Horas depois de ter sido deposto num golpe militar, Ibrahim Boubacar Keita, Presidente do Mali desde 2013, anunciou a sua demissão e a de todo o Governo numa declaração feita pela televisão. O golpe militar ocorreu após meses de protestos contra a corrupção no país e o aumento da insegurança.
No final da tarde de terça-feira, 18 de agosto, Keita fora detido na companhia de Boubou Cissé, primeiro-ministro do país. Ambos terão sido levados para um acampamento militar onde teve lugar de manhã um motim, refere a agência Lusa.
"Se hoje pareceu bem a alguns elementos das nossas forças armadas concluir que tudo devia terminar com a sua intervenção, será que tenho realmente escolha? Não tenho outra escolha senão submeter-me, porque não quero que seja derramado sangue para me manter [no cargo]", disse Keta, referindo-se a si mesmo como “Presidente cessante”.
"É por isso que gostaria neste preciso momento, ao agradecer ao povo do Mali o seu apoio ao longo destes longos anos e o calor do seu afeto, de vos anunciar a minha decisão de deixar as minhas funções, todas as minhas funções, a partir deste momento", disse. "E com todas as consequências legais: a dissolução da assembleia nacional e do governo", acrescentou. A notícia da sua saída foi recebida com festejos nas ruas, noticia a Al Jazeera.
Os militares que tomaram o poder no país afirmam que pretendem uma "transição política civil" que conduza a eleições gerais dentro de um "prazo razoável".
"Nós, as forças patrióticas agrupadas no Comité Nacional para a Salvação do Povo (CNSP), decidimos assumir as nossas responsabilidades perante o povo e perante a história", disse o porta-voz dos militares e vice-chefe de Estado-Maior da Força Aérea, coronel Ismaël Wagué, numa declaração emitida às 03h40 (04h40 em Lisboa) pela televisão pública ORTM.
Os militares justificam o golpe de estado com o facto de o país, dizem, se afogar “dia após dia no caos, na anarquia e na insegurança”, responsabilizando por isso “os homens encarregados do seu destino”. Denunciam ainda o "clientelismo político" e "a gestão familiar dos assuntos do Estado".
Em declarações feitas esta manhã, pedem à sociedade civil e aos movimentos sociopolíticos que se juntem aos militares “para criar as melhores condições para uma transição política civil conducente a eleições gerais credíveis para o exercício da democracia, através de um roteiro que lançará as bases para um novo Mali”.
O porta-voz do CNSP afirma que serão respeitados todos os acordos internacionais do Mali, mantendo-se o empenho “no processo de Argel”, o acordo de paz assinado em 2015 por Bamako e os grupos armados do norte do país.
O ministro da Defesa português João Gomes Cravinho afirmou à Agência Lusa que está “a acompanhar a situação no Mali com grande preocupação”. Portugal tem destacados no país 63 militares da Força Aérea Portuguesa.
O ministro acentuou "a ilegitimidade da imposição" da força para resolver o conflito e “considera fundamental respeitar a ordem constitucional do país”.
“Qualquer mudança que venha a ocorrer no Mali não pode ser imposta pela força das armas", salientou a fonte do gabinete de João Gomes Cravinho.