Quem cabe na Esquerda Grande?

18 de julho 2011 - 14:19

Contributo de João Mineiro

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As ideias, os combates das ideias, os protestos e as propostas ganham-se com maiorias. Não há transformações sociais se não tivermos maiorias do nosso lado. Um partido pode ter o melhor projecto, as melhores propostas, as mais justas e exequíveis, se não tiver a maioria nunca transformará nada. É por isso que não podemos abdicar da conquista da maioria e não podemos criar uma redoma em torno de nós próprios. Conhecemos os partidos dos puros, dos zeros dos dois lados da vírgula, os partidos que nunca transformaram nada, porque acharam que a homogeneidade e a purificação ideológica é mais importante que a humildade de fazer pontes com todos os sectores sociais e de fazer política em diferença.

O Bloco é, aliás, a grande força contra-hegemónica nas formas de ser partido à esquerda. E soubemos encontrar bem o nosso projecto: queremos uma Esquerda Grande que seja transformadora. Esse é o nosso grande desafio. Mas se é uma maioria social que queremos e se queremos uma Esquerda onde se juntem milhares e milhares de pessoas que, em diversidade e em diferença, se unem porque não abdicam dos Serviços Públicos, do Estado Social, dos direitos sociais, das liberdades individuais, da justiça no trabalho e na economia, podemos perguntar: quem cabe, afinal de contas, na Esquerda Grande? Cabe o Francisco Louçã e o Luís Fazenda? Cabe o Jorge Costa e a Joana Mortágua? Cabe o João Semedo e a Marisa Matias? Cabe o José Soeiro e o Fernando Rosas? E cabe o Daniel Oliveira, a Joana Amaral Dias e José Gusmão? E já agora, cabem os milhares de pessoas que defendem o SNS a Escola Pública, a Segurança Social, os direitos no trabalho e que são contra as desigualdades? E cabem aqueles que votaram Cavaco ou Sócrates mas ganham 200 euros de reforma? E cabem os que querem que o Bloco seja o CDS da Esquerda? E cabem sociais-democratas, trotskistas, comunistas, maoístas, socialistas e pessoas (já agora)?

Eu acho que cabem todos e todas. E não pode ser de outra forma, se não não lhe chamem Esquerda Grande, chamem-lhe Esquerda Média, Esquerda Pequena ou Esquerda Minúscula. Temos de saber afinal de contas o que queremos. Queremos transformar Portugal ao lado de milhares de pessoas, logo, queremos ajudar a construir a Esquerda Grande? Ou queremos começarmo-nos a excluir a nós mesmos e a promover, subtilmente, processos de segregação e afastamento interno? Eu também acho que as posições sobre a mudança estratégica do Bloco, personificadas na figura de Daniel Oliveira, não têm sentido. Mas no Partido discutimos política ou é só impressão minha? Se alguém quer mudar a linha estratégica do Bloco, discutimos as ideias e deixamos que sejam os aderentes a decidir. Quem tem medo, afinal de contas, de discutir política internamente? E quem prefere a política de bastidores?

Eu prefiro uma Esquerda Grande onde estamos todo@s e onde transformamos a realidade. Sobre a forma e a estratégias de o fazer, vamos lutar por ideias e deixar a democracia fazer o resto. Da minha parte, o socialismo é a direcção e não podemos estar cá para reformar o capitalismo, porque ele não é reformável. Contudo, tenho em minha certeza, que criar filtros ideológicos no partido é dar muitos passos atrás na luta de classes, para não darmos nem um em frente. Já repararam que temos mais de 10 mil aderentes e nem temos nem mil militantes? E que para o socialismo só precisamos de milhões?

João Mineiro