“Sem casa, sem futuro”, estudantes universitários mobilizam-se em Itália

24 de maio 2023 - 18:47

Uma estudante de 23 anos do Politécnico de Milão montou uma tenda no meio do campus. Desde então, o protesto tem crescido. E embora não seja massivo gerou um debate e uma proposta que, dizem os seus críticos, apenas aumentará a especulação imobiliária. Por Pedro Castrillo.

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Tendas do protesto dos estudantes em Milão. Foto do El Salto.
Tendas do protesto dos estudantes em Milão. Foto do El Salto.

A emergência habitacional na Itália é um facto em expansão. Inflação acelerada (+8,2% no mês de abril), aumento desproporcionado das faturas do gás e da luz e salários que, ao contrário de todos os outros países europeus, desde 1990 até hoje não apenas não aumentaram – nem sequer os 6,2% do Estado espanhol –, mas ainda reduziram-se. Tudo isto são ingredientes que, em maior ou menor medida, são comuns a todos os países do sul da Europa, onde aumenta a cada dia que passa o número de famílias abaixo do limiar da pobreza, os despejos e as listas de de espera para receber uma habitação a custos controlados.

Apesar disto, demonstrando que as mesmas condições materiais não provocam necessariamente os mesmos efeitos sociais em todos os tempos e lugares, em Itália a emergência habitacional desencadeou a resposta de um setor muito concreto da sociedade: os estudantes universitários. Não se trata de uma surpresa completa: nos últimos dez anos, especialmente em Roma mas não apenas aí, nasceram “residências” de estudantes ocupadas e auto-geridas, precisamente como resposta a um problema que é estrutural.

Combustão espontânea

O rastilho que incendiou a atual mobilização foi a ação de uma estudante de 23 anos do Politécnico de Milão que decidiu montar, no passado dia 4 de maio, uma tenda de campanha no meio do campus. “Os preços de Milão não permitem aos estudantes de famílias normais arrendar uma habitação. […] Apenas encontrava habitações individuais a 700 euros por mês e não conseguia pagar isso”. O testemunho não exagera: um relatório recente indica que capital lombarda está à frente deste ranking demencial com um preço médio de 810 euros por mês por uma habitação individual, seguida por Roma (630 euros), Veneza (580), Florença (570) e Bolonha (530). O gesto não caiu em saco roto: a tenda solitária do Politécnico de Milão transformou-se num pequeno acampamento e a ação foi rapidamente imitada em várias universidades de Roma e Bolonha. A reivindicação fundamental do protesto era clara: mais alojamentos para estudantes nas proximidades das universidades e a preços acessíveis. Um requisito iniludível para possibilitar a qualquer um estudar na universidade, independentemente da sua capacidade para arrendar uma habitação num mercado cada vez mais descontrolado.

Atualmente em Itália a oferta pública oferece habitações em residências unicamente a 5% dos estudantes obrigados a mudar-se de cidade para estudar (enquanto que no Estado espanhol e de aproximadamente 10% e a média europeia chega a 17%). Assim, o direito ao estudo no país transalpino é altamente dependente da família de proveniência, de forma que una ampla maioria dos estudantes estão obrigados a viver com os seus pais (68% face a uma média europeia de 34%).

Desde o primeiro momento, os meios de comunicação social interessaram-se pelos protestos, abrindo-se assim um debate público-mediático. Do lado do establishment, a resposta mais sincera até ao momento foi provavelmente a de Luigi Brugnaro, presidente da Câmara de Veneza e fundador em 2021 do Coraggio Italia, um partido com dois deputados que apoia sem hesitações o governo de Giorgia Meloni. Aquele que é também proprietário de uma das maiores Empresas de Trabalho Temporário do país respondia assim a um estudante que se queixava do preço das rendas: “Tu não mereces licenciar-te porque se deixas que te roubem 700 euros por uma habitação, não mereces passar a pertencer à classe dirigente. Eu trabalhava quando andava na universidade. Se queres passar a vida a estudar e a beber spritz, digo-te: se têm dinheiro para isso, força [...] Tento ver os aspetos positivos deste protesto mas pergunto aos miúdos se é isto que realmente querem ou se preferem ter autonomia. Porque a autonomia também tem a ver com basear-te no teu próprio trabalho”.

Declarações provocadoras às quais o coletivo Novemetriquadri da Universidade Ca' Foscari respondeu de forma inequívoca: “Se a classe dirigente é a representada por Brugnaro, certamente não aspiramos a fazer parte dela. Uma classe dirigente que nos propõe um mundo ao qual não pertencemos, um mundo elitista, extractivista e que propõe um modelo educativo classista, punitivo e repressivo. A esta visão do mundo, opomos a exigência de uma sociedade que coloque o cuidado no centro, como princípio organizador do mundo, como processo coletivo.

A expansão do protesto e a resposta do governo

É evidente que o protesto tocou num ponto sensível entre a população estudantil de toda a Península e das ilhas: Génova, Bari, Parma, Nápoles, Pavia, Cagliari, Áquila, Pádua, Florença, Palermo, Perugia. De Norte a Sul, de Este a Oeste, as mobilizações alcançaram num par de semanas praticamente todas as regiões italianas. Nas universidades meridionais, os estudantes salientaram que, apesar do aumento das rendas ser inferior ao das cidades do Norte, o contexto económico dos estudantes universitários é cada vez mais desolador: “Temos salários muito abaixo da média nacional, para além de custos e problemas nos serviços de transporte que não são comparáveis aos do resto da Península [...] Além disso, o fenómeno dos arrendamentos de curta duração para turistas obriga centenas de estudantes a abandonar as suas casas quando chega o Verão, para dar lugar a uma clientela disposta a pagar, por alguns dias, o mesmo que pagam mensalmente".

As reivindicações ressoam ao mesmo tempo em todos os acampamentos: mais quartos nas residências universitárias existentes a preços reduzidos, um limite máximo para as rendas nos apartamentos privados “para estudantes” (para os quais os senhorios já beneficiam de uma isenção fiscal), a recuperação de imóveis públicos abandonados e o apoio às despesas de arrendamento para estudantes e jovens trabalhadores. Para atingir estes objetivos, os estudantes de diferentes locais apelam à abertura de mesas de negociação em todas os concelhos em que há universidades que incluam câmaras municipais, organizações de inquilinos e organizações de estudantes.

Na semana passada, alguns dias após o início do protesto, o governo liderado por Giorgia Meloni declarou que iria mobilizar “imediatamente” 660 milhões de euros de fundos do Next Generation para “novos alojamentos em residências ou apartamentos” destinados aos estudantes universitários. "O problema é que os decretos [...] não fixaram uma quota de alojamento reservada aos estudantes com baixo poder de compra", explicou ao meio de comunicação social digital Valigia Blu Federica Laudisa, investigadora no domínio do direito ao estudo no Piemonte. Por seu lado, Elisabetta Piccolotti, deputada da Aliança Verde e Esquerda, denunciou que “os 660 milhões acabarão por ir parar, livres de impostos, aos bolsos das empresas imobiliárias e dos grandes senhorios [...] O alojamento será pago pelo Estado quase ao preço de mercado, com uma redução de apenas 15%, e em contraste com este desconto mínimo, os senhorios beneficiarão durante muitos anos de reduções fiscais significativas”.

Em resumo, os fundos prometidos pelo governo para aliviar a emergência habitacional dos estudantes não serão utilizados para construir habitações públicas a preços reduzidos, mas serão entregues a empresas como o The Social Hub (originalmente "The Student Hotel"), pioneira na exploração do mercado do alojamento estudantil, que desde 2012 construiu residências de luxo num total de 15 cidades europeias, muitas delas italianas. Uma transferência de recursos públicos para o sector privado que continua o caminho traçado pelos antecessores do atual governo pós-fascista, com Mario Draghi como seu melhor representante.

O movimento em perspetiva

Nos últimos dias, a pressão dos protestos ultrapassou as reitorias, com vários acampamentos a deslocarem-se para as sedes dos governos regionais, bem como para o Ministério das Universidades e da Investigação, em Roma. Embora não seja (ainda) possível falar de um protesto de massas, o movimento está claramente a crescer.
Quem sabe se as reações “democráticas” das instituições são sinceras ou se são apenas uma fachada para evitar que o movimento se torne massivo. A última vez que os protestos estudantis se generalizaram em Itália foi no longínquo Outono de 2008, durante a chamada Onda Anómala – ou "Onda", para abreviar – um movimento de oposição às reformas e cortes do último governo liderado por Silvio Berlusconi.

Naquele momento, enquanto os protestos cresciam nas escolas secundárias e universidades de todo o país transalpino, Francesco Cossiga – o autoritário ministro do Interior no período mais duro dos anos 70 e posteriormente presidente do governo e da República – propôs ao governo de então, numa entrevista publicada no Quotidiano Nazionale, uma solução incisiva para conter a Onda. A ideia de Cossiga era não enviar a polícia, em primeiro lugar, para reprimir o movimento, mas sim infiltrar agentes provocadores. Uma vez ocorridos os tumultos previsíveis, “as forças de segurança do Estado não deveriam ter piedade e deviam mandá-los a todos para o hospital. [...] Sobretudo os professores instigadores [...] Não estou a exagerar, acredito mesmo que o terrorismo vai voltar a encher de sangue as ruas deste país. E não quero que se esqueça que as Brigadas Vermelhas não nasceram nas fábricas, mas na universidade". Não é claro até que ponto o governo de Berlusconi deu ouvidos a Cossiga, embora nas crónicas dos meses que se seguiram não faltem episódios de motins e de violência repressiva por parte de funcionários do Estado.

Desde os dias de 1968, a Itália assistiu a uma sucessão de grandes movimentos estudantis, alguns deles específicos do país transalpino, como o movimento de 77 e o chamada “Pantera”, que aconteceu entre 1989 e 1990. Resta saber se o incipiente “movimento das tendas” consegue romper com algum molde e provocar mudanças significativas na vida dos estudantes precarizados.


Texto originalmente publicado no El Salto. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.