Será que o problema do BE se resolve com a demissão da sua direcção política?

29 de junho 2011 - 0:57

Contributo de Patricio Serendero

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O camarada Miguel Portas afirma que se deve auto-demitir. De acordo com ele o tempo político desta direcção acabou com a derrota que nos colocou no exacto lugar que temos na sociedade portuguesa.

É claro que esta pesada derrota não só se deve a ideologia dominante e ao conservadorismo dos portugueses. Nem ao desejo de derrotar Sócrates. Nós somos os responsáveis. E a nossa direcção é a primeira responsável. Num país onde ninguém é nunca responsável por nada, o reconhecimento desta responsabilidade na última reunião da Mesa Nacional é um progresso.

Temos outros companheiros e companheiras melhores que os actuais? Quais? Não foram estes mesmos companheiros que nos levaram à vitória de 2009? As políticas que defendíamos então, são distintas de aquelas da última eleição? Será que mudando a direcção, os nossos erros e deficiências desaparecerão magicamente? Me parece um falso dilema.

Em democracia burguesa, o poder político se ganha em eleições. E o BE desde o seu nascimento enveredou por este caminho. Para ganhar votos, que é disso que se trata em eleições, independentemente que isto moleste os puristas da ideologia que vivem no café a fazer a revolução, precisamos de entender que a forma é tanto ou mais importante que os conteúdos. E ali está o nosso primeiro problema. Um discurso ideológico com uma linguagem quase académica (o reflexo sociológico fiel daquilo que somos). Sendo correctas todas as nossas propostas, a mensagem não passa. Não é o “povo que não entende”. Somos nos que não sabemos fazer passar.

Do ponto de vista da propaganda política somos amadores. Por exemplo, a peregrina ideia de ir destilando com conta-gotas as 20 medidas em dias sucessivos até à eleição é um monumento a ignorância nas técnicas da publicidade (ou da propaganda neste caso). O cartaz principal de campanha falava de “justiça” e tinha sempre a cara de Louçã. Ora, tínhamos que beber um copo de água para poder explicar de que justiça falávamos. E logo ainda tínhamos que explicar que o BE não é só o camarada Louçã.

Segundo problema. Sectores do BE insistem na ideia da aliança com o PS. De que existem militantes de base do PS que podemos captar. E até que podemos fazer aliança com o PS. Será essa a “esquerda grande” de que falam?

Ignorar que os partidos socialistas europeus estão há muitos anos rendidos ao capitalismo, tendo-se convertido em máquinas gestoras deste modelo com um discurso ligeiramente social, é ignorar a história política recente. Nenhum destes partidos tem o socialismo como objectivo. Nem no curto nem no mais longínquo prazo. Não existe. Nunca vamos captar a base social dos socialistas de maneira permanente. Quem pensa isso não conhece o Partido Socialista. O sentido do voto dos “socialistas” nas últimas eleições é mais uma prova do errado desta política que é preciso abandonar com urgência.

Terceiro problema. O BE declara-se um partido de massas. Mas actua como um partido de quadros.

Centralizado, com todo um sistema de eleição indirecta para os seus níveis dirigentes, com propaganda feita (por razões económicas se diz) também centralmente, com um jornal digital que marca o passo da táctica em cada momento. Cada vez que existe algum problema político nos núcleos, a direcção desloca-se em bloco para apagar o fogo, fazendo sentir o seu peso sobre os militantes, como aconteceu no caso da escolha do candidato algarvio ao Parlamento em 2009. Um partido que se declara de massas e que até agora nunca fez uma campanha nacional séria e planificada de angariação de novos aderentes. Curioso partido de massas.

Isto ajuda a compreender que numa eleição possamos perder a metade dos votos. É lógico. Os “quadros” sempre são poucos, e o seu voto continua a valer um, como qualquer outro. O resto dos nossos votos pode ter a origem que qualquer aficionado da sociologia quiser inventar. O concreto é que são sempre votos que se decidem por um problema de imagem. E a imagem do BE é Francisco Louçã. Só que as imagens, como tudo na vida, gastam-se.

Quarto problema. Os portugueses não nos vêem como alternativa real, porque não temos qualquer força eleitoral e portanto sem opção de ser governo. Podem nos achar até simpáticos e com boas propostas. Mas muito longe de nos constituir uma alternativa séria de poder. E muita gente sem partido, indecisa e que não acha em quem acreditar, para além do seu conservadorismo, prefere votar em cavalos ganhadores.

Quinto problema. A nossa política de alianças NÃO existe. Somos sectários por definição, aliás como o PCP e o resto dos outros pequenos partidos e movimentos de esquerda portugueses. (um problema que lamentavelmente se repete um pouco por todos lados.) A última moção de censura é um exemplo disto. Pseudo-competição esquerdista com o PCP para se tirar do corpo o grosso erro de ter apoiado Alegre.

Enquanto não se forme uma Frente Ampla de Esquerda, capaz de unir partidos e movimentos sociais, onde todos os que vivem do seu trabalho tenham um lugar nela, com propostas simples capazes de serem compreendidas e aceites, e com a força acrescida que representa esta união dos de “abaixo”, nunca seremos alternativa de poder. Nunca a esquerda que levantou alto a bandeira do socialismo ganhou eleições, excepto quando criou alianças muito amplas com diferentes sectores do povo e a sociedade. O sectarismo é um verdadeiro cancro entre nós, para maior prazer da oligarquia. Os crescentes movimentos sociais no Médio Oriente e na Europa são o mais recente exemplo da força que tem unir interesses e aspirações comuns. Temos tudo a aprender com estes movimentos que continuam a passar-nos ao lado. Amplos, não sectários, com um discurso simples mas direito ao encontro das aspirações e desejos duma vida mais digna. Com um espírito de luta de fazer inveja. A burguesia europeia se inquieta não com os partidos de esquerda, mas sim com estes “indignados” que não controla. Que escapam ao sistema.

Não, não se deve demitir a actual direcção do BE agora. Ela é absolutamente necessária neste momento difícil para a nossa unidade interna. Eles são os melhores companheiros e companheiras que temos neste momento. Já virá o tempo de mudança de dirigentes nacionais, que sim parece necessária, no tempo dum novo congresso. Era bom nessa altura considerar, como em qualquer outro partido de massas, que os dirigentes nacionais sejam eleitos por voto directo. Os mecanismos da eleição indirecta permitem sempre a manipulação na base pelas fracções dominantes.

Até lá, dediquemos o nosso esforço a discutir os nossos problemas onde a crítica cega deve ser acompanhada por propostas construtivas. Criemos o partido colocando o esforço não no Parlamento mas no terreno, na rua, no local de trabalho; no desenvolvimento e crescimento dos núcleos; converjamos numa esquerda ampla, sem este sectarismo congénito que nos mata, com quem quiser apontar para o Socialismo; mudemos o discurso académico por palavras simples. Tenhamos uma propaganda profissional. E sobretudo, acreditemos que o nosso projecto de sociedade é o melhor para a grande maioria dos Portugueses.

Patricio Serendero, aderente do núcleo de Faro

Nota final:

Caros companheiros:

Envio a minha opinião para o debate. Já agora, que destino terão estas opiniões? É só para permitir um desabafo coletivo pela derrota e mostrar abertura?

Nesta altura de grandes dificuldades e com a moral das tropas muito baixa, o melhor seria a organização do debate interno em cada núcleo do país. Opiniões que pudessem se tornar em decisões de nos impulsar para continuar a luta. Mandar opiniões para um debate assim organizado como este, não dá nada, mas toda a gente fica feliz. Quero pensar que não será assim.