, que advertiram da perigosidade do traçado onde se produziu o acidente não foram escutados, o que questiona seriamente o mito da eficácia da gestão de carácter empresarial. Neste caso, a impermeabilidade da gestão neoliberal, a falta de democracia nas políticas públicas, gerou uma catástrofe social gravíssima.
No terreno da clarificação posterior dos factos, os interesses do capital chocaram duramente com os interesses das famílias e da cidadania. A clarificação do acontecimento fica obstinadamente bloqueada pelos interesses do sector da indústria do caminho-de-ferro, mais preocupada em manter os seus contratos milionários do que em apurar responsabilidades e aclarar factos para evitar que a tragédia volte a suceder. O Partido Popular, juntamente com o silêncio cúmplice do PSOE, encarregou-se de dar cobertura política aos interesses de uns poucos, demonstrando a sua completa subalternização ao empresariado e à sua escassa lealdade à cidadania. A imprensa oscilou entre a morbosidade mercantilista de converter a dor em espetáculo e uma campanha para criminalizar o maquinista. Os governantes não estiveram, nem perto disso, à altura de um povo que respondeu com solidariedade popular à tragédia. A atitude da esquerda política e a desconfiança das classes populares face à versão oficial abrem um resquício de esperança para que a tragédia se clarifique. A batalha será dura, mas existe um dever ético ineludível, tanto pelos que já não estarão connosco como para evitar futuras tragédias.
Artigo de Brais Fernández, militante da Esquerda Anticapitalista Galega, publicado em 30 de julho de 2013 em vientosur.info Tradução de Carlos Santos para esquerda.net
1http://www.lamarea.com/2013/07/28/errores-y-mentiras-en-los-medios-sobre-el-accidente-de-tren-en-santiago/
4 http://www.lavozdegalicia.es/noticia/galicia/2013/07/28/gobierno-une-adif-renfe-descargando-culpas-conductor/0003_201307G28P3991.htm