Trabalhadores despedidos de fábrica em São João da Madeira, jornalistas agredidos

25 de janeiro 2024 - 18:00

Os trabalhadores da fábrica de calçado RAP manifestaram-se na tarde desta quinta-feira exigindo que a administração lhes entregue os documentos para terem acesso ao subsídio de desemprego. Enquanto o Porto Canal fazia a cobertura, alguém que parece pertencer à direção da empresa agrediu os jornalistas.

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Fábrica RAP. Foto do Google Maps.

A fábrica de calçado de São João da Madeira RAP tinha anunciado aos 50 trabalhadores que ia fechar no início de janeiro e despediu-os. Entretanto, continua a adiar a entrega dos documentos necessários para requererem o subsídio de desemprego.

Foi este atraso que provocou o protesto convocado para a tarde desta quinta-feira em frente a fábrica. O Jornal de Notícias falou com a coordenadora do Sindicato Nacional dos Profissionais da Indústria e Comércio do Calçado, Malas e Afins, que explicou que a empresa “ainda não lhes entregou a documentação necessária para eles recorrerem ao subsídio de desemprego. Tem andado a adiar constantemente a entrega desses documentos”. Isto faz com que os trabalhadores estejam “sem qualquer fonte de rendimento. Não recebem da empresa nem podem recorrer ao subsídio de desemprego”.

Ao sindicato chegaram denúncias de que “estarão a ser retiradas máquinas da empresa”. O que “a ser verdade é muito grave”, concluiu.

Na altura em que fazia a cobertura da ação dos trabalhadores, alguém que os jornalistas identificam como "ao que tudo indica" pertencer "à direção da empresa" agrediu o repórter de imagem e a jornalista no local.

 

 

"Patrões do calçado têm de perceber que a lei do chicote já não é válida"

Em comunicado, a distrital do Bloco de Esquerda de Aveiro repudiou as agressões a jornalistas e trabalhadores, "perpetradas hoje por um empresário do calçado em São João da Madeira" e defende que "a situação não pode ficar sem consequências", pois "o patronato do calçado, que durante décadas governou pelo medo e muitas vezes pela violência, tem de perceber que a lei do chicote já não é válida".

Para a distrital do Bloco, a situação "é abjeta e exige intervenção das autoridades para identificação, julgamento e condenação da pessoa em causa" para evitar que outros patrões do calçado "se sintam impunes e à vontade para fazer o mesmo".

"Os trabalhadores da fábrica RAP foram despedidos, mas há semanas que a empresa adiava a entrega da Declaração de Situação de Desemprego, documento necessário para inscrição no centro de emprego e acesso ao subsídio de desemprego. Sem rendimentos e sem solução à vista manifestaram-se em frente à empresa exigindo esses documentos. Foi durante esse momento que aconteceram as agressões", refere a distrital bloquista, apontando também as suspeitas "de que nos últimos dias tenham sido retiradas máquinas, movimentações que antecederam o pedido de insolvência da empresa".

O Bloco/Aveiro considera "uma fantasia" a descrição feita por Pedro Nuno Santos na apresentação da sua candidatura a líder do PS ao defender como modelo a suposta "concertação social" no setor do calçado em São João da Madeira. "O que sempre existiu foi exploração; o que sempre permitiu avanços foi a luta dos trabalhadores", afirma a distrital bloquista, lembrando que "o trabalho infantil, o trabalho informal, o assédio, a violência contra sindicalistas e trabalhadores estão ainda bem presentes na memória da gente de São João da Madeira". E que hoje em dia a indústria do calçado da região é dominada pelo emprego com "salário mínimo e subsídio de alimentação miserável enquanto o setor exporta mais de 2 mil milhões de euros por ano".