O escândalo conhecido por "Qatargate" já levou à prisão de cinco pessoas, entre elas a eurodeputada grega Eva Kaili, que ocupava a vice-presidência do Parlamento Europeu, o ex-eurodeputado italiano Antonio Panzeri, ambos do grupo socialista, bem como o atual líder da Confederação Internacional de Sindicatos, Luca Visentini, todos sob suspeita de receberem vantagens financeiras do regime do Qatar em troca de ações em defesa desse regime alvo de críticas recorrentes por violação dos direitos humanos.
Para o Corporate Europe Observatory (CEO), uma ONG que vigia o poder dos lóbis nos corredores de Bruxelas, "ao recusarem adotar regras para detetar e prevenir o lóbi dos regimes repressivos, as instituições europeias, incluindo o Parlamento Europeu, abriram a porta a escândalos de subornos e manipulação da tomada de decisões".
"Este horrível escândalo ainda em desenvolvimento é produto de anos de negligência que agora regressam para assombrar as instituições da UE. Apelámos durante muitos anos para que houvesse uma defesa efetiva contra os lóbis dos regimes repressivos, mas as nossas exigências foram ou ignoradas ou mal implementadas", afirma o coordenador do CEO.
"Já imaginaram se todos tivéssemos acesso a uma descrição de quem são os lobistas e com quem é que eles se reúnem no Parlamento Europeu? Melhor ainda, e se tivéssemos regras que prevenissem os lobistas de regimes repressivos de andarem pelos corredores das instituições sem qualquer obstáculo? Estas propostas já existem há muito tempo, mas não foram ouvidas", prosseguiu Olivier Hoedeman.
Dependência do gás pode levar a UE a apoiar regimes repressivos
Para este Observatório, o Qatargate "pode ser apenas a ponta do iceberg", mas não basta tomar medidas reativas como se fez há meses, ao proibir-se a ação dos lobistas da Rússia. "Do que precisamos é de uma configuração global credível para evitar a interferência dos regimes repressivos na tomada de decisão democrática da UE".
Por outro lado, o CEO alerta que a recente crise energética veio agravar o problema, com a UE e alguns Estados-membros a cortejarem o regime do Qatar para obterem acesso às importações de gás e petróleo daquele estado após a invasão russa da Ucrânia. "Este é só mais um aviso de que a dependência da UE do gás não é apenas um desastre para o clima e as faturas da energia, mas pode levar a UE a apoiar regimes repressivos direta ou indiretamente", alertam.
Uma situação que já tem precedentes no escândalo da "Lavandaria Azeri" entre 2012 e 2014, com o regime do Azerbeijão a canalizar milhares de milhões de euros para offshores, num caso de lavagem de dinheiro e subornos para garantir a aprovação do mega-gasoduto do Corredor de Gás do Sul, entre aquele país e Itália, e o silenciamento das críticas dos responsáveis políticos europeus em relação às violações dos direitos humanos por parte do regime de Ilham Aliyev.