Está aqui

“Quando se desconfina a economia, não se podem manter confinados os transportes"

O Bloco voltou a alertar para os problemas dos transportes e habitação na Área Metropolitana de Lisboa. Isabel Pires defendeu a adequação das frequências em toda a rede, reposição de carruagens, autocarros e barcos e o fim do lay off nas empresas de transportes.
Isabel Pires
Isabel Pires esta quarta-feira no Parlamento. Imagem ARTV

A constatação de que “o mês do desconfinamento não correu bem na grande Lisboa” foi o ponto de partida da interpelação ao governo sobre política de transportes feita esta quarta-feira pelo Bloco no Parlamento. Isabel Pires sublinhou que “Junho expôs as debilidades estruturais que a covid-19 soube explorar”, mas não deixou de destacar igualmente que “o problema já vinha de trás”.

A deputada recordou a declaração política de 27 de maio em que o partido alertou para os problemas nos transportes, habitação e trabalho na Área Metropolitana de Lisboa. Se nessa altura “os números já não enganavam, indicando que 9 em cada 10 casos de covid no país se situavam na grande Lisboa”, um mês depois “fica claro que perdemos tempo na resposta que era exigida”.

E além de não terem sido avançadas soluções eficazes, “surgiu um novo discurso moral da pandemia, estigmatizando trabalhadores e populações de determinadas freguesias, focado numa sobrevalorizada responsabilização individual em detrimento de respostas coletivas e solidárias”.

No pico da pandemia e com o confinamento generalizado, optou-se por suprimir comboios e com isso “agravou-se a sobrelotação das carruagens e enchentes nas estações. Quando se apregoava ao aumento da distância social, quem mantinha o país em funcionamento era obrigado exatamente ao contrário”, realça Isabel Pires, que acrescenta que “a irracionalidade da decisão tomada por aqueles dias mostra bem a insensibilidade que norteou algumas escolhas.”

Depois disso, as medidas de desconfinamento ao nível dos transportes impostas pela DGS “fazem sentido”. Mas falta uma adequação das frequências em toda a rede, reposição de carruagens, autocarros e barcos e estratégia alternativa para casos de necessidade e acabar com o lay off nas empresas do setor dos transportes.

A dirigente bloquista respondeu ao ministro das Infraestruturas, que afirmara “insistentemente” que a linha de Sintra funciona a 100%, considerando que “100% de um serviço insuficiente não é uma solução, é um problema”.

Problemas idênticos sofrem os utentes de autocarros: “não há um utente, em qualquer parte do país, que compreenda o que se passa com os autocarros”, já que “ao mesmo tempo que as empresas continuam a receber prestações devidas pelos contratos de serviço público, não estão a prestar esse serviço e ainda estão em lay off, prejudicando utentes e trabalhadores".

O Bloco defende assim que “quando se desconfina a economia, não se podem manter confinados os meios de transporte” e “não é porque o governo diz que não há sobrelotação que as pessoas deixam de viajar demasiadas vezes sem condições de manter qualquer distanciamento físico”.

Isabel Pires referiu-se ainda a outros problemas que complicam a disseminação do novo coronavírus como as de trabalho e as de habitação. Sobre estas, esclareceu: “há uma concentração na região de Lisboa de centros habitacionais com fracas condições, que garantam às pessoas segurança na sua proteção e das suas famílias”. Do plano de realojamento para pessoas que vivam em habitações precárias e sobrelotadas anunciado pelo primeiro-ministro a 29 de maio, continua a não haver notícia: “desde então que respostas habitacionais foram dadas a estas pessoas a não ser uma culpabilização extra que tanto se tem feito ouvir nos últimos dias?”, questionou.

Finalmente, a deputada abordou “a confusão no seio do governo” que, segundo ela, “também não ajuda em nada” à situação. Esta quarta-feira a ministra da Saúde disse que a falta de distanciamento nos transportes públicos não está associada a casos identificados. Mas no dia 29, António Sales, o secretário de Estado, dizia que a situação nos transportes públicos poderia ser motivo de preocupação e o ministro das Infraestruturas admitiu na terça-feira que “pode haver risco de transmissão no comboio”, mas tentou relativizar a questão.

Para Isabel Pires, “esta narrativa do governo não cola com a realidade sentida por milhares de pessoas” e “desvaloriza um problema grave que não pode ser desvalorizado”. E “não é por não falar neles que eles vão desaparecer. Não é tentando criar uma narrativa de culpabilização individual que conseguiremos ultrapassar esta situação. Não é por colocar a cabeça na areia à espera que passe”, concluiu.

268483857936614

Termos relacionados Política
(...)