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Primeiro embrião humano viável geneticamente modificado: o que está em jogo?

O laboratório de He Jiankui, em Shenzhen, revelou que editou o genoma de um zigoto viável, durante um procedimento de fertilização in vitro, resultando num embrião viável que deu origem a duas irmãs gémeas. A comunidade científica está em choque e reticente. Por Francisco Pascoal.
CRISPR Cas9 - Ernesto del Aguila III, National Human Genome Research Institute, NIH / Flickr
CRISPR Cas9 - Ernesto del Aguila III, National Human Genome Research Institute, NIH / Flickr

Nos últimos dias, o laboratório de He Jiankui, na Universidade Tecnologia e Ciência de Shenzhen, na República Popular da China, revelou que editou o genoma de um zigoto viável, durante um procedimento de fertilização in vitro (FIV), resultando num embrião viável que deu origem a duas irmãs gémeas, que nasceram saudáveis.

O procedimento, em concreto, permitiu que o pai, HIV positivo, não transmitisse a doença do HIV para as filhas durante a gravidez, de acordo com o laboratório as crianças nasceram sem a doença.

A comunidade científica está em choque e reticente, é a primeira vez que se aplica engenharia genética em embriões humanos viáveis e numa era da biologia molecular em que a tecnologia de CRISPR se torna mais e mais sofisticada, a capacidade de modificar pessoas geneticamente foi posta em cima da mesa, agora tem de ser enfrentada de frente.

Apesar do laboratório em questão defender que o procedimento foi seguro, não há consenso internacional alargado sobre a segurança de procedimentos de terapia genética ao nível de embriões humanos e mesmo sendo seguro, é necessário que seja enquadrado num plano ético profundamente estudado e num contexto bem regulamentado.

A nível internacional, a maior parte dos países não tem regulamentação bem estabelecida relativamente a estas tecnologias bastante recentes, por isso, a precocidade dessa investigação poderá ter implicações negativas na regulamentação em vários países, porque a ideia de modificação genética de seres humanos continua a ser uma ideia assustadora e com pouca aprovação por parte da opinião pública, portanto, poderá dificultar a investigação em matérias de terapia genética.

A Coreia do Sul, por exemplo, proíbe qualquer tipo de terapia genética ao nível de embriões humanos e agora mais países poderão seguir esse caminho. É preciso tomar em atenção que a própria comunidade científica da República Popular da China não aprova esta investigação e estão a investigar os critérios de bioética e segurança da investigação em causa, o desagrado vem do facto deste episódio reforçar a imagem internacional que existe das ciências biomédicas na China: uma ciência sem critérios de ética e sem capacidade de regulamentação, o que não é verdade.

Paula Cannon, investigadora especialista no HIV, da Universidade da Califórnia, lançou a preocupação de que este tipo de abordagem para solucionar o HIV poderá transmitir uma ideia errada para o público em geral, aumentando o estigma contra as pessoas que têm essa doença. Outras pessoas, contudo, acham que se as crianças realmente crescerem saudáveis e sem problemas fica comprovado o potencial deste tipo de terapias.

O que é esperado que seja apresentado à comunidade científica para que se comprove a validade do procedimento?

De acordo com David Cyranoski e Heidi Ledford, será necessário sequenciar a totalidade do genoma das irmãs gémeas, do pai e da mãe, para comprovar que, efetivamente, foram feitas as alterações genéticas indicadas e verificar que não houve qualquer outra modificação além da desejada. Será ainda preciso verificar se a alteração se expressa diferentemente em diferentes células. E, claro, quer-se saber quais foram os critérios éticos aplicados.

As considerações éticas aplicadas pelo grupo de He

Em sua defesa, He indica que a bioética está avançada o suficiente para se regular este tipo de procedimentos, e além de afirmar que o procedimento foi ético e seguro, afirma que é um dever moral.

He apresentou cinco princípios éticos que deverão ser usados se se quiser fazer engenharia genética de embriões humanos e, como a partir de agora é algo que realmente acontece, temos de pensar seriamente na necessidade desses princípios:

  1. Família. Esta tecnologia é a única que permite a viabilidade de imensas famílias. É preciso compreender que na cultura chinesa a família é um pilar fundamental da sociedade, portanto, faz sentido que seja o primeiro argumento usado por He, em qualquer caso, tem um fundo de verdade, pais HIV positivos ou com outras doenças que se transmitem dos pais para filhas/os, como certos tipos de cegueira, fibrose cística, entre outras doenças, poderão não ter outra hipótese além desta para ter crianças saudáveis.

  2. Cura de doenças. Esta tecnologia só pode ser utilizada para tratar doenças sérias, ou seja, só deverá ser usada se for necessária para a sobrevivência da criança e nunca por questões de vaidade, ou seja, deve-se remover por completo da equação a possibilidade de alterar características como a cor da pele, dos olhos, o cabelo, altura ou quaisquer outras características que os pais possam querer por vaidade e não por necessidade de saúde.

  3. Autonomia da criança. Nunca poderá resultar no comprometimento da autonomia da criança, não podendo, portanto, ter efeitos secundários ou indiretos que condicionem a futura criança em determinado caminho.

  4. Os genes não são tudo. Os genes não definem a personalidade de uma pessoa. Isto é uma ideia fundamental que o público muitas vezes não compreende, há esta ideia errada de que a nossa existência está única e exclusivamente pré-determinada pelos genes, o que é mentira, este tipo de terapias dificilmente poderá servir para moldar a personalidade de futuras pessoas, mas têm imenso potencial para salvar vidas;

  5. A cura é um direito. Qualquer pessoa tem o direito de ser curada de doenças cujo tratamento exista. E é por isso que o laboratório de He defende que, havendo esta capacidade, é um dever moral que seja utilizada.

De facto, qualquer pessoa tem o direito de ser curada de doenças cujo tratamento exista, e este talvez seja o ponto que se tenha de enfatizar mais, caso se torne prática corrente, no futuro (não muito distante), este tipo de tratamentos, é fundamental que estejam regulamentados de modo a não serem um luxo dos mais ricos, de modo a que não seja uma nova forma de desigualdade. A partir do momento que este tipo de terapias forem comercializadas por empresas privadas para obter lucro, então corremos um risco enorme de ter uma classe social imune a um conjunto de doenças e outra classe social com as referidas doenças (Daí a preocupação com o estigma social associado a estas doenças).

São este tipo de questões que estão em jogo, é uma tecnologia que pode ser problemática se não estiver universalmente disponível, será que aqueles princípios éticos sugeridos pelo próprio cientista serão suficientes? E serão aplicados? Que regulamentação será a mais indicada? E a que preço? Será caro ou barato? Isso faz a diferença.

Proibir cegamente estas abordagens não seria sensato, porque, de facto, não deixam de ser curas para doenças letais, não obstante, enquanto não existir um quadro de regulamentação suportado pela comunidade científica internacional e um corpo ético suficientemente maturo, será cedo para estas terapias.

Para saber mais:

https://www.nature.com/articles/d41586-018-07559-8

https://www.nature.com/articles/d41586-018-07545-0

https://www.youtube.com/channel/UCn_Elifynj3LrubPKHXecwQ

Artigo de Francisco Pascoal, publicado no blogue Via Esquerda em 30 de novembro de 2018

Sobre o/a autor(a)

Licenciado em Biologia Celular e Molecular, mestrando em Microbiologia, trabalha na área de Metagenómica. Dirigente distrital de Santarém do Bloco de Esquerda
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