Armas para Israel

Protestos em Marrocos contra cargueiros do genocídio

12 de novembro 2024 - 14:53

Centenas de pessoas manifestaram-se no domingo em Tânger contra a chegada dos navios suspeitos de carregar armas para Israel. O cargueiro da mesma empresa que atracou em Lisboa já passou por Tânger e vai a caminho de Israel.

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Manifestação em Tânger
Manifestação em Tânger no domingo. Foto Quds News Network/X

Na manhã de domingo, mais de uma centena de pessoas protestaram junto ao porto de Tânger com bandeiras da Palestina e do Líbano contra a chegada de um cargueiro suspeito de transportar material militar para Israel e que por essa razão foi impedido pelo governo espanhol de fazer escala nos seus portos. Ao final da tarde, o protesto prosseguiu nas ruas da cidade, juntando centenas de pessoas numa manifestação. A proibição surgiu após as revelações que deram conta da passagem por Algeciras de 1.185 envios de material militar para Israel entre maio e setembro deste ano, apesar do chefe da diplomacia ter anunciado que “não permitiria” este tipo de trânsito.

Depois de proibido de atracar em Algeciras, o cargueiro Maersk Denver chegou na sexta à noite ao porto de Tânger, na véspera de outro cargueiro da mesma empresa, o Nysted Maersk, atracar em Lisboa tendo também a cidade portuária de Tânger como a próxima paragem no dia seguinte. Este último já saiu de Tânger com destino ao porto israelita de Haifa, mas àquela cidade deve chegar esta semana outro navio impedido de atracar em Espanha pelas mesmas razões, o Maersk Seletar. Em junho, este navio foi alvo de um ataque de drones dos houthis iemenitas quando navegava no Mar Arábico, um ataque que foi anunciado como retaliação ao massacre israelita em Gaza.

A campanha Boicote, Desenvolvimento e Sanções suspeita que estes navios da Maersk estejam a servir para transportar armas dos Estados Unidos com destino a Israel, mas a empresa dinamarquesa proprietária nega as acusações. No caso do navio que atracou em Lisboa durante o fim de semana, o Governo português tomou por bom o inventário de carga que lhe foi apresentado e não ordenou uma inspeção ao navio, permitindo que seguisse viagem para Tânger. O Presidente da República também se pronunciou sobre o caso, afirmando que o Governo pesquisou "tudo em pormenor e não se encontrou nada relacionado com o armamento naquilo que foi descarregado em Lisboa”. Na verdade, como disse ao Observador o comandante da capitania do Porto de Lisboa, não foi feita nenhuma verificação da carga do navio e as informações sobre a carga divulgadas pelo Governo são as que a empresa comunicou. O Presidente também deu a entender que o navio se dirigia para os EUA, com base na informação do Governo que haveria a bordo contentores com peças de asas de aviões com destino àquele país. Mas o site que pesquisa as rotas dos navios em tempo real confirma que o Nysted Maersk ruma agora ao porto israelita de Haifa, onde a carga é esperada no próximo sábado.

O mesmo pedido de inspeção à carga foi feito em Marrocos em relação ao Maersk Denver quer pela campanha BDS, quer pelo Partido da Justiça e Desenvolvimento, a formação islamista que foi o principal partido no país nas eleições de 2011 e 2016, caindo depois para a oitava posição após ter assinado o acordo tripartido de normalização das relações de Marrocos com Israel. Segundo a Maersk, esta viagem do navio tem como destino Omã e não passará por Israel. 

O portal espanhol El Diario publica esta segunda-feira o resultado de uma investigação da Progressive International e do Palestinian Youth Movement acerca da carga transportada pelos dois navios no último ano nas viagens com origem nos EUA e escala em Algeciras. A investigação conclui que a carga militar dos navios como o Denver e o Seletar é ali descarregada para depois ser carregada para os navios da mesma empresa que fazem a rota dos portos mediterrânicos, como o Nysted Maersk que atracou em Lisboa. No caso do Maersk Seletar, houve quatro viagens que carregaram vários tipos de veículos de combate militar presentes na invasão de Gaza. Nas três viagens feitas pelo Maersk Denver também iam veículos militares, carga militar não especificada com mais de 100 toneladas, pneus para aviões e muita carga diplomática. No caso do Nysted Maersk, o barco que atracou em Lisboa e seguiu para Tânger após o governo espanhol ter dado ordens aos portos para apertarem a fiscalização aos barcos deste armador, evitando assim parar em Algeciras, o El Diario sabe que no passado já carregou nesse porto espanhol contentores deixados pelos outros cargueiros, pelo que considera possível que tenha feito o mesmo agora em Tânger, recolhendo parte da carga militar ali deixada pelo Maersk Denver.

Em Espanha, os coletivos que formam parte da campanha pelo fim ao comércio de armas com Israel têm reclamado “um protocolo urgente de inspeção sistemática a todos os barcos que têm como destino Israel”. A 22 de outubro, 300 personalidades do mundo da cultura escreveram uma carta ao primeiro-ministro Pedro Sánchez para que decrete um embargo que inclua “o trânsito de armas e combustível militar pelo nosso território”.