A sessão pública “Travar a espiral da Guerra” realizada na noite da segunda-feira contou com intervenções de José Manuel Rosendo, Francisco Pereira Coutinho, Mariana Vieira da Silva, Nuno Ramos de Almeida, Joana Seixas, Frei José Nunes, Cecília Honório e José Pacheco Pereira. A abrir a sessão, houve um momento musical com Pedro Branco a interpretar “Do que um homem é capaz”, de José Mário Branco.
José Manuel Rosendo: “O problema é que depois das bombas o ódio cresce ainda mais”
O jornalista José Manuel Rosendo assumiu o papel de moderador da sessão, começando por afirmar que “o direito internacional, o respeito pelos direitos humanos e o multilateralismo são as únicas respostas que nos podem trazer paz, justiça, segurança e desenvolvimento e que “temos de conseguir opor o discurso da paz ao discurso do ódio”.
“Tudo isto poderia ser evitado através do diálogo e da diplomacia. Não é evitado porque há muito claramente uma visão imperial no eixo Washington-Telavive”, prosseguiu o jornalista que nas últimas décadas tem acompanhado no terreno a situação no Médio Oriente. Por já ter assistido a muitas guerras José Manuel Rosendo sabe que “o problema é que depois das bombas o ódio cresce ainda mais. É sempre assim. A guerra não constrói paz nem segurança, nunca construiu” e por isso “tem de haver outra solução”.
Francisco Pereira Coutinho: “Ajudar Trump a reabrir estreito de Ormuz? Não, obrigado!”
Seguiu-se a intervenção de Francisco Pereira Coutinho, professor de Direito Internacional, que diz mostrar sempre aos seus alunos o filme Star Wars, cuja história considera ser também a história do direito internacional: a de uma comunidade política baseada em regras e instituições, “imperfeita, cheia de conflitos, mas fundada numa ideia essencial: que o poder deve ser limitado pelo direito” que é ameaçada por um império, “um poder que despreza regras, que acredita que a segurança e a prosperidade justificam tudo, mesmo a conquista”. A Carta das Nações Unidas, prosseguiu, com a sua proibição da guerra de agressão, conseguiu diminuir drasticamente as guerras de conquista que marcaram os séculos anteriores e as duas guerras mundiais do século XX.
Mas essas regras têm estado sob ataque nas últimas décadas, com as invasões do Iraque e da Ucrânia. No que chama de “terceira guerra do Golfo”, Francisco Pereira Coutinho defendeu que “uma guerra destinada a alterar o regime de outro Estado cria um precedente extremamente perigoso”, que se segue à destituição de Maduro na Venezuela onde “o objetivo não era restaurar a democracia, mas sim criar um protetorado num país com enormes recursos energéticos”.
A normalização destas práticas “altera as regras do sistema”, pois “as exceções às regras que enfraquecemos hoje serão inevitavelmente invocadas por outros Estados amanhã, com outras motivações, outros interesses e outras consequências”, alertou. Razão pela qual defende que a resposta do governo português ao pedido de Trump aos aliados da NATO para ajudarem a reabrir o estreito de Ormuz deve ser “Não, obrigado!”.
Mariana Vieira da Silva: “O principal adversário é o pessimismo”
O exemplo da invasão dos EUA ao Iraque em 2003 foi retomado na intervenção da deputada socialista Mariana Vieira da Silva, mas para sublinhar a diferença na resposta popular que então juntou nas ruas gente de ideologias diferentes e como hoje “tudo isso é infelizmente tão distante”. A explicação para isso, prosseguiu, é o resultado da estratégia popularizada por Steve Bannon de inundar o espaço público de insultos, mentiras e agressões para limitar a capacidade de reação das pessoas que “às 10 da manhã já não sabem bem quais são as três coisas com que se devem indignar mais” nesse dia.
O resultado é levar a que pareçam “desatualizadas” ideias como dar prioridade à diplomacia e ao diálogo ou prevenir conflitos através da cooperação internacional, “como se lutar pela paz ou exigir que a lei seja cumprida parecesse hoje uma ideia pueril” numa sociedade europeia também anestesiada por uma guerra mais próxima que decorre há quatro anos e é mostrada nas televisões com imagens em loop de bombardeamentos, escolas e hospitais destruídos e crianças a morrer de fome.
Mariana Vieira da Silva contrapôs que os ingénuos e os “desligados da realidade” são aqueles “que não entendem as consequências das ações que estão a tomar, que não conhecem o território onde estão a provocar uma guerra, que não lhes interessa nada, nem a história, nem a história das sociedades com as quais se estão a relacionar” e por isso se tornam um perigo “à nossa segurança comum”. E que para os vencer é preciso derrotar o pessimismo que aponta como principal adversário, tendo em conta que ao contrário das gerações jovens que saíram ás ruas em 2003, para os jovens de hoje as palavras guerra, crise e inflação “já fazem parte da vida deles”.
Nuno Ramos de Almeida: “Esta situação só vai acabar quando nós tivermos a capacidade de tornar o invisível visível”
Também o jornalista Nuno Ramos de Almeida, que participou nas mobilizações de 2003 contra a invasão do Iraque, destacou as semelhanças e as diferenças da atual situação, desde a justificação do programa nuclear hoje e das armas de destruição massiva naquela altura ou a “doutrina extraordinária que cada vez que os Estados Unidos procuram a democracia encontram o petróleo”, recordando que “a primeira vez que tentaram mudar o regime do Irão foi em 1953, quando derrubaram um primeiro-ministro eleito, Mossadegh”.
Entre as coisas que mudaram estão a atual “libertação do ódio, da palavra imperial, do ‘quero, posso e mando’, de uma lei do mais forte, uma espécie de hegemonia predatória que não tem disfarces” e que é rematada no “muito Orwelliano Conselho da Paz onde se entra pagando para distribuir no fundo os restos dos outros países entre si, presidido eternamente por Trump”.
No atual momento, Nuno Ramos de Almeida vê um regresso ao século XIX, “na altura que os Estados Unidos discutiam no Congresso a anexação das Filipinas ou punham uma lei em relação a Cuba”. A grande questão é “como é que normalizamos isto?”, prosseguiu, referindo as crianças a serem bombardeadas na Palestina, ou a forma como a população pobre, imigrante ou racializada é tratada nos nossos bairros. “Esta situação só vai acabar quando nós tivermos a capacidade de tornar o invisível visível” e ver que “essas pessoas têm os mesmos direitos que nós, que essas pessoas são humanas, têm direito a viver como querem, sem nenhum império determinar o que fazem pela agressão e pela bomba”.
Joana Seixas: “Para travarmos batalhas importantes como a da ecologia, precisamos de estar vivos”
Na sua intervenção, a atriz e ativista ambientalista Joana Seixas começou por manifestar preocupação pela forma como a Europa está a ser arrastada “para uma forma de estar na política sem valores, sem decência e, principalmente, sem regras, que parecem ter deixado de existir”.
Falou também dos efeitos das sanções dos EUA que segundo a revista Lancet mataram 38 milhões de pessoas entre 1970 e 2023, e na forma como Israel é hoje responsável pela morte e mutilação de mais crianças no mundo. Além das questões da violação do direito internacional, Joana Seixas destacou ainda o impacto ambiental das guerras promovidas pelos EUA, cuja indústria militar lidera as emissões de CO2, lamentando que a batalha ecológica passe para segundo plano “porque para a travarmos precisamos de estar vivos”.
Assumindo-se defensora do decrescimento, a atriz e ativista defendeu que a ciência deve ser levada “a um patamar de proteção da natureza e não da sua exploração”.
Frei José Nunes: “No meio da guerra não vale a pena andar a clamar por justiça, porque vivemos no caos”
A intervenção seguinte, de um frade dominicano e antigo professor na Faculdade de Teologia da Universidade Católica, Frei José Nunes, veio acrescentar, nas suas palavras, “uma voz cristã é esta vontade de pôr fim à guerra e dar corpo a um desígnio de paz”. E começou por citar os dois últimos papa, lembrando que as primeiras palavras de Leão XIV como papa ao chegar à varanda do Vaticano foram "A paz esteja convosco”, repetindo no discurso de ano novo - o Dia Mundial da Paz - o apelo a “uma paz construída sem armas na mão, desarmada, e também desarmante, quer dizer, com um trabalho de negociação, de conversação, que dê corpo a uma prática desarmada”. Das palavras do papa Francisco recordou apenas uma frase de 2015: “Usar o nome de Deus para justificar a guerra ou o terror é uma blasfémia".
Sem esconder o papel protagonista da Igreja em violências e guerras ao longo da história e dos massacres cometidos em nome da fé, Frei José Nunes considera-a “uma instituição com alguma credibilidade e que maioritariamente está ao serviço da paz”. Recordando a sua própria experiência durante a guerra civil em Angola, afirmou que “no meio da guerra nem vale muito a pena andar a clamar por justiça, porque vivemos no caos” e que na expressão “sem justiça não há paz” o contrário também é verdadeiro, pelo que a primeira coisa a fazer é parar a guerra. Por fim, criticou a comunidade internacional por se indignar nalgumas situações e não noutras, “dando a impressão de que há violações do direito que devem ser punidas e outras que devem ser consideradas danos colaterais”.
Cecília Honório: Posição europeia é a “resignação insuportável e humilhante”
A professora de História e ex-deputada bloquista Cecília Honório começou a sua intervenção por questionar “se podemos confiar que este governo e os partidos que o sustentam protegem a nossa soberania” quando permitem a utilização da Base das Lajes para apoiar os EUA ou quando o primeiro-ministro Luís Montenegro diz que “estamos ao lado dos EUA”, acusando-o de estar “ao lado dos interesses estrangeiros”. E estendeu a crítica à resposta europeia a esta guerra, marcada por uma “resignação insuportável e humilhante”.
“A defesa do direito internacional podia ter sido a voz da democracia contra o autoritarismo, mas a conivência das autoridades europeias é o pacto com a força bruta”, prosseguiu Cecília Honório, lembrando que von der Leyen “afirma que o direito internacional até pode ser posto na gaveta” E a vencedora acaba por ser a extrema-direita, que vê em Trump o se “chefe comum” e vai “domesticando a direita clássica, vai escavando a democracia liberal por dentro até a deixar sem pele” até que “no final serão todos vassalos de Trump”. Cecília Honório destacou ainda a apresentação da guerra como espetáculo “onde a propaganda da Casa Branca mistura o videojogo com masculinidade tóxica, com o que se tem classificado como pornografia de guerra”.
José Pacheco Pereira: “É a perda de esperança que justifica a normalização de tudo o que está a passar”
Coube ao filósofo e historiador José Pacheco Pereira encerrar esta sessão pública e começou por se assumir como “o pessimista de serviço”, afirmando que “a ideia de que a Europa é um continente de paz é uma treta” e que a maioria dos presentes na Cantina Velha “viveu no maior número de anos de paz que a Europa conheceu desde sempre”. Ainda olhando para a composição da sala, da qual disse conhecer metade das pessoas e que isso era um mau sinal, salientou as “ambiguidades” que são “uma parte das razões por nós estamos num canto”. por exemplo, o facto de a Ucrânia ter sido referida quatro vezes durante a sessão, apesar de ser alvo de uma guerra com contornos semelhantes à do Irão, ou a ausência de indignação com a invasão da Crimeia. “Nós não podemos ter indignações seletivas em relação a determinado tipo de coisas. Uma guerra de agressão é uma guerra de agressão”, sublinhou.
Considerando que a palavra paz é uma das mais ambíguas e manipuladas do discurso político, defendeu que há pazes justas e injustas. “E se nós deixamos que a ambiguidade da palavra paz permita, por exemplo, defender a rendição da Ucrânia e ao mesmo tempo usar no mesmo discurso como algo que condena a atitude de Israel e dos Estados Unidos, nós estamos a ter uma duplicidade fundamental”, argumentou Pacheco Pereira. O historiador falou ainda da crise da democracia, do “upgrade ideológico muito significativo do populismo” e da perda de esperança “que justifica a normalização de tudo o que está a passar”.
Citando as palavras de Donald Trump dias antes, quando disse que ia continuar a bombardear uma ilha iraniana “só por divertimento”, Pacheco Pereira criticou uma Europa “cobarde até ao tutano e que aceita isto como sendo uma coisa normal, com quem se pode negociar”. E terminou com uma “proposta lúdica”, a de criar um insuflável gigante do Zé Povinho a fazer o manguito e colocá-lo em frente da embaixada dos EUA. “Damos celebridade internacional ao Zé Povinho e ao mesmo tempo resumimos num único gesto a nossa atitude em relação ao que se está a passar de uma forma inteiramente explícita”, concluiu.