Está aqui

Racismo ambiental: como os ciganos são “empurrados” para terrenos poluídos na Europa

Relatório do Departamento Ambiental Europeu alerta para exposição desproporcional ao risco ambiental das comunidades ciganas no centro e leste europeu. A segregação coloca-as junto a lixeiras, terrenos propícios a cheias e deslizamentos de terras.
Comunidade cigana expulsa do centro de Miercurea Ciuc e levada a viver perto de uma estação de tratamento de esgotos. Roménia, maio de 2013. Foto de Andreea Tanase, publicada pelo EEB.
Comunidade cigana expulsa do centro de Miercurea Ciuc e levada a viver perto de uma estação de tratamento de esgotos. Roménia, maio de 2013. Foto de Andreea Tanase, publicada pelo EEB.

O relatório completo sairá na próxima quarta-feira mas as suas conclusões já são conhecidas. O Departamento Ambiental Europeu, uma rede de associações ambientalistas da Europa que abrange 160 organizações de 35 países, mapeou casos de racismo ambiental contra comunidades ciganas do leste e do centro da Europa.

Em colaboração com o Instituto de Ciência e Tecnologia Ambiental da Universidade Autónoma de Barcelona e vários ativistas dos direitos humanos, construiu-se uma mapa temático que demonstra como as comunidades têm sido segregadas e como essa segregação as empurra para terrenos poluídos.

O foco do estudo são países da Europa Central e do Leste onde os ciganos são parte significativa da população. Por exemplo, na Bulgária são 10% da população, na Eslováquia 9%, na Roménia 8%, na Hungria 7% e na Macedónia 2,6%. E o objetivo é ilustrar uma “amostra das enormes injustiças ambientais que as comunidades ciganas sofrem devido à sua pertença étnica e racial na Europa”. Sublinha-se portanto como “racismo, intolerância, discriminação e exclusão” resultam num “acesso desigual a recursos naturais e à distribuição dos seus benefícios, tais como água potável, ar limpo, paisagens aberta; numa exposição desproporcional ao risco ambiental, perigos provenientes da proximidade de lixeiras, cheias e deslizamentos de terras”. Como é uma “desigualdade ambiental baseada na raça”, utiliza-se assim o conceito de “racismo ambiental para a designar”.

O estudo prova que as comunidades ciganas nesta região são deslocadas para zonas perto de minas ou de fundições, antigas bases militares ou aterros sanitários onde mais ninguém queria viver. Para além disto, as áreas onde estão instaladas “servem como depósitos para descargas de resíduos altamente perigosos de complexos mineiros, indústrias e municípios”.

Os coordenadores do estudo também encontraram provas de que “serviços ambientais” como espaços verdes ou recursos hídricos são usados “frequentemente” como “uma estratégia direta de racismo contra os Roma”. Um dos exemplos citados é o corte de água durante ondas de calor. Outro exemplo são os despejos forçados praticados sob o pretexto de uma reabilitação ambiental da área em que estas comunidades vivem. Encontraram-se ainda casos de isolamento com muros que as autoridades justificavam como barreiras ao barulho proveniente das auto-estradas próximas.

As várias situações de falta de acesso a água potável e saneamento básico e de contacto com fontes de poluição tem efeitos na saúde, sublinha-se. Os exemplos concretos são vários: cerca de metade dos 621 mil ciganos da Roménia vivem perto ou dentro de aterros sanitários; na Bulgária 89% dos ciganos não têm acesso a água.

Este racismo ambiental enquadra-se assim numa “violência estrutural” que se encontra nestas sociedades para com os ciganos, com a disseminação do discurso de ódio e de casos de violência física. Patrizia Heidegger, diretora de Políticas Globais e Sustentabilidade do Departamento Ambiental Europeu explica que esse tipo de “discriminação social, cultural e política” é “mais conhecida”. “Porém, poucas pessoas têm consciência do racismo ambiental com o qual estas comunidades são confrontadas.”

A especialista acrescenta: “ter de viver e trabalhar em zonas poluídas e perigosas onde se são negados os mais básicos direitos ambientais, como abastecimento de água e gestão de resíduos, tem consequências sérias para o bem-estar e saúde da comunidades Roma.” Para Heidegger, “precisamos de respostas europeias fortes para acabar com isto.”

Katy Wiese, co-autora do estudo, soma a estas questões as preocupações próprias do momento da pandemia da Covid-19: em ambientes pobres “as taxas de transmissão podem ser exacerbadas” em comunidades que, pelas condições em que vivem, já são “mais vulneráveis a doenças”.

Wiese expressa ainda preocupação com vários relatos que vão chegando da comunicação social que indiciam que medidas que deveriam ser aplicadas a travar o contágio do novo coronavírus estão a ser utilizadas contra comunidades ciganas “como pontos de controlo de acesso à volta dos guetos ou vigilância das pessoas com drones”.

Termos relacionados Internacional
(...)