Toni Negri (1933-2023), filósofo, ativista e pensador do operaísmo

16 de dezembro 2023 - 11:49

O filósofo e militante marxista, líder de movimentos históricos da esquerda italiana como o Poder Operário e a Autonomia Operária e coautor, com Michael Hardt, de livros como "Império", "Multidão" e "Comum" morreu este sábado aos 90 anos. Esquerda.net reproduz uma entrevista de Negri ao Il Manifesto, de agosto deste ano.

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Toni Negri. Foto publicada no Outras Palavras.

Da infância nos anos de guerra ao estudo de filosofia e à militância comunista, de 68 ao massacre da Piazza Fontana, do Poder Operário à Autonomia e de 77 à prisão e ao exílio. E novamente a prisão, antes da liberdade definitiva. Toni Negri – que contou a sua trajetória, em parceria com Girolamo De Michele, em três volumes autobiográficos: Storia di un comunista [História de um comunista], Galera e esilio [Prisão e exílio] e Da Genova a Domani [De Gênova ao amanhã] (Ponte alle Grazie) – completou 90 anos a 1 de agosto. 

Nesta entrevista, concedida ao jornal Il Manifesto, o filósofo e militante retoma momentos cruciais da sua vida, como os anos 1960, o 68 italiano, os anos de prisão e exílio. Também coloca em perspetiva o Partido Comunista Italiano, que, em determinado momento, caiu na armadilha de um justicialismo e delegou a política aos magistrados, processo que está na origem, segundo Negri, do desaparecimento da esquerda no país, nos dias atuais.

A entrevista aborda também os escritos que deram ao filósofo uma renovada projeção internacional, em coautoria com Michael Hardt, professor de literatura na Duke University, nos Estados Unidos, como: Império, Multidão, Comum e O Bem Estar Comum [Record]. E ainda revisita sua aproximação a pensadores como Spinoza, sobre quem escreveu um importante livro – Spinoza Subversivo – quando estava na prisão. 

Por fim, Toni Negri responde a questões a respeito do modo como se refere a São Francisco de Assis, ao qual ele diz se sentir próximo desde muito cedo. Para ele, Francisco é, sobretudo, um modo de trazer o amor, “como uma arma para a vida”, para o campo político. Diz Negri:  

“Francisco é o amor contra a propriedade: exatamente o que poderíamos ter feito na década de 1970, revertendo esse desenvolvimento e criando uma nova maneira de produzir. Francisco nunca foi suficientemente abordado, nem a importância que o franciscanismo teve na história italiana foi devidamente levada em conta. Menciono isso porque quero que palavras como amor e alegria entrem na linguagem política.” 

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Roberto Ciccarelli – Completou 90 anos. Como vive o seu tempo hoje?

Toni Negri – Lembro-me de Gilles Deleuze, que sofria de uma doença semelhante à minha. A assistência e a tecnologia de que dispomos hoje não existiam naquela época. A última vez que o vi ele movia-se com um carrinho com cilindros de oxigênio. Foi muito difícil. Hoje também é para mim. Acho que nessa idade cada dia que passa é um dia a menos. Já não temos forças para torná-lo um dia mágico. É como quando comemos uma boa fruta e ela deixa na boca um gosto maravilhoso. Esse fruto é a vida, provavelmente. É uma das suas grandes virtudes.

Noventa anos são um século breve.

Pode haver vários séculos breves. Há o clássico período definido por Hobsbawm, de 1917 a 1989. Houve o século americano, que foi bem mais curto. Durou desde os acordos monetários e de governança global em Bretton Woods até os atentados às Torres Gémeas em setembro de 2001. No que me concerne, o meu longo século começou com a vitória bolchevique, pouco antes de eu nascer, e continuou com as lutas dos trabalhadores e todos os conflitos políticos e sociais dos quais participei.

Este breve século terminou com uma derrota colossal.

É verdade. Mas eles pensaram que era o fim da história e que tinha começado uma era de globalização pacificada. Nada mais falso, como verificamos todos os dias há mais de 30 anos. Estamos num momento de transição, mas na realidade sempre estivemos. Embora possa passar despercebido, encontramo-nos numa nova era marcada pelo ressurgimento mundial de lutas, contra as quais existe uma resposta dura. As lutas dos trabalhadores começaram a cruzar-se cada vez mais com lutas feministas, antirracistas, em defesa dos imigrantes e pela liberdade de movimento, ou com as lutas ambientais.

Filósofo, tornou-se professor em Pádua ainda muito jovem. Participou da Quaderni Rossi, a revista do operariado italiano. Fez investigação e trabalho de base nas fábricas, a começar pela Petroquímica em Marghera. Fez parte, primeiro, do Potere Operaio, depois da Autonomia Operaia. Viveu o longo 68 italiano, começando com o impetuoso 1969 dos trabalhadores em Corso Traiano, em Turim. Qual foi o momento político culminante dessa história?

A década de 1970, quando o capitalismo antecipou fortemente uma estratégia para o seu futuro. Com a globalização, precarizou-se o trabalho industrial e todo o processo de acumulação de valor. Nessa transição, foram lançados novos polos produtivos: trabalho intelectual, trabalho afetivo, trabalho social que constrói a cooperação. Na base da nova acumulação de valor também estão, é claro, o ar, a água, a vida e todos os bens comuns que o capital continuou a explorar para neutralizar a queda da taxa de lucro que vinha a sofrer desde os anos 1960.

Por que razão, desde meados dos anos 1970, a estratégia capitalista triunfou?

Porque faltou uma resposta da esquerda. De facto, por muito tempo houve um total desconhecimento desses processos. Desde o final da década de 1970, foi eliminada qualquer força intelectual ou política, pontual ou de movimento, que tentasse mostrar a importância dessa transformação e que visasse a reorganização do movimento operário em torno de novas formas de socialização e organização política e cultural. Foi uma tragédia. Aqui aparece a continuidade do curto século no tempo que vivemos agora. Havia uma vontade da esquerda de bloquear o quadro político para preservar o que já tinha.

E o que essa esquerda tinha?

Uma imagem poderosa, mas já então insuficiente. Mitificou-se a figura do trabalhador industrial sem perceber que ele mesmo desejava algo muito diferente. Ele não queria conformar-se com a fábrica de Agnelli, mas destruir a sua organização; ele queria construir carros para oferecer aos outros sem escravizar ninguém. Em Marghera, eles não queriam morrer de cancro ou destruir o planeta. Isso é basicamente o que Marx escreveu em Crítica ao Programa de Gotha: contra a emancipação pelo trabalho mercantil patrocinado pela social-democracia e pela libertação da força de trabalho do trabalho mercantilizado. Estou convencido de que a direção tomada pela Internacional Comunista – de forma óbvia e trágica com o estalinismo, e depois de forma cada vez mais contraditória e impetuosa – destruiu o desejo que mobilizava massas gigantescas. Para toda a história do movimento comunista, aquela foi a batalha.

O que foi enfrentado naquele campo de batalha?

Por um lado, havia a ideia de libertação. Na Itália, foi iluminada pela resistência contra o nazifascismo. A ideia de libertação foi projetada na própria Constituição, como a interpretamos então quando éramos jovens. E aqui eu não subestimaria a evolução social da Igreja Católica que culminou no Concílio Vaticano II. Por outro lado, havia o realismo, herdado da social-democracia pelo Partido Comunista Italiano, aquele de Amendola e dos seguidores de Togliatti, de diferentes origens. Tudo começou a desmoronar nos anos 1970, precisamente quando, pelo contrário, surgiu a possibilidade de inventar uma nova forma de vida, uma nova forma de ser comunistas.

Continua a definir-se como comunista. O que significa isso hoje?

O que significou para mim quando jovem: conhecer um futuro em que teríamos conquistado o poder de sermos livres, de trabalharmos menos, de nos amarmos. Estávamos convencidos de que conceitos burgueses como liberdade, igualdade e fraternidade poderiam materializar-se em palavras de ordem como cooperação, solidariedade, democracia radical e amor. Pensamos e fizemos, assim pensou a maioria que votou na esquerda e a fez existir. Mas o mundo era e é insuportável, tem uma relação contraditória com as virtudes essenciais do viver junto. No entanto, essas virtudes não se perdem, são adquiridas através da prática coletiva e vêm acompanhadas da transformação da ideia de produtividade, o que não significa produzir mais bens em menos tempo, nem travar guerras cada vez mais devastadoras. Pelo contrário, trata-se de alimentar todos, modernizar, fazer as pessoas felizes. O comunismo é uma paixão coletiva alegre, ética e política que luta contra a trindade da propriedade, das fronteiras e do capital.

As prisões de 7 de abril de 1979, primeiro momento da repressão ao movimento da autonomia operária, marcaram um antes e um depois. Por diversas razões, a meu ver, foi também pela história do Il Manifesto, graças a uma vibrante campanha garantista que durou anos, um caso jornalístico único realizado com militantes do movimento, um grupo de valentes intelectuais e o Partido Radical. Oito anos depois, em 9 de junho de 1987, quando desabou o castelo das acusações cambiantes e infundadas, Rossana Rossanda [fundadora do jornal Il Manifesto] escreveu que foi uma “reparação tardia e parcial de tantas coisas irreparáveis”. O que tudo isso significa para você hoje?

Foi sobretudo o sinal de uma amizade que nunca foi traída. Rossana foi para nós uma pessoa de uma generosidade incrível. Porém, em determinado momento, ela também parou: ela não era capaz de responsabilizar o PCI pelo que o PCI havia se tornado.

Em que ele se tornou?

Em um opressor. Ele massacrou aqueles que denunciaram a situação em que ele se meteu. Naqueles anos, muitos de nós dissemos isso ao partido. Havia outra maneira, que era ouvir a classe trabalhadora, o movimento estudantil, as mulheres e todas as novas formas pelas quais as paixões sociais, políticas e democráticas estavam se organizando. Propusemos uma alternativa de maneira honesta, limpa e em massa. Fazíamos parte de um enorme movimento que investiu nas grandes fábricas, nas escolas e nas gerações. O fechamento do PCI levou ao surgimento do extremismo terrorista. Pagamos por tudo isso e muito caro. Só eu passei um total de 14 anos no exílio e 11 anos e meio na prisão. Il Manifesto sempre defendeu nossa inocência. Era completamente idiota que eu ou outros membros da Autonomia fôssemos considerados sequestradores de Aldo Moro ou assassinos de companheiros. Entretanto, na campanha pela inocência, que se manteve corajosa e importante, um aspecto substancial foi deixado de lado.

Qual?

Fomos politicamente responsáveis ​​por um movimento muito mais amplo contra o “compromisso histórico” entre o PCI e os democratas-cristãos. Houve uma resposta da polícia de direita contra nós, e isso é compreensível. Pelo contrário, o que não se quer perceber é a abrangência que o PCI deu a esta resposta. No fundo, eles temiam que o horizonte da classe política mudasse. Se esse nó histórico não for compreendido, como se poderá lamentar a inexistência de uma esquerda na Itália atual?

A operação de 7 de abril e o chamado “teorema de Calogero” [em referência ao procurador que investigava o caso e que pediu as prisões dos principais líderes da Autonomia Operária] foram considerados um passo para a conversão de uma parte não desprezível da esquerda ao “judiciarismo” e a delegação da política ao poder judiciário. Como foi possível cair em tal armadilha?

Quando o PCI substituiu a centralidade da luta económica e política pela luta moral, fê-lo através dos juízes que gravitavam em torno do partido, encerrou a sua trajetória. Eles realmente acreditavam que estavam a usar o judiciarismo para construir o socialismo? O judiciarismo é uma das coisas mais apreciadas pela burguesia. É uma ilusão devastadora e trágica que nos impede de ver o uso classista da lei, da prisão ou da polícia contra os subalternos. Naqueles anos, os jovens juízes também mudaram. Antes eram muito diferentes. Eram chamados de “precetores de assalto”. Lembro-me dos primeiros números da revista Democrazia e Diritto [Democracia e Direito], no qual também colaborei. Eles encheram-me de alegria porque estávamos a falar sobre justiça de massa. Depois a ideia de justiça decaiu de forma bem diferente, voltou aos conceitos de legalidade e legitimidade. E no Judiciário deixou de haver posição política, restando apenas coligações entre correntes. Assim, temos hoje uma Constituição reduzida a um pacote de regras que já nem correspondem à realidade do país.

Na prisão, continuou a batalha política. Em 1983, escreveu um documento na prisão, publicado por Il Manifesto, intitulado Do You Remember Revolution? [Você lembra da revolução?]. Falava da originalidade do 68 italiano, dos movimentos dos anos 70 que não podiam ser reduzidos aos “anos de chumbo”. Como viveu aqueles anos?

Aquele documento dizia coisas importantes com certa timidez. Acho que estava a dizer mais ou menos as coisas que acabei de recordar. Foi um período difícil. Estávamos dentro, tínhamos que sair de alguma maneira. Confesso que no meio daquele imenso sofrimento era melhor para mim estudar Spinoza do que pensar na escuridão absurda em que nos encerraram. Escrevi um longo livro sobre Spinoza e isso foi uma espécie de ato heróico. Eu não podia ter mais de cinco livros na minha cela. E estava constantemente a mudar de prisão especial: Rebibbia, Palmi, Trani, Fossombrone, Rovigo. Cada vez numa nova cela, com pessoas diferentes. Esperar alguns dias e recomeçar. O único livro que carreguei comigo foi a Ética de Spinoza. Tive a sorte de terminar o meu texto antes do motim na prisão de Trani em 1981, quando as forças especiais destruíram tudo. Fico feliz que esse livro tenha produzido um choque na história da filosofia.

Em 1983 foi eleito deputado e saiu da prisão por alguns meses. O que acha do momento em que votaram no parlamento a favor do seu retorno à prisão e decidiu exilar-se em França?

Ainda sofro muito com isso. Se tenho que fazer um julgamento histórico e imparcial, acho que fiz bem em sair. Em França fui útil para estabelecer relações entre gerações e pude estudar. Tive a oportunidade de trabalhar com Félix Guattari e pude entrar nos debates do momento. Ajudou-me muito a entender a vida dos “sans papiers” [ou “sem documentos”, referência aos imigrantes ilegais na França]. Eu também estava nessa situação: dava aulas, mesmo sem ter um cartão de identidade. Os meus colegas da Universidade de Paris 8 ajudaram-me, mas noutros aspetos acho que me enganei. Fiquei profundamente abalado por ter deixado os meus companheiros na prisão, aqueles com quem vivi os melhores anos da minha vida e as revoltas em quatro anos de prisão preventiva. Ainda dói tê-los deixado. Aquela prisão destruiu a vida de colegas que eu amava muito e, em muitos casos, também das suas famílias. Tenho 90 anos e fui salvo. Mas isso não me traz mais serenidade diante daquele drama.

Rossanda também o criticou…

Sim, ela pediu-me para me comportar como Sócrates. Respondi que corria o risco de acabar como o filósofo. Por causa dos relacionamentos na prisão, poderia ter morrido. Pannella tirou-me materialmente da prisão e depois jogou toda a culpa em mim porque eu não queria voltar. Muitas pessoas enganaram-me. Rossana alertou-me naquela época, e talvez ela estivesse certa.

Houve outra ocasião em que ela fez isso?

Sim, quando ela me disse para não voltar de Paris para a Itália em 1997, após 14 anos de exílio. Eu vi-a pela última vez antes de partir, num café perto do Museu Cluny, o museu nacional da Idade Média. Ela disse-me que queria amarrar-me com uma corrente para me impedir de apanhar aquele avião.

Por que decidiu voltar para Itália?

Eu estava convencido de que iria lutar pela amnistia para todos os companheiros da década de 1970. Na época, isso parecia possível. Fiquei seis anos na prisão até 2003. Talvez Rossana tivesse razão.

Que lembranças tem dela hoje?

Lembro-me da última vez que a vi em Paris. Ela era uma amiga muito querida que estava preocupada com as minhas viagens à China, com medo de que algo de mal se passasse comigo. Ela era uma pessoa maravilhosa, naquela época e sempre.

Anna Negri, sua filha, escreveu Con un piede impigliato nella storia [Com um pé enredado na história] (DeriveApprodi), que conta essa história do ponto de vista dos seus afetos e de outra geração.

Tenho três filhos maravilhosos, Anna, Francesco e Nina, que sofreram de forma indescritível o que aconteceu. Assisti à série de Bellocchio sobre Aldo Moro e ainda fico atónito por ter sido acusado dessa incrível tragédia. Penso nos meus dois primeiros filhos, que estavam na escola. Alguns viam-nos como filhos de um monstro. Esses meninos, de uma forma ou de outra, suportaram eventos enormes. Eles saíram da Itália e voltaram, eles mesmos passaram por aquele longo inverno. O mínimo que eles podem ter é uma certa raiva dos pais que os colocaram nessa situação. E eu tenho uma certa responsabilidade nessa história. Tornamo-nos amigos novamente. Para mim, isso é um presente de imensa beleza.

No final da década de 1990, coincidindo com os novos movimentos globais e, em seguida, com os movimentos contra a guerra, conquistou uma posição de grande reconhecimento juntamente com Michael Hardt, começando com a publicação de Império. Como definiria a relação entre filosofia e militância hoje, num momento de retorno à especialização e às ideias reacionárias e elitistas?

É difícil para mim responder a essa pergunta. Quando as pessoas me dizem que fiz uma “ópera”, eu respondo: lírica? Dá para acreditar nisso? Tenho de rir. Porque sou mais um militante do que um filósofo. Isso pode fazer algumas pessoas rirem, mas eu vejo-me assim, como Papageno… [o personagem pássaro da ópera A flauta mágica, de Mozart]

Mas a verdade é que escreveu muitos livros.

Tive a sorte de estar a meio caminho entre a filosofia e a militância. Nos melhores períodos da minha vida, passei constantemente de um para o outro. Isso permitiu-me cultivar uma relação crítica com a teoria capitalista do poder. Pivô em Marx, fui de Hobbes a Habermas, passando por Kant, Rousseau e Hegel. Pessoas sérias o suficiente para serem combatidas. Em contrapartida, a linha Maquiavel-Spinoza-Marx era uma alternativa real. Para reiterar: a história da filosofia, para mim, não é um tipo de texto sagrado que misturou todo o conhecimento ocidental, de Platão a Heidegger, com a civilização burguesa e transmitiu conceitos funcionais ao poder. A filosofia faz parte da nossa cultura, mas deve ser usada para o que é necessário, ou seja, para transformar o mundo e torná-lo mais justo. Deleuze falou de Spinoza e retomou a iconografia que o retratava como Masaniello. Gostaria que isso fosse verdade para mim. Mesmo agora que estou com 90 anos, ainda tenho essa relação com a filosofia. Viver a militância é menos fácil, mas consigo escrever e ouvir, numa situação de exílio.

Exilado, ainda hoje?

Um pouco, sim. Mas é um exílio diferente. Depende do facto de que os dois mundos em que vivo, Itália e França, têm dinâmicas de movimento muito diferentes. Em França, o operaísmo não teve um grande número de seguidores, mesmo que esteja a ser redescoberto hoje. O movimento de esquerda na França sempre foi liderado pelo trotskismo ou pelo anarquismo. Na década de 1990, com a revista Futur antérieur, com o meu amigo e camarada Jean-Marie Vincent, encontramos uma mediação entre o gauchisme e o operaísmo: funcionou por cerca de dez anos. Mas fizemos isso com muita cautela. Deixamos o julgamento da política francesa para os nossos camaradas franceses. O único editorial importante escrito por italianos na revista foi aquele sobre a grande greve dos trabalhadores ferroviários de 1995, que era muito parecida com as lutas italianas.

Por que o operaísmo tem uma ressonância global atualmente?

Porque responde à necessidade de resistência e de um renascimento das lutas, como em outras culturas críticas com as quais dialoga: feminismo, ecologia política, crítica pós-colonial, por exemplo. E também porque não é a costela de nada ou de ninguém. Nunca foi, nem foi um capítulo na história do PCI, como alguns se iludem. Em vez disso, é uma ideia precisa da luta de classes e uma crítica da soberania que coagula o poder em torno do polo patronal, proprietário e capitalista. Mas o poder é sempre dividido e está sempre aberto, mesmo quando parece não haver alternativa. Toda a teoria do poder como uma extensão da dominação e da autoridade, feita pela Escola de Frankfurt e as suas evoluções recentes, é falsa, mesmo que infelizmente continue hegemônica. O operaísmo joga por terra essa leitura brutal. É um estilo de trabalho e pensamento. Assume a história de baixo para cima, feita pelas grandes massas que se movem, e procura a singularidade numa dialética aberta e produtiva.

As suas constantes referências a Francisco de Assis sempre me impressionaram. De onde veio esse interesse pelo santo e por que o tomou como exemplo da sua alegria em ser comunista?

Desde jovem, riam-se de mim porque eu usava a palavra amor. Eles tomavam-me por um poeta ou um iludido. Pelo contrário, sempre achei que o amor era uma paixão fundamental que mantém o género humano de pé. Pode tornar-se numa arma para continuar a viver. Venho de uma família que foi miserável durante a guerra e me ensinou uma afeição com a qual vivo até hoje. No fundo, Francisco é um burguês que vive numa época em que percebe a possibilidade de transformar a própria burguesia e criar um mundo em que as pessoas se amem e amem os viventes. O apelo a ele, para mim, é como o apelo a Ciompi feito por Maquiavel. Francisco é o amor contra a propriedade: exatamente o que poderíamos ter feito na década de 1970, revertendo esse desenvolvimento e criando uma nova maneira de produzir. Francisco nunca foi suficientemente abordado, nem a importância que o franciscanismo teve na história italiana foi devidamente levada em conta. Menciono isso porque quero que palavras como amor e alegria entrem na linguagem política.


Por Toni Negri em entrevista a Roberto Ciccarelli para Il Manifesto | Tradução de Maurício Ayer para o Outras Palavras. Adaptação para português de Portugal por Mariana Carneiro.