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Sé de Lisboa: preservação da mesquita é "uma vitória do conhecimento"

Os alertas da comunidade científica e a mobilização pela defesa dos vestígios islâmicos na Sé de Lisboa, que a DGPC pretendia destruir, resultaram na decisão da tutela pela revisão do projeto. A deputada Alexandra Vieira considera a decisão "uma vitória do conhecimento".
"A alteração do projecto de arquitectura tem obrigatoriamente de garantir a visibilidade integral e global do conjunto monumental das ruínas da mesquita", alerta o Sindicato dos Arqueólogos. Foto esquerda.net.

Numa decisão anunciada pela tutela esta quarta-feira, a Ministra da Cultura “deu orientações para que a proposta arquitetónica do núcleo museológico seja adaptada no sentido da sua salvaguarda e valorização in situ dos vestígios encontrados”.

A intenção da Direção-Geral do Património Cultural de destruir parte dos vestígios islâmicos encontrados por baixo do claustro da Sé de Lisboa, nomeadamente os balneários e a base do minarete, estava já sob revisão por parte do Conselho Nacional de Cultura. A decisão agora anunciada pela tutela anula a intenção da DGPC.

Para a deputada Alexandra Vieira, do Bloco de Esquerda, esta é “uma vitória do conhecimento e da mobilização cidadã em defesa do património cultural da cidade e do país”. No entanto, avisa que “iremos aguardar ainda pela nova versão do projeto” para garantir que a recuperação dos vestígios é respeitada.

Essa é também uma das preocupações do Sindicato dos Arqueólogos, um dos principais mobilizadores pela proteção dos vestígios encontrados na Sé de Lisboa, que congratula a decisão “que se sobrepõe à anterior e desastrosa decisão da DGPC, desautorizando-a e corrigindo-a”.

Para o Sindicato, “embora a decisão agora anunciada garanta, não apenas a preservação, mas também a "valorização" das estruturas, importa sublinhar que a alteração do projecto de arquitetura tem obrigatoriamente de garantir a visibilidade integral e global do conjunto monumental das ruínas da mesquita”.

Ouvida pelo Esquerda.net, Jacinta Bugalhão considera que “tal só é concretizável através do abandono definitivo da opção de construção de um edifício em betão, um "museu", sob o claustro”.

“Os contextos arqueológicos aqui identificados deverão ser integralmente acessíveis e visitáveis, em cripta, sob a laje de betão já parcialmente construída e que deverá cobrir toda a área escavada”, e “as infraestruturas interpretativas, museológicas e de apoio ao visitante deverão ser instaladas em outro local e nunca "por entre" as estruturas arqueológicas, invisibilizando-as e perturbando a sua observação e fruição”, diz ainda.

Esta é “a posição unanimemente veiculada por arqueólogos, historiadores, professores universitários, dirigentes das associações de defesa do Património e outros especialistas", conclui.

O Sindicato exige ainda que, ao contrário do que sucedeu desde 2018, as fases seguintes do projeto devem ser desenvolvidas “em respeito integral pelos trabalhadores e profissionais envolvidos. Não é aceitável que as arqueólogas responsáveis permaneçam afastadas da gestão quotidiana da obra, pois este é um projeto de valorização arqueológica”. Do mesmo modo, “não é aceitável que os conservadores-restauradores responsáveis permaneçam afastados da gestão quotidiana da obra, pois este é um projeto de conservação e restauro dos claustros da Sé”.

“Só desta forma, o projeto poderá alcançar, sem os atropelos até aqui verificados, os seus objetivos originais, a valorização de todo o conjunto arqueológico e a conservação e restauro dos claustros da Sé Catedral”, concluem.

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