Sobreaquecimento do Mediterrâneo ameaça biodiversidade

09 de agosto 2024 - 18:41

As ondas de calor marinho no Mediterrâneo são cada vez mais frequentes. Há espécies que vão ficando em perigo, outras que migram e aumenta o risco de proliferação de algas nocivas que podem ser tóxicas.

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Mediterrâneo
Mediterrâneo perto de Marselha. Foto de Chabe01/Wikimedia Commons.

Uma onda de calor marinho abrange neste momento quase todo o Mediterrâneo com as temperaturas das águas a atingirem 30ºC em muitos pontos e a temperatura média a ser 27,35ºC, o que é 1,98 mais elevado do que habitual.

Do lado da Europa ocidental, esta vaga de calor faz-se sentir nas áreas costeiras de Itália, França e Espanha que têm registado temperaturas quentes anómalas. Thibault Guinaldo, investigador em oceanografia espacial do Centro Nacional de Investigação Meteorológica (Météo France/CNRS), explica que apenas o Golfo de Lyon se encontra dentro dos limites normais e que “há duas semanas que as temperaturas são muito elevadas”, tendo a temperatura da água aquecido 6°C num mês.

A meteorologista espanhola Marta Almacha sintetiza no El Tiempo que o Mediterrâneo “está a arder”. Nesta página dá-se conta de temperaturas demasiado quentes nas águas de Maiorca, Valência, Barcelona, entre outros pontos.

Em França, a agência meteorológica Météo-France anuncia medições de 30ºC na Córsega, em Nice e na costa leste do Mónaco em dois pontos longe da costa pelo que a temperatura mais perto de terra poderá ser ainda mais quente. Entre a Côte d’Azur e a Córsega e em Itália as anomalias estão na ordem dos quatro a cinco graus.

No Mediterrâneo oriental, também há registos de aumentos de temperatura. Nos Balcãs a temperatura está próxima dos 30º. Aí a anomalia é relativamente menor, com perto de três graus de sobreaquecimento mas as temperaturas estão já muito elevadas há dois meses seguidos.

Noutros pontos, como a Tunísia e em Malta, o aquecimento também se verifica. Aliás, o especialista do Grupo de Investigação Marinha da Universidade de Malta, Adam Gauci, avisa para o impacto nos habitats marinhos que leva algumas espécies a ter de migrar para águas mais frescas, colocando em causa a biodiversidade ao longo das costas. Ao Malta Today, citado pela Euronews, acrescenta que “o aumento das temperaturas também aumenta o risco de proliferação de algas nocivas, que podem ser tóxicas para a vida marinha e, eventualmente, para os humanos”.

O aquecimento deste ano, notam os especialistas não é isolado. Recordes de calor também foram sentidos em 2019, 2022 e o ano passado. Thierry Perez, diretor de investigação do CNRS, especializado em ecologia marinha, afirma ao Libération que o sobreaquecimento se vai repetindo: “no início da década de 2000, ocorriam ondas de calor marinhas a cada três ou quatro anos no Mediterrâneo mas desde 2017 que temos um evento por ano”. Para além disso, “as águas superficiais têm estado anormalmente quentes quase continuamente, em todas as épocas do ano”.

Ao mesmo jornal, Jean-Pierre Gattuso, diretor de investigação do CNRS no laboratório oceanográfico de Villefranche-sur-Mer, insiste que a recorrência do fenómeno é “preocupante”, não surpreendendo a comunidade científica: “os modelos do IPCC mostram que se não reduzirmos significativamente a concentração de CO2 na atmosfera, as ondas de calor marinhas continuarão a aumentar em frequência, intensidade e área”.

Também ele não esquece as consequências para a biodiversidade: “é sempre a mesma coisa: dentro de algumas semanas, os mergulhadores vão reportar mortes em massa de gorgónias, ostras, ouriços-do-mar, mexilhões, corais, é completamente angustiante”. E acrescenta que “as espécies vulneráveis não morrem apenas após uma onda de calor marinho, mas, ano após ano, uma certa percentagem é perdida e as populações diminuem”. Para ele, “dentro de dez a vinte anos, existe uma probabilidade muito séria de extinção de espécies como as gorgónias”, um “parente” dos corais que é habitat para muitas outras espécies.