Ciência

Professores e investigadores são fundamentais na luta contra o negacionismo

22 de junho 2025 - 14:49

Há um problema de comunicação entre professores/investigadores e a comunidade, dentro e fora das salas de aula. É atacando esta questão que poderemos, a médio e longo prazo, começar a combater a febre da desinformação.

por

Leonardo Baptista

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Ilustração Ciência
Ilustração sobre ciência. Imagem de The Conversation.

Já é senso comum que o negacionismo científico se espalhou pelo mundo e continua a aumentar. Apesar de não ser um fenómeno recente, os ataques contra o conhecimento científico têm tomado proporções cada vez mais preocupantes. O recente caso envolvendo o canal “Nunca Vi um Cientista”, das cientistas Ana Bonassa e Laura Marise, que foram processadas depois de denunciarem o perfil de uma nutricionista que vendia protocolos de “desparasitação” como cura para o diabetes, exemplifica bem o momento em que vivemos.

Em 2020, o notório negacionista científico “Mad” Mike Hughes morreu ao lançar-se num foguete caseiro para supostamente tentar provar que a Terra é plana.

Nos últimos anos, o negacionismo científico também se misturou com o charlatanismo e a pura picaretagem no terreno da Saúde. Na redes sociais, soluções simplórias e “milagrosas” são divulgadas e vendidas como panaceias mágicas para doenças que, reconhecidamente, não têm cura.

Hoje é fácil de se encontrar, por exemplo, adesivos que protegem contra “os malefícios” da poluição eletromagnética emitida por telemóveis e fornos de micro-ondas. Recentemente, o governo holandês encontrou no mercado diversos acessórios que seriam “protetores” contra a radiação 5G dos celulares que para isso emitiam radiação ionizante. Esta sim, prejudicial a saúde.

Contacto com o negacionismo

O livro “Ciência Picareta”, do escritor e psiquiatra britânico Ben Goldacre, famoso pela coluna “Bad Science”, que escreveu no jornal The Guardian entre 2003 e 2011, é um dos recentes best-sellers que evidenciam o poder deletério que a pseudo-ciência, o charlatanismo e o negacionismo exercem há bastante tempo na vida das pessoas.

O livro mostra vários casos em que o mau uso do conhecimento científico, ou simplesmente má-fé, levam a ideias absurdas sobre causas e curas de doenças, com destaque especial para as dietas ineficazes e até mesmo perigosas que são vendidas de forma cada vez mais intensa por influenciadores de redes sociais.

A obra detalha casos nos quais informações absurdas, disfarçadas de verdades científicas, foram usadas nos últimos anos em benefício de governos e empresas mal-intencionadas. Muitos exemplos são de casos ocorridos durante a pandemia de Covid-19, e propagados pelas redes sociais. Mas o livro também alerta que o problema tem raízes, ao lembrar da iniciativa do governo da África do Sul, que durante o auge da epidemia de Sida, nos anos 90, negou que a doença fosse causada pelo vírus HIV. E do caso do Institute for Optimum Nutrition, que na mesma época afirmava que Vitamina C era mais eficiente para o tratamento da Sida que os antivirais utilizados.

De lá para cá, tem sido muito fácil encontrar nas redes sociais, e na internet como um todo, textos e vídeos que propagam ideias erradas sobre vacinas, curas para doenças incuráveis, terraplanismo e outros temas.

Também se tornou notória a propagação de desconfiança e desinformação contra a validade dos métodos científicos promovidas por figuras públicas de governos de extrema-direita. Como foi o caso do ex-assessor da Presidência da República durante o governo Jair Bolsonaro, Arthur Weintraub, que durante a pandemia afirmou durante a gravação de um vídeo que “…o modelo académico, que segue o método científico, é um modelo arcaico, é uma coisa que vem de quando não havia Internet…”. No mesmo episódio, ele conta que comprou cloroquina sem receita na farmácia e tomou por conta própria para conhecer os efeitos, e assim sentir-se apto a aconselhar o governo sobre o assunto. Um retrato não só de ignorância, mas de total desprezo com os protocolos científicos e de segurança.

Neste cenário, a pergunta que mais me chama atenção é: “Onde nós, professores e investigadores, estamos a errar?”. Como principais formadores e divulgadores do conhecimento científico, o que fizemos, ou deixamos de fazer, para que chegássemos a este cenário generalizado de negacionismo científico?

A ideia não é apontar culpados, ou achar um bode expiatório, mas refletir e pensar em ações que possam mitigar os problemas enfrentados. É preciso discutir o fenómeno e as suas possíveis causas, para a partir daí propor soluções.

Cientistas x população

Ainda hoje prevalece o estereótipo do cientista de meia-idade, com cabelos atrapalhados, a vestir bata e a trabalhar sozinho num laboratório cheio de frascos e substâncias coloridas. Estereótipo esse que a academia tem vindo a tentar eliminar, junto com vários divulgadores científicos conhecidos. Dentre estes, é importante divulgar os canais Nunca Vi Um Cientista, Olá Ciência, Manual do Mundo e a página do biólogo Átila Iamarino. Apenas três bons exemplos de divulgadores brasileiros que lutam para mitigar o estrago causado pela pseudo-ciência e o negacionismo científico.

Apesar da maioria da população confiar nos cientistas, na América do Norte já foi verificado um declínio estatístico deste sentimento após a pandemia. Também foi verificado que a desconfiança está associada a uma inclinação político-ideológica, e nem sempre está ligada ao nível de escolaridade.

No Brasil, apesar de uma grande parcela da população ter interesse em ciência, tecnologia, saúde e meio-ambiente, a população em geral mostra um completo desconhecimento a respeito das instituições de investigação e seus investigadores.

Fica claro que, apesar da reconhecida importância da ciência, a população de forma geral não sabe como e por quem é feita a pesquisa científica no Brasil. Neste ponto podemos ver que, como grupo, os professores apenas conseguem fixar o conteúdo curricular das ciências na mente dos estudantes. Deixando a desejar no que se refere ao processo científico como um todo.

Entretanto, como já foi apontado noutro artigo, a rejeição à ciência não se deve apenas às suas incertezas e complexidade, mas também ao confronto que esta causa com crenças e valores que as pessoas assumem como verdadeiras. Desta forma, existe um caráter humano que é preciso lidar, mas que é muito mais complexo do que apenas fornecer dados e explicações de fenómenos.

Ações contra a desinformação

O caminho para divulgação científica na Internet já está bem traçado e mapeado: criação de canais em redes de vídeo, filmagem de experiência, divulgação de trabalhos em redes sociais etc. Além da criação de eventos dedicados exclusivamente à divulgação científica, como o Pint of Science. No entanto, a luta neste campo é acirrada.

Muitos negacionistas, pseudo-cientistas e “médicos de YouTube” militam nesta mesma arena e com uma boa taxa de sucesso. Possivelmente por se conectarem emocionalmente melhor com os seus interlocutores.

Uma razão por trás disso, é o peso que títulos como “Doutor” e “Médico” têm na nossa sociedade, além do apelo emocional aplicado por eles nos seus conteúdos. Em contrapartida, os dados estatísticos, jargões de área e, às vezes, a atitude empertigada dificultam a conexão dos cientistas de verdade com a sua audiência. Muitos divulgadores científicos na Internet conseguem contornar estas dificuldades, mas não sem uma dose jargões e dados excessivamente técnicos que podem terminar por dificultar sua comunicação.

Por parte do meio académico, o ensino formal deveria ser a principal ferramenta contra pseudo-ciência e negacionismo. Mas está claro, pela observação da nossa sociedade, que o ensino formal não está a cumprir este papel.

Por outro lado, atividades extensionistas têm-se mostrado uma boa estratégia contra o negacionismo. A atividade continuada da divulgação científica parece ser outro caminho viável, mas há baixa adesão dos investigadores. Muito porque estas atividades geralmente não pontuam para o currículo, e por isso logo são abandonadas ou mesmo sequer cogitadas por muitos deles.

Outro ponto que dificulta a divulgação científica é a inaptidão dos investigadores neste trabalho. Uma investigação da agência Bori indicou uma dificuldade de jornalistas contactarem investigadores e vice-versa. Segundo esta, a maioria dos entrevistados gostaria de divulgar a sua investigação, mas não sabe como fazê-lo. Adicionalmente, é importante verificar se os investigadores se sentem à vontade com a exposição mediática e as polémicas que esta exposição pode causar.

Professores/investigadores versus negacionismo

Em 2024, vimos agências de fomento e a própria CAPES a incentivar investigadores e professores a atuarem na divulgação científica, através de editais. No entanto, os professores e investigadores em atuação nas Instituições de Ensino Superior do Brasil foram formados sem treino neste campo. E é possível que a maioria dos docentes nem saiba que na sua instituição há setores que o podem ajudar nesta tarefa.

Também os fatores humanos apontados aqui precisam ser enfrentados: conexão entre investigador e a sua audiência; ligação entre investigadores e jornalistas; e como lidar com exposição mediática e polémicas. É preciso melhorar a forma como comunicamos com alunos e leigos de forma geral. E neste caso, a simplicidade e levar em conta a experiência de vida do nosso interlocutor pode ser o caminho para uma melhor conexão.

É preciso ainda que sejam criadas pontes entre jornalistas, revistas de divulgação científica e investigadores, além de uma aproximação maior dos setores de comunicação das instituições de ensino com os seus docentes. A Agência Bori tem vindo a realizar o treino de investigadores para darem entrevistas e fazerem divulgação científica. Mas ainda não parece ser algo de amplo conhecimento no meio académico.

O mundo dos canais digitais já oferece iniciativas pontuais de divulgação científica propostas por docentes. O canal Já Pensô?, do Professor Brebo Galvão, é um deles. Mas são atividades pulverizadas, e não um movimento geral de divulgação científica. Logo, fica clara a existência de um problema de comunicação entre professores/investigadores e a comunidade, dentro e fora das salas de aula. É atacando esta questão que poderemos, a médio e longo prazo, começar a combater a febre da desinformação.


Leonardo Baptista é professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Texto publicado originalmente no The Conversation Brasil.