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Trabalhadores da Google criam sindicato

Num artigo publicado no NYTimes, os fundadores descrevem um "sistema de emprego segregado". Metade dos 120 mil trabalhadores do universo Alphabet tem vínculos precários e salários mais baixos para trabalho igual.
A Alphabet “continua a censurar aqueles que se atrevem a falar, e a impedir trabalhadores de falarem sobre assuntos sensíveis e importantes para o debate público, tais como concentração e poder monopolista”, criticam. Imagem via Flickr.

A Alphabet, empresa mãe de um universo de empresas digitais, incluindo a Google, terá agora um sindicato dos trabalhadores da empresa, algo que tentou evitar desde a sua criação.

O grupo de 220 trabalhadores da Google que fundaram o Alphabet Workers Union afirmam que a organização está aberta aos 120 mil trabalhadores da empresa, dispersos por setores tão díspares como biotecnologia (na empresa Calico), gestão de capital de risco (Google Capital), fabrico de carros autónomos (Waymo), inteligência artificial (com a Deep Mind), ou investigação científica (Verily).

Os lucros que a empresa gerou através da promoção de anúncios que promovem ódio, a par da revelação do acordo estabelecido com o Partido Comunista da China para introduzir censura no motor de busca em operação naquele país, destruiu a imagem pública que a empresa promovia desde a sua criação, sob o lema ‘Não sejam malévolos’.

A criação do sindicato surge depois de anos de sucessivas queixas laborais e revelações sobre a conduta da administração para ocultar processos de abusos sexuais dentro da empresa, o que levou à greve de 24 horas de 20 mil trabalhadores da Google, em 2018.

Andy Rubin, criador do sistema operacional Android, foi acusado de assédio sexual por uma trabalhadora da empresa em 2014. O caso foi abafado mas Rubin foi afastado sigilosamente com uma compensação de 90 milhões de dólares.

“Estamos fartos”, escrevem Parul Koul e Chewy Shaw, presidente e vice-presidente do sindicato, num artigo de opinião publicado esta segunda-feira no New York Times.

“Para aqueles que são céticos em relação aos sindicatos ou que acreditam que companhias digitais são mais inovadoras sem sindicatos, queremos relembrar que estes e outros problemas persistem. Discriminação e assédio continuam”, escrevem.

A Alphabet “continua a censurar aqueles que se atrevem a falar, e a impedir trabalhadores de falarem sobre assuntos sensíveis e importantes para o debate público, tais como concentração e poder monopolista”, criticam.

“Para um grupo de executivos ricos, esta discriminação e ambiente de trabalho sem ética estão a funcionar como previsto, às custas dos trabalhadores com menos poder institucional, especialmente trabalhadores negros, queer, trans, trabalhadores com deficiências ou mulheres”, afirmam.

E definem o sindicato como aberto a todos os trabalhadores, efetivos ou precários. “Cerca de metade dos trabalhadores na Google são temporários, vendedores ou fornecedores. Recebem salários mais baixos, recebem menos benefícios, e tem pouca estabilidade laboral em comparação com trabalhadores a tempo inteiro, apesar de muitas vezes fazerem exatamente o mesmo trabalho”, escrevem no artigo, no que definem ser um “sistema de emprego segregado que mantém metade dos trabalhadores da empresa em lugares de segunda classe”.

“Quando a Google se tornou pública em 2004, disse que a empresa faria ‘coisas boas para o mundo mesmo se isso colocasse em caus ganhos de curto prazo’. O seu lema costumava ser ‘não ser malévolo’. Nós viveremos segundo este lema”, concluem.

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