Michelle O’Neill tornou-se a primeira militante do Sinn Féin a assumir o cargo de primeira-ministra da Irlanda do Norte, um território concebido à partida para que tal não viesse a acontecer. Depois de um boicote de dois anos por parte dos unionistas, um acordo foi finalmente alcançado para retomar a tradicional partição de poder na sequência dos acordos de paz de Sexta-Feira Santa de há quase 26 anos.
Desta forma, o cargo de vice-primeira-ministra coube ao Partido Democrático Unionista, DUP, e foi atribuído a Emma Little-Pengelly, e o de “speaker” da Assembleia da Irlanda do Norte coube ao ex-líder do mesmo partido Edwin Poots.
A partição não é uma solução considerada positiva pelo Sinn Féin. E Mary Lou McDonald, a sua presidente, numa entrevista à Sky News, diz que os seus “dias estão contados” porque “não funciona”, sendo o atual executivo composto de forças políticas com projetos opostos. Ainda assim a líder partidária não deixa de sublinhar que se trata de um facto histórico, “símbolo de uma mudança mais vasta a acontecer em toda a Irlanda”, com as projeções a favorecerem a sua força política também na parte da Irlanda que é independente.
Ao mesmo órgão de comunicação, a recém-empossada primeira-ministra O’Neill disse que vai “liderar um novo executivo que apoia os trabalhadores e as famílias e trabalha em conjunto para garantir mais investimento de forma a assegurar os melhores serviços públicos possíveis”.
O impasse do Brexit
O impasse político na Irlanda do Norte estava intimamente ligado ao Brexit, que deixou em aberto a espinhosa questão da fronteira entre o norte e o resto da Irlanda. Ao sair da União Europeia, o Reino Unido fazia automaticamente daquela linha uma fronteira com aquele espaço económico, o que contrariaria o espírito do acordo de paz. Seria preciso ao mesmo tempo assegurar o não regresso a uma “fronteira dura” entre as duas partes da Irlanda e estabelecer uma fronteira entre o espaço comunitário europeu e um país que acabara de sair dele.
Para resolver a questão, o governo britânico acabou por assinar o chamado Protocolo da Irlanda do Norte que previa uma fronteira marítima no mar da Irlanda. A soalução foi contestada pelo DUP, então maioritário, tendo o primeiro-ministro deste partido pedido a demissão.
O Sinn Féin saiu vencedor nas eleições de maio de 2022, com 27 deputados contra 25 do ex-partido de governo. Iniciou-se a partir daí o boicote à formação do governo, que para cumprir o acordo de paz tem sempre de integrar o maior partido de cada uma das partes, republicanos e unionistas.
Este boicote unionista terminou no fim do mês passado com um acordo denominado de “Salvaguarda da União”, que o DUP considerou que acabava com esta fronteira e portanto asseguraria a pertença da Irlanda do Norte ao Reino Unido. Na prática, o que acontecerá será um alívio das fiscalizações desde que os bens provenientes do Reino Unido permaneçam na Irlanda do Norte o que já tinha sido acordado antes com a União Europeia.
Reunificação à vista?
Com as forças republicanas a ganharem no norte, a questão da reunificação da Irlanda volta a estar a na ordem do dia. Isto apesar de o primeiro-ministro britânico Rishi Sunak vincar, em declarações citadas pelo Independent, que a prioridade não é uma “mudança constitucional” nesse sentido, aconselhando o Sinn Féin a focar-se nas questões “do dia a dia”.
O trabalho de colocar isto em palavras mais duras ficou para Chris Heaton-Harris, secretário do Governo do Reino Unido para a Irlanda do Norte, ao afirmar que as condições para um referendo “definitivamente não estão alcançadas neste momento”.
As palavras de Michelle O'Neill na tomada de posse apontaram desde logo para uma abertura das “portas para o futuro” numa “década de oportunidades”, o que foi lido por muitos como o colocar em cima da mesa da questão, apesar dela vincar que esse futuro seria “partilhado” e “em conjunto”. Mais tarde, na entrevista à Sky News, clarificou que a década de oportunidades ia neste sentido e que a mudança estava a acontecer, nomeadamente pelo facto de um republicano estar a assumir um cargo que nunca seria suposto que tivesse. Nisso foi secundada por Mary Lou McDonald, em declarações à rádio RTÉ no domingo, que considerou que o tema estava “vivo” e que se podia esperar que o referendo acontecesse “nesta década”.
A resposta do DUP, por parte de Jeffrey Donaldson, veio na forma de crítica a um tema “divisivo” apresentado por alguém que dizia ser “a primeira-ministra de todos”, indicando que o povo “não está interessado” nesta votação.
Do lado do governo da República da Irlanda, o primeiro-ministro Leo Varadkar avaliou a tomada de posse como um “dia histórico” mas desvalorizou a questão do referendo para a reunificação dizendo que “a prioridade de qualquer novo executivo, em qualquer governo de qualquer país, tem de ser as preocupações quotidianas das pessoas”.
Segundo o acordo de paz, caberia ao Governo britânico avaliar a existência de indícios de uma maioria no sentido da reunificação para depois ser convocado um referendo. A maioria do Sinn Féin parece dar sinais nesse sentido mas os britânicos não estão dispostos a avançar.