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Reportagem: Praxes, não resistir só e não só resistir*

Reportagem sobre o receções alternativas a alunos de primeiro ano sem praxes, publicada no programa Mais Esquerda.
Imagem do filme de Bruno Cabral, 'Praxis'.

Em baixo transcrevemos a reportagem sobre praxes para o programa Mais Esquerda. O programa pode ser visto aqui (a versão integral está aqui), e a reportagem sobre a receção alternativa dos alunos de primeiro ano sem praxes pode ser vista aqui, com os comentários do sociólogo e investigador João Mineiro.

A cada início de ano letivo o mesmo cenário repete-se: as faculdades e mesmo as ruas das cidades enchem-se de jovens trajados que vociferam a grupos de estudantes do primeiro ano, que os seguem e lhes obedecem, de cara pintada, adereços ridículos. Inevitavelmente, também se repetem as notícias de queixas e de abusos mais ou menos graves.

Lentamente, começam a surgir também movimentos de integração alternativa. Em Coimbra o Cria’ctividade vai na terceira edição e tem uma programação que se estende ao longo de três semanas com concertos, debates, passeios e atividades desportivas. Em Lisboa, começaram este ano a surgir o mesmo tipo de eventos. Como a AlternAtiva, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH), que fomos conhecer.

Maria Cardoso explicou que o grupo se construiu em oposição à praxe: “Eles constituem um grupo unido, essa sensação de fazer parte de um grupo é óptima, então pensámos porque não ter também outro grupo em que eles podem ter essa sensação de fazer amigos e de conhecer a cidade sem haver uma distinção logo à partida de “eu sou caloiro e tu és outra pessoa”, era mesmo essa base da igualdade e da amizade que nós queríamos constituir”.

“A ideia era conseguirmos criar um grupo descontraído, relaxado, livre, que pudesse ser integrador mas integrador de uma forma alternativa, que não implicasse hierarquias, nem submissões, um grupo também transversal, que não fosse restrito só a um curso” acrescenta Ana Rosa.

Para Maria Cardoso, muitos alunos frequentam as praxes por falta de alternativa. “Acho que há muitos novos alunos que vão para a praxe exatamente por não haver nenhum sítio onde possam conviver de maneira mais descontraída, onde possam fazer novos amigos, onde possam conhecer Lisboa, principalmente para os alunos de fora”.

Rebeca, Ana e Maria tiveram experiências diferentes quando entraram na faculdade. Rebeca Csalog explica: “eu vivo aqui em Lisboa, sempre vi os grupos de praxados completamente sujos e a fazer cenas humilhantes e a gritar na rua e não acho piada aos trajes, não acho piada a nada dessa dinâmica de integração pela humilhação, acho que não faz sentido nenhum e o respeito que se tem que ter pelos supostamente superiores, não olhar nos olhos, isso tudo faz-me muita confusão, não concordo nada”.

Ana Rosa decidiu experimentar frequentar as praxes. “Quando cheguei à faculdade, por acaso já me considerava antipraxe, mas como ouvia tantas opiniões diferentes, quis ir ver com os meus próprios olhos como é que aquilo funcionava. E fui, experimentei, não gostei e desisti. Acho que não durou mais de três horas a minha experiência na praxe, achei que aquilo não era uma forma de integrar ninguém, não me senti confortável, não me senti integrada. Acho que a integração não passa por estar a fazer flexões e por me estarem a pintar a cara, senti que era uma situação ridícula e acho que não faz sentido nenhum, a integração passar por este tipo de atividades.”

“Tenho uma opinião muito fixa relativamente a isso, acho que se uma pessoa parte logo do princípio que o mundo lá fora está sempre pronto a subjugar-nos, e que não nos devemos impor perante as injustiças nem perante aquilo em que acreditamos, essa não é uma boa maneira de começar a vida universitária, se partirmos logo dessa base. É preciso mais independência de pensamento”, afirmou Maria Cardoso.

Estas três estudantes escolheram dizer não à praxe, mas um pouco por todo o país, a praxe está longe de desaparecer. Luís Monteiro, deputado do Bloco, explica porquê. “Há um vazio de participação cidadã nas Universidades, e a partir de um momento em que há um vazio de participação política, cidadã, cívica, o espaço da praxe ganha cada vez mais autonomia e cria uma hegemonia de pensamento na academia. Ora, se é verdade que a opinião pública tem cada vez mais denunciado aquilo que são os abusos da praxe, por outro lado, também é verdade que a elitização do Ensino Superior faz com a imagem da capa e da batina, a imagem do trajado, do próprio traje, concede ao novo aluno um espaço também de legitimidade em relação ao outro.”

Paradoxalmente, em termos legislativos, notam-se alguns avanços. Foi aprovado um projeto de resolução do Bloco sobre violência nas praxes académicas. O governo tem pressionado as Universidades para que não estimulem este comportamento e pela primeira vez parece realmente querer combater os abusos da praxe com a criação de estruturas de apoio às vítimas, divulgando por todas as instituições um panfleto que defende a possibilidade de recusar a praxe. Recentemente, foi anunciada a criação de um novo programa de financiamento da Ciência Viva, com o infeliz nome Praxe +, para a integração de novos estudantes pela cultura e ciência.

A vida académica nem sempre foi assim, as praxes eram uma tradição de Coimbra e, desde a década de 60 que praticamente deixaram de existir até ao início dos anos 80, quando ressurgiram em Coimbra e, sobretudo a partir da segunda metade dos anos 90, começaram a ser feitas por todo o país. Os movimentos de contrestação à praxe, por uma alternativa e abertamente anti-praxe surgiram em vários pontos do país. Em Lisboa, o MATA - Movimento Anti "Tradição Académica" foi especialmente ativo entre a segunda metade dos anos 90 e 2014, lutando não só contra a praxe, mas contra o seu simbolismo sociopolítico.

“O problema é que a praxe não é só a praxe, a praxe é um modo de ver as coisas, de ver o mundo e de estar na vida. Os ensinamentos da praxe são exatamente aqueles que o Bloco de Esquerda não aceita para uma sociedade de futuro, a ideia de que existirão sempre hierarquias não explicadas, que existirá sempre violência sobre o mais fraco, que estaremos sempre subjugados a um poder sem nunca o poder pôr em causa. É exatamente aquilo que nós não queremos e, portanto, nós quando combatemos a praxe, combatemos também uma ideia de sociedade e queremos construir um mundo novo, um mundo sem hierarquias, sem violência e sem subjugação”, resume Luís Monteiro.

*Nota: O título desta reportagem "Não resistir só e não só resistir" foi o título dado ao CD de "músicas de várias bandas pouco tradicionais que continuam a não querer acomodar-se" editado pelo MATA - Movimento Anti "Tradição Académica".

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