O BE perdeu as eleições porque não conseguiu fixar o eleitorado maioritariamente PS que para ele se transferiu em fins de 2009.
A questão que está colocada ao nosso Bloco, parece desta forma simples de formular.
O que se torna complexo é explicar porque razões esse eleitorado não permaneceu no BE, ou dito de outra maneira, porque é que o BE não conseguiu cativar e manter o eleitorado, que para ele se transferiu há menos de dois anos atrás?
Porque é que o Bloco não alargou a sua base de apoio social entre os precários que tão bravamente tem defendido, entre os professores que tão correcta e solidariamente apoiou, entre os desempregados que crescem diariamente e cuja defesa tem assumido e entre as camadas mais desfavorecidas da população por quem tem pugnado?
No meu modesto entendimento, pelos seguintes motivos:
Motivo 1- O BE não soube falar para esses eleitores. Não conseguiu adaptar o seu estilo - mas também algumas das suas linhas políticas - a eleitores ( e potenciais eleitores ) da área do PS, logo politicamente moderados .
Se queremos conquistar eleitorado ao PS, temos que ser (e também parecer) ponderados, responsáveis, construtivos, tolerantes, abertos ao dialogo, unitários, respeitadores das diferenças, sem no entanto prescindirmos dos nossos princípios, nem esquecermos que vivendo em capitalismo, somos um instrumento ao serviço de uma vasta classe: os trabalhadores por conta de outrem.
Que eu saiba, ser de esquerda de uma forma consequente não é incompatível com ter sentido de responsabilidade, ser tolerante, ser ponderado, ser aberto ao diálogo, ser equilibrado nas propostas ter respeito pelas diferenças, mesmo quando essas diferenças se situam no espaço à nossa direita. É apenas dessa “moderação” que falo.
A ideia segundo a qual os partidos têm que se moderar, dialogar e subalternizar os seus objectivos ao superior desígnio do país, foi aceite pela larga maioria do eleitorado, e quem não demonstrou essa atitude considerada “a atitude responsável”, foi penalizado.
Muitos julgam que quanto mais se é de esquerda mais se tem que se ser radical, inflexível, extremado nas propostas, fechado a consensualizações, em nome de uma pretensa pureza de princípios, o que pode conduzir a posições ideológicas como a da suposta superioridade moral e a outras distorções que podem acabar num “orgulhosamente sós”( mas cheios de razões que quase ninguém compreende, excepto 5%) à moda da esquerda. Não estou a dizer que é isto que se passa com o BE, mas sim que há esse perigo no nosso horizonte, latente no pensamento de alguns respeitáveis camaradas.
Na política, como na vida, haverá que definir o essencial e o acessório.
A meu ver está-se tanto mais à esquerda quanto mais eficazmente se defendem os trabalhadores por conta de outrem e se lhes garantem mais direitos e melhores condições de vida. É fazendo-o que se lhes ganha a lealdade e a confiança políticas que permitirão que no futuro desejem e protagonizem alterações sócio-políticas mais profundas e eventualmente revolucionárias . A maneira mais consequente de defendermos os sectores sociais, cuja defesa é nossa razão de ser, é aproximarmo-nos das esferas de decisão ou, se possível, estarmos lá. Isso sem prescindir de ideias e de princípios que são a matriz do BE, claro.
Depois há aspectos puramente formais que tornam difícil a comunicação com o eleitorado. Como o estilo, a atitude, a linguagem muitas vezes panfletária, distante das pessoas porque excessivamente politizada, que a meu ver continua a projectar muito da esquerda revolucionária dos anos 70, o que não sendo para renegar enquanto origem, obstaculiza a comunicação do BE com muitos cidadãos distantes da política, dificultando a circulação das suas mensagens e o alargamento do BE a franjas sociais importantes que se não revêem no seu estilo e linguagem, mas até concordariam com as suas propostas e ideias políticas. Alguns dos que se abstêm, acham isso.
A forma – sendo acessória face ao conteúdo – torna-se amiudadas vezes comprometedora da afirmação e da aceitação desse mesmo conteúdo.
Numa sociedade fortemente mediatizada isto é fundamental para que as ideias e propostas passem para o eleitorado.
Para grande parte do nosso potencial eleitorado é fundamental revelar capacidade de diálogo e de promoção de consensos, hoje vistos como qualidades indispensáveis para a resolução de alguns dos problemas a que o eleitorado é sensível: Graves disfunções na justiça, na saúde, na fiscalidade, no arrendamento/habitação, nas pensões, no ambiente.
Motivo 2. O BE não conseguiu afirmar a sua disponibilidade para se aproximar das esferas de decisão, assumir outro nível de responsabilidades e contribuir para soluções.
Não basta denunciar os problemas como o BE muito bem tem feito. Não basta oportunamente criticar protestar e organizar os protestos. Não basta ser solidário com os trabalhadores em luta. Há que consensualizar soluções aceitáveis, se necessário com outras forças políticas. Se o próprio diabo aceitar contribuir para viabilizar leis que resolvam as questões dos cidadãos e do país devemos tentar negociar com o próprio diabo para tentar resolver os problemas às pessoas. Se formos mal sucedidos quebramos as negociações e explicamo-nos.
Para o senso comum tomar boas decisões, ser propositivo e assumir responsabilidades tem muito mais valor do que fazer justas e oportunas críticas e protestos. Actos valem sempre mais do que palavras, sobretudo se as palavras forem frequentemente de crítica.
O diálogo e a abertura além de sinais de maturidade política, responsabilidade e segurança nas próprias razões, são virtudes pessoais e políticas que o povo português valoriza e que o BE não afirmou suficientemente. A abertura ao diálogo e à busca de consensos é erroneamente confundida por muitos com afastamento de ideias e princípios-chave. Uma coisa não implica nem tem que implicar a outra.
Aos olhos dos eleitores, o BE manteve-se fora da área das decisões e da busca partilhada de soluções, projectando uma imagem de inflexibilidade fechada a entendimentos e a consensos dos quais as pessoas sentem que o país necessita. ( Eu sei que isso não é muito justo, mas estou persuadido de que o eleitorado leu assim. Pessoalmente valorizo o facto de o BE ter ido falar com o PC. Assim como considero que o apoio a Alegre foi uma demonstração de abertura, infelizmente pouco valorizada).
O cenário de crise retirou ao eleitorado a liberdade para votar apenas para expressar a sua opinião. As pessoas sentiram que tinham que votar para proporcionar soluções. Ora o voto BE não apontava com clareza nenhuma solução para o país. A estratégia do referendo ao memorando da troika foi incompreendida pelas pessoas e falhou.
Votar só para dar opinião ( e não para ter consequências de governabilidade ) é um luxo que ninguém aceita assumir em tempos de profunda crise e graves perigos. Além disso as pessoas com quem falo (vários votantes BE em 2009) querem dar o seu voto a alguém que o utilize para tomar decisões ou pelo menos influencia-las. Alguém que ajude a resolver as muitas situações preocupantes que o país está a viver, com as quais são há anos bombardeadas diariamente na comunicação social.
Deseja-se que o BE seja um fiel defensor das classes assalariadas que tão empenhadamente tem defendido, mas não se compreende que não estenda essa defesa à participação nas diversas mesas de negociações a que tem acesso por via dos seus votos. ( Aqui reconheço que negociar com o PS de Sócrates foi uma quase impossibilidade, dadas as posições políticas pró-liberais que impôs ao PS e ao país e a sua personalidade intratável)
O voto utilizado apenas como expressão de uma opinião é hoje visto como um voto inútil. Os eleitores querem que os seus votos sirvam para influenciar políticas e não para se ficar cheios de razões, mas à parte dos processos decisórios, logo com limitada utilidade prática.
A meu ver, servir-se-ão melhor as pessoas se se adoptar uma linha de disponibilidade para busca conjunta de soluções desde que estas não atropelem princípios fundamentais para o BE. Tem que ser assumido que o BE deseja participar em todas as instâncias onde se decide o futuro dos portugueses, porque representa parte deles.
Quero sublinhar com muita veemência que a defesa desta disponibilidade para acordos pontuais ( ou mesmo globais ) com A ou B, não tem nada a ver com a ideia de transformar o BE “no CDS do PS”. Seguramente que em caso algum se tratará disso. O movimento «Convergência e Alternativa», poderá constituir mais uma pista de trabalho tendo em vista o alargamento de entendimentos a outros sectores, em prol de um governo alternativo com políticas de esquerda.
Quanto mais próximos das esferas de decisão, maior possibilidade haverá de fazer aprovar leis e políticas de protecção do trabalho.
Esse fado de termos montes de razão em muitos aspectos e ninguém nos entender ou confiar em nós tem que acabar.
O BLOCO, enquanto esquerda alternativa ao PS (promíscuo com o capital financeiro) e ao PC (anacrónico e totalizante), é uma verdadeira necessidade da nossa sociedade e só tem que se afirmar e explicar à sociedade. Mas para que seja entendido e aceite tem que se diferenciar claramente, quer na forma quer nas ideias, desses dois partidos da esquerda tradicional e dar ao eleitorado boas razões para confiar nessa nova esquerda emergente, que representamos.
Os trabalhadores portugueses precisam de uma nova esquerda verdadeiramente alternativa. Mas não uma esquerda decorativa que sirva de pouco, que não influencie nem defina as políticas sociais de que o povo tanto carece; Uma esquerda que decida coisas para o país e devolva a esperança do povo em melhores dias, urgentemente.
Motivo 3. O Eleitorado não conheceu e/ou não deu crédito às propostas do BE para sair da crise
Aos olhos do eleitorado, houve dúvidas da exequibilidade ( e indirectamente da credibilidade ) das propostas apresentadas pelo BE.
Concorreu para essas dúvidas acerca da exequibilidade e da consistência das propostas do BLOCO, a desvantagem em que o BE se encontra na opinião publicada e o facto do BE não se ter ainda libertado da imagem de “partido da crítica” que facilmente deita abaixo as propostas alheias.
A apresentação de uma moção de censura que muito poucos entenderam e muitos consideraram pouco responsável e inadequada, contribuiu igualmente para uma imagem de pouca fiabilidade, numa altura em que, mais do que nunca, o eleitorado tende a valorizar a atitude ponderada e responsável .
Motivo 4. O BE não conseguiu projectar uma forma alternativa, própria e claramente diferenciada de estar na política.
Era a meu ver por aqui – afirmando uma forma notoriamente diferente, ética, original e ALTERNATIVA de fazer política – que o BLOCO teria hipóteses de captar simpatias em sectores abstencionistas do eleitorado ( jovens e de todas as idades), geralmente desinteressados do cinzentismo e do discurso esteriotipado dos políticos.
O estilo utilizado durante a campanha eleitoral (mas não só) confundiu-se em vários aspectos com o estilo e o tom de outros partidos, porque alinhou demasiado na picardia política, na pequena querela estéril, nas trocas de acusações e recriminações, no “disse que disse” e em geral no ruído que foi esta campanha eleitoral, ruído do qual não conseguiu claramente demarcar-se, fazer a diferença, ser dominantemente propositivo, ser elevado no discurso, ser construtivo e mais do que isso, apontar um caminho de saída da difícil situação actual, uma esperança de mudança para os portugueses.
O bloco não se pode tornar, nem parecer um “partido como todos os outros” tem que ser diferenciado porque existe um terço do eleitorado que repudia e se afasta desse modo de estar na política: Os abstensionistas.
OUTROS TEMAS PERTINENTES
a) Democracia participativa interna: uma necessidade para sermos verdadeiramente alternativos e fazermos diferença
Por outro lado, e eleições à parte, a nível interno, não houve suficiente consulta às bases e a comunicação fluiu pouco nos últimos dois anos, sobretudo no sentido da base para o topo: O processo de tomada de decisão de apoiar Alegre deveria ter merecido uma consulta às bases e ulteriormente um maior esclarecimento aos votantes. Pessoalmente dou-a como exemplo de como a forma e o processo através do qual a decisão foi tomada pode comprometer a correcção da decisão; Compreendo a intenção e nem discordo muito da decisão em si, mas discordo sim do processo através do qual se tomou à decisão, sem nenhuma consulta aos aderentes .
Para darem a cara por um candidato os activistas têm que estar convictos da sua escolha. De outra maneira não há dinamismo, nem entusiasmo.
Para se afirmar como uma esquerda verdadeiramente alternativa, o bloco tem que tornar realidade um funcionamento interno mais exigente em termos de participação dos seus aderentes nas tomadas de decisão. Isso pressupõe a criação de mecanismos de auscultação expeditos, prontos a funcionar. A diferença que queremos fazer, começa por se afirmar na democracia e na participação dos aderentes sem o que nos tornaremos num partido como tantos outros. É difícil, dá trabalho mas vale a pena. Se somos pela democracia participativa aplicada à sociedade, então devemos começar por a praticar dentro da nossa organização, para provar na prática que esse conceito fundamental é possível e exequível. Os aderentes podem e devem ser consultados para as grandes decisões; É viável que isso aconteça duas ou três vezes por ano, nomeadamente através do recurso a tecnologias de informação, largamente disponíveis.
Também o fórum aqui no esquerda.net é um exemplo do que se devia fazer frequentemente. As pessoas para darem o seu esforço por uma causa e um partido político precisam de expressar com regularidade as suas opiniões e que elas sejam levadas em consideração. O tempo da divisão entre os que decidem e os que executam vai há muito passado e quem milita no BE é muito exigente em matéria de democracia e de partilha de decisões. Isso é uma mais-valia que há que valorizar na nossa organização. Devia haver um grupo de trabalho da mesa nacional cuja função fosse recolher, tratar e encaminhar para a comissão política estas opiniões.
b) Há que não esquecer o muito de positivo que tem sido feito
Apesar das críticas que aqui faço a linhas políticas e estratégicas adoptadas, quero sublinhar que vejo com clareza o muito de positivo que o BE, os seus dirigentes e grupo parlamentar têm feito. Isso seria razão para um texto dez vezes maior do que este. Avaliar com rigor e justiça é dizer o positivo e o negativo e não somente este último.
Não se pode cair numa dramatização excessiva dos erros, mas temos que tirar consequências e ser capazes de corrigir as nossas trajectórias. Se não, de que serviria a experiência?
c) O debate NÃO deve ser acerca de pessoas cujo trabalho e esforço deve merecer o máximo respeito de todos mas sim acerca de orientações e linhas políticas seguidas no passado e para o futuro.
Este debate não deve ser sobre pessoas e trocas de pessoas. Essa fulanização é execrável, nociva e tremendamente injusta para muit@s camaradas que desde há anos dão o seu máximo esforço pelo BE. O debate tem que ser sobre ideias, linhas políticas e estratégias. Se nos limitarmos a trocas de pessoas estaremos a agir com pouca justiça e como os partidos do sistema.
d) Duas questões cruciais
Para o BE ser viável e crescer, precisa de evidenciar agora duas qualidades fundamentais:
( 1.) Capacidade de realizar uma auto-analise profunda e corajosa
e
( 2.) Capacidade de autocorrigir a sua linha e estratégia políticas.
Só para contribuir para que isso aconteça é que se justifica ter vindo aqui dirigir-vos estas palavras.
A forma como se organizar o debate pode condicionar em muito os seus resultados.
Esse debate deve ser a prioridade actual. Não existe nada tão importante. Tem que haver agora essa troca saudável de ideias indispensável ao crescimento e à geração de consensos que permitam prosseguirmos unidos.
Uma Convenção, segundo o modelo das anteriores não resolverá o problema do debate interno que há a fazer. As intervenções para o grande plenário não constituem um diálogo conclusivo mas antes uma sucessão meio aleatória de ideias e intervenções avulsas que regra geral se ignoram umas às outras. Nas convenções, o fogo cruzado entre tendências e facções está a inibir a expressão individual dos aderentes e activistas.
Acredito mais na justeza de um debate a organizar a nível nacional, envolvendo todas as estruturas locais, com conclusões escritas a ser sintetizadas pela mesa nacional.
Aguarda-se a promoção de um debate organizado, sereno, construtivo, aberto aos militantes anónimos que diariamente dão a cara pelo bloco, aberto a figuras públicas que defendem nos média as posições do BE, ( prestando um serviço útil às suas causas), aberto aos seus dirigentes, mas também aberto a votantes e simpatizantes anónimos para quem o Bloco significa uma esperança numa esquerda renovada e verdadeiramente alternativa.
O plenário distrital de Lisboa em 22/06/11 embora útil como exercício de expressão das bases ( finalmente!) e também de catarse do sentimento e da opinião de muitos militantes, não permitiu um verdadeiro debate, no sentido de troca de ideias aprofundamento de assuntos e geração de consensos.
Vamos todos fazer esse debate, por uma nova esquerda alternativa e por uma democracia participativa.
Carlos Augusto Silva, aderente 5665 / Alcabideche - Cascais