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Proteger o planeta é também uma questão de saúde pública

As zoonoses (doenças emergentes) são mais uma das faces da crise ambiental que vivemos, visto que são potenciadas pela destruição da biodiversidade e de habitats que tem origem nas atividades humanas. Artigo de Francisco Cordeiro.
As zoonoses são particularmente potenciadas pela indústria de pecuária intensiva
As zoonoses são particularmente potenciadas pela indústria de pecuária intensiva

1. A relação entre agropecuária intensiva e doenças emergentes

Vivemos numa fase de grave crise ambiental, onde se incluem as alterações climáticas causadas pelo aquecimento global1, a contaminação de recursos naturais essenciais à espécie humana e à restante vida no planeta (ar, água e solo), destruição de áreas protegidas e degradação da biodiversidade, entre outros.

A indústria agropecuária intensiva tem um impacto direto em vários aspetos desta crise ambiental que atravessamos: contamina o ar, contamina rios e outros cursos de água, contamina igualmente o solo. Para além disso, à medida que se vai expandindo, vai destruindo habitats naturais e pondo em risco a biodiversidade. Através dos dados disponibilizados em “The State of Nature in the EU”, a agricultura é a segunda ameaça à conservação de habitats e espécies selvagens no nosso país (Gráfico 1)2:

Gráfico 1: Pressões e ameaças aos habitats em Portugal

Gráfico 1: Pressões e ameaças aos habitats em Portugal

Em Portugal existem vários casos que demonstram a poluição causada pela indústria pecuária, como se verifica na bacia do rio Lis e nas pecuárias que se situam junto ao rio Alviela (concelhos de Santarém e Alcanena). Para além destas atividades terem impacto direto na qualidade de vida das populações, com maus cheiros e contaminações de cursos de água, estas têm igualmente impacto na envolvente natural.

A produção, manutenção e consumo de animais têm estado associados com o aparecimento de zoonoses (doenças emergentes) a nível global. Por exemplo, em 1976 foi identificado o vírus do Ébola, posteriormente o HIV, a Dengue, o Nipah, a Zika, a Malária, a EEB (encefalopatia espongiforme bovina, conhecida como doença das vacas loucas) e a gripe das aves H5N13 4. Em 2004 foi também identificado um vírus chamado Chapare, com consequências muito graves para a saúde humana5. No final do ano de 2019 surgiu o vírus Covid-19 que acabou por originar uma pandemia no ano seguinte6 7.

Em 1998, na Malásia, foi identificado o vírus Nipah em que a maioria das pessoas infetadas tinham tido contacto com porcos. Segundo a investigação de Kaw Bing Chua, o vírus tinha como hóspede morcegos que se tinham aproximado das quintas onde estavam os porcos por terem o seu habitat em perigo. A hipótese é que os dejetos dos morcegos tenham contaminado os porcos e estes, por sua vez, os humanos. A deflorestação, a agricultura e a urbanização destruíram rapidamente o ambiente natural dos morcegos que causou stress junto da sua população e acabou por forçar a sua migração. O hábito de viverem em grandes agrupamentos ajuda a difusão deste e de outros vírus8.

As zoonoses são particularmente potenciadas pela indústria de pecuária intensiva

As zoonoses são particularmente potenciadas pela indústria de pecuária intensiva. Esta relação deve-se à cada vez maior ocupação de terras livres de intervenção humana para fins de produção pecuária e agricultura intensivas. Esta apropriação do território causa a diminuição da biodiversidade animal e vegetal. À medida que a área abrangida pela atividade pecuária aumenta, a criação intensiva de inúmeros animais da mesma espécie potencia o aparecimento de bactérias e de vírus por via do contacto com seres de espécies selvagens. Do contágio entre várias espécies de animais até ao contágio de seres humanos é apenas um passo, sendo que o gado produzido de forma intensiva é assim uma fonte de contágio para humanos (com a redução da diversidade genética dos animais de pecuária a probabilidade de contágio entre estes animais e de mutações das zoonoses aumenta)9 10.

Verifica-se assim que as zoonoses são mais uma das faces da crise ambiental que vivemos, visto que são potenciadas pela destruição da biodiversidade e de habitats que tem origem nas atividades humanas.

2. O que fazer?

A urgência do tema e a ameaça do aparecimento de novas doenças leva à necessidade de agir rapidamente. A boa notícia é que o amplo conhecimento científico sobre o assunto aponta para várias soluções, estando a mais evidente diretamente relacionada com a pecuária. Em primeiro lugar é essencial interditar a prática intensiva desta atividade e adotar, pelo contrário, práticas comprovadamente sustentáveis baseadas no modelo agro-silvo-pastoril, ou seja, em sistemas agrícolas tradicionais (onde se destaca o exemplo da região do Barroso11).

Em primeiro lugar é essencial interditar a prática intensiva da pecuária e adotar práticas comprovadamente sustentáveis baseadas no modelo agro-silvo-pastoril

Seria igualmente importante haver um ordenamento do território cuidado, protegendo espaços do território (não só terrestres, mas também aquáticos) das atividades humanas que são prejudiciais à biodiversidade e à defesa dos habitats naturais. Nesta linha de intervenção, deve-se impedir a expansão de terrenos de agricultura ou de pecuária intensiva (particularmente para áreas protegidas), assim como travar a alteração dos fluxos naturais de cursos de água (com construção de barragens, açudes e outras barreiras à circulação dos peixes). Deve-se também manter o máximo possível a existência das chamadas florestas de espécies autóctones.

Por último, é necessário restaurar habitats naturais. Esta restauração permite evitar a extinção de inúmeras espécies ao mesmo tempo que possibilita a absorção de grande parte do carbono que tem sido acumulado na atmosfera12 e, logo, contrariar as alterações climáticas. Existem excelentes exemplos de organizações que estão a fazer algo neste sentido, como a Rewilding Portugal, que promove a manutenção de atividades humanas que permitem a preservação da natureza e a MilVoz – Associação de Proteção e Conservação da Natureza que compraram um terreno com donativos e estão a torna-lo numa reserva natural.

Resta-nos questionar a elite económica e o poder político dos diferentes níveis: de que estão à espera?

Artigo de Francisco Cordeiro

Notas:

1 João Camargo em Manual de Combate às Alterações Climáticas

3Drew Pendergrass e Troy Vetesse em The climate crisis and covid-19 are inseparable. Pode ser consultado em https://jacobinmag.com/2020/05/climate-change-crisis-covid-coronavirus-environment?fbclid=IwAR1mBi9zAGrhTzp-53doU63ls0Tx9Bo7WD-YImW9ZCL5cPojPjA_NoWJzz0

4Lucile Leclaire em “Em nome da biossegurança”, edição de Novembro do Jornal Le Monde Diplomatique – edição portuguesa

6Francisco Cordeiro em O coronavírus e a indústria da carne. Pode ser consultado em https://maisribatejo.pt/2020/06/03/o-coronavirus-e-a-industria-da-carne/

7Sonia Shah em Contra a pandemia, ecologia. https://diplomatique.org.br/contra-a-pandemia-ecologia/

8 Lucile Leclair em Pandémies, Une Production Industrielle

9Jason R. Rohr et al. em Emerging human infectious diseases and the links to global food production

10Serge Morand em Emerging diseases, livestock expansion and biodiversity loss are positively related at global scale

Sobre o/a autor(a)

Deputado municipal de Santarém do Bloco de Esquerda. Pós-Graduado em Sistemas de Informação
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