No mês passado, no seu Congresso anual, o sindicato britânico TUC debateu quatro moções diferentes sobre a crise climática. Dos esforços apresentados aos delegados pelos sindicatos, todos pediam uma “transição justa” para garantir que os trabalhadores nas indústrias de energia, transporte e manufatura não fossem simplesmente lançados na miséria pela perspetiva de uma economia descarbonizada. Os apelos ao governo trabalhista recém-eleito foram abundantes.
Mas ausente de todas as moções estava a necessidade de militância no setor da indústria para deter a catástrofe climática e garantir que uma transição justa não resulte em comunidades da classe trabalhadora a serem destruídas pelo desemprego de longo prazo. Alguns no nosso movimento consideram essa noção uma utopia. Mas os trabalhadores sempre assumiram a liderança na defesa do meio ambiente no passado — e é essencial que o façam novamente.
Nas décadas de 1960 e 1970, reuniões massivas de trabalhadores da construção civil australianos do Builders Labourers Federation (BLF) levaram às inspiradoras “proibições verdes”, com os trabalhadores a recusaram-se a destruir o meio ambiente ao seu redor em nome do lucro. Esta posição tomada pelos trabalhadores foi um momento seminal na organização laboral e na campanha ambiental, com muitas áreas que o sindicato salvou a terem agora recebido o estatuto de Património Mundial da UNESCO. Os defensores da transição justa também invocam o Plano Lucas, quando delegados sindicais das fábricas de engenharia envolveram os seus colegas qualificados na elaboração de planos de trabalho para uma produção socialmente útil.
Mas estas lutas, por mais inspiradoras que tenham sido, aconteceram décadas atrás, e precisamos desesperadamente de inspiração atual. Um exemplo contundente, que parece ter sido ignorado pela maioria dos membros dos sindicatos – mas foi mencionado pelo delegado dos bombeiros Jamie Newell no congresso do TUC deste ano – foi a fábrica de engenharia automóvel da GKN em Florença, Itália. Face a despedimentos em massa e ao encerramento da sua unidade, os trabalhadores que produzem componentes para a BMW, a Porsche, a Ferrari e a Lamborghini, assumiram o controle da sua fábrica em julho de 2021.
Apesar de ter começado como uma disputa laboral padrão para salvar empregos, desde então transformou-se num movimento por uma transição justa liderado por trabalhadores. Estes somaram as suas experiências para pesquisar formas de produção não extrativas e com zero emissão de carbono, e para implementar um modelo de produção alternativo ao estilo do Plano Lucas; em vez de peças automóveis, eles já construíram protótipos de bicicletas de carga, que estão a ser testadas por vários movimentos sociais na Itália, Alemanha e País Basco, estando a ocorrer conversações sobre como estas bicicletas podem ser colocadas ao serviço de redes de auxílio mútuo de estafetas e aquelas que competem com empresas como a Amazon.
Na ocupação da GKN, a produção industrial é baseada nas necessidades da comunidade e da forma mais sustentável, em forte contraste com o modelo capitalista, que é movido pelo lucro e pelo desperdício. A solidariedade na forma de protestos em massa, espetáculos em solidariedade e doações financeiras do movimento operário em Florença manteve os trabalhadores ativos.
A produção de painéis solares também está a ser discutida como parte do plano alternativo da GKN, mas isso depende de investimento -- embora, incrivelmente, quase um milhão de euros ter sido recolhido em toda a Itália para investir na fábrica através do seu esquema de acionistas populares. Se continuarem a arrecadar mais e mantiverem um impulso público séria, as perspetivas podem incluir o governo regional comprar a fábrica dos seus proprietários anteriores e entregá-la aos trabalhadores para administrá-la como uma cooperativa; isso obrigaria o governo italiano a fornecer investimento adicional, com a fábrica a continuar a operar sob o controlo dos trabalhadores.
Além disso, também significa que sindicatos, grupos de ação climática, organizações de ajuda mútua e outras organizações de justiça social se podem envolver no processo. O potencial de se ligar a milhares de trabalhadores e comunidades internacionalmente – e mostrar a possibilidade de um bom exemplo – pode fornecer um terreno fértil para outros replicarem os esforços dos trabalhadores da GKN, assumindo o controlo da sua produção, das suas comunidades e das suas vidas.
A ocupação da GKN também desafiou o clima político num país governado pela extrema-direita. A fábrica ocupada da GKN agora está a atuar como um ponto de apoio para refugiados e de solidariedade com campanhas antifascistas. Os vínculos políticos aqui não caíram do céu, mas têm-se vindo a desenvolver ao longo de vários anos por meio da existência do Insorgiamo Soms, um coletivo de trabalhadores de base ativo na fábrica. Como eles publicaram recentemente na sua página de Internet, “esta resistência tornou-se um projeto… deu origem a um plano de reindustrialização a partir de baixo, com o objetivo de devolver ao território os empregos que foram destruídos, criando uma fábrica socialmente integrada a serviço da comunidade que a defendeu, recomeçando com uma produção ecologicamente avançada”.
Esta insistência na ação direta dos trabalhadores é essencial para a disputa de Florença, com os trabalhadores a organizarem-se horizontalmente – cada trabalhador tem voz, e ninguém está acima de ninguém. Não há um representante sindical a tempo inteiro a dizer aos trabalhadores qual deve ser a agenda das negociações ou se podem agir ou não. Quando olhamos para os níveis de desigualdade abundantes na sociedade, é revigorante encontrar um exemplo de união sem estruturas de poder hierárquicas corruptas, que tantas vezes contêm os trabalhadores.
No entanto, apesar da ocupação da GKN se ter tornado um movimento social militante com apoio comunitário de massa em Florença, e ser o assunto do movimento sindical italiano, poucas pessoas no movimento laboral britânico sabem alguma coisa sobre isto. É por isso que foi criada uma rede de solidariedade britânica com a ocupação da GKN, envolvendo membros de sindicatos ferroviários, da educação, da construção e das entregas. O nosso objetivo é elevar o perfil da ocupação da GKN. Mais de 20 ativistas concordaram em juntar-se a uma delegação sindical de base em Florença para a assembleia geral da GKN em 13 de outubro.
Além disso, filiais sindicais e ativistas comunitários podem apoiar a ocupação de muitas maneiras: enviando uma mensagem de apoio por e-mail, compartilhando vídeos do Reel News sobre a ocupação, comprando ações do esquema de acionistas populares e elegendo um delegado ou enviando uma doação solidária para que trabalhadores mal remunerados poderem participar da assembleia geral.
Num momento em que o nosso movimento está a debater como pode construir alternativas à catástrofe climática e começar mudar o balança do poder cada vez mais a nosso favor, precisamos popularizar exemplos como a ocupação GKO entre os sindicatos e a sociedade como um todo. Fundamentalmente, isto deve ser feito para que os trabalhadores possam continuar o seu bom trabalho mas também porque queremos ver as nossas próprias GKO a surgirem.
A ocupação da GKO pode ser contactada através do email [email protected].
Dave Smith é um ativista sindical da construção civil. É coautor de "Blacklisted: The Secret War Between Big Business and Union Activists".
Tracy Edwards a secretária geral do Union Workers Union.
Shaun Dey é membro do NUJ e cofundador do coletivo de ativistas de vídeo Reel News.
Publicado originalmente na Tribune Mag. Traduzido por Pedro Silva para a Jacobina. Editado pelo Esquerda.net para português de Portugal.