Enquanto as forças de segurança do governo sírio prosseguem com o cerco de Aleppo, a segunda cidade mais importante do país, altos funcionários do regime renunciam em quantidade sem precedentes. A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que centenas de milhares de sírios fugiram dos combates em Aleppo, onde tanto as forças governamentais como os rebeldes fortalecem as suas táticas militares, incluindo o uso de helicópteros, aviões, tanques e outros armamentos pesados.
Não está claro se a ofensiva rebelde na cidade foi planeada para coincidir com outra semelhante em Damasco e com o recente atentado com bomba que matou quatro altos funcionários do regime. Tampouco está clara a quantidade de mortos na última onda de violência, embora alguns informes falem sobre escaramuças em bairros inteiros. Um alto funcionário do regime alertou no dia 4 que a verdadeira “batalha por Aleppo” ainda não começou.
Os combatentes também atacaram o acampamento de refugiados palestinos de Al-Yarmouk e seus arredores, onde bombardeamentos, que se presume foram lançados pelo regime, mataram pelo menos 20 palestinianos, e em Al-Abbasyieen, uma área situada nos arredores de Damasco. Na manhã de ontem, os média estatais sírios anunciaram que uma bomba explodiu dentro de uma emissora de televisão pró-governo na capital.
O regime viu-se ainda mais prejudicado por uma série de renúncias de altos funcionários, entre eles o primeiro-ministro, Riad Hijab, que no dia 5 à noite fugiu para a vizinha Jordânia. “Hoje anuncio minha renúncia ao regime assassino e terrorista, e anuncio que me uni às fileiras da revolução pela liberdade e dignidade. Anuncio que a partir de hoje sou um soldado desta bendita revolução”, afirmou num comunicado lido por seu porta-voz.
A situação é funesta para o atribulado regime sírio, que enfrenta escassez de recursos e frias relações com os seus partidários internacionais, China e Rússia. Apesar de tudo, o exército retomou o controle de várias áreas. O governo solicitou à Rússia ajuda financeira para aliviar as severas sanções internacionais, que podem estar a começar a privar de fundos e de petróleo essenciais para manter o seu aparelho de segurança.
Enquanto a batalha por Aleppo se prolonga e continuam os confrontos esporádicos em Damasco e noutras partes do país, não está claro que os limitados recursos que restam ao exército sírio permitirão que continue a financiar esse aparelho. Informes indicam que as forças curdas avançam no nordeste do país.
Abdelbaset Sieda, o novo presidente do Conselho Nacional Sírio (coligação oposicionista) após a renúncia há vários meses de Burhan Ghalyoun, divulgou um comunicado promovendo uma solução negociada da soberania das áreas curdas. Além disso, destacou que manteria uma política de tolerância zero para funcionários do regime de Bashar al Assad que tivessem “sangue nas suas mãos”.
Também houve mudanças significativas a nível internacional. O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos permitiu que organizações desse país ajudem financeiramente a oposição a Assad, enquanto se comenta que o presidente Barack Obama autorizou em segredo o fornecimento de armamento e o treino de rebeldes sírios na vizinha Turquia.
A última onda de violência gerou temores de que a crise pudesse agravar-se ainda mais. O governo sírio reassentou vários de seus arsenais de armas químicas e biológicas, e, embora o Ministério das Relações Exteriores tenha prometido jamais usá-las contra civis sírios, reservou-se o direito de empregá-las contra “inimigos estrangeiros”. Esta distinção fica cada vez mais nebulosa, enquanto a oposição síria estreita os seus vínculos com atores internacionais nos Estados Unidos e no Golfo.
Também há preocupação quanto ao rebelde Exército Livre da Síria (ELS). Embora do ponto de vista estrutural ainda seja superado pelas forças do regime, nas últimas semanas aumentou significativamente a sua capacidade militar. Além das preocupações pela linguagem sectária de alguns combatentes do ELS, organizações de direitos humanos também começam a denunciar crimes de guerra cometidos por essa força, incluindo sequestros, execuções sumárias e atentados com explosivos em áreas civis.
No entanto, parece estar a fechar-se a janela para um cessar-fogo mediado internacionalmente e para um plano de paz de transição, enquanto Kofi Annan, enviado especial da ONU, anunciou a sua intenção de renunciar ao posto ao encerrar o seu mandato no dia 31. Embora a ONU esteja a esforçar-se para encontrar um substituto adequado, a missão das Nações Unidas na Síria e no plano de paz de seis pontos proposto por Annan parecem estar a chegar ao fim, deixando poucas opções diplomáticas sobre a mesa.
Preocupa a muitos na Síria que uma guerra civil prolongada já seja inevitável. Ao aumentarem os confrontos militares, desfez-se a incidência de manifestações pacíficas e de massa. Mas não está claro até que ponto isto é consequência do temor de uma repressão pelo regime ou uma falta de fé no militarizado movimento opositor.
Apesar da série de vitórias do ELS, a oposição síria está profundamente dividida, e as lutas pela liderança continuam a ser obstáculo para os esforços de coordenação. Uma conferência planeada por Haytham Al-Maleh, destacada figura do levantamento que, no entanto, se afastou do Conselho Nacional Sírio, é boicotada por vários grupos opositores, incluindo o próprio Conselho.
Vários analistas dos Estados Unidos rejeitam totalmente tanto a atitude do regime de Assad quanto a da oposição síria. Entre eles, Asad Abu-Khalil, professor da California State University Stanislaus e proprietário do popular Angry Arab News Service (Serviço de Notícias de Árabes Indignados). No seu blogue, Asad escreveu que “o Exército Livre da Síria tomou o controle e sequestrou o levantamento” popular contra Assad. “A maioria dos ativistas ficou nas suas casas e lavaram as mãos diante do que ocorria, e alguns inclusive apoiaram o ELS embora não se unissem a ele”, acrescentou. Atualmente, não resta movimento civil: o regime e o ELS mataram-no, afirmou.
Abu-Khalil também alertou para a crescente influência da rede extremista Al Qaeda e de outros grupos fundamentalistas islâmicos que operam sob o manto do ELS, que ainda carece de uma forte coordenação e liderança central. Na internet, sites de grupos afiliados à Al Qaeda assumiram a responsabilidade por uma série de atentados cometidos na Síria, e alguns analistas alertaram que muitos combatentes dessa rede partiram do Iraque para se juntarem ao ELS.
Enquanto a legitimidade e a capacidade institucional do regime de Assad cai em queda livre, há poucos sinais de que os movimentos opositores tenham criado o apoio público necessário para substituí-lo efetivamente em caso de queda do governo. Os planos dos Estados Unidos e de Israel para uma reconciliação posterior ao conflito foram plenamente rechaçados por figuras importantes da oposição, mas não foi oferecida nenhuma alternativa em seu lugar. Aparentemente, o futuro da Síria é tão imprevisível e perigoso quanto seu presente.
Envolverde/IPS