Presidente do Mali anuncia demissão após golpe de estado no país

19 de agosto 2020 - 15:02

Keita diz que se demite para evitar derramamento de sangue. Os militares afirmam pretender organizar eleições gerais num “prazo razoável”. Golpe de estado surge após meses de manifestações contra a corrupção no país.

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Ibrahim Boubacar Keita, presidente cessante do Mali, numa iniciativa pública em junho de 2020.
Ibrahim Boubacar Keita, presidente cessante do Mali, numa iniciativa pública em junho de 2020. Fotografia de Ludovic Marin/EPA/Lusa.

Horas depois de ter sido deposto num golpe militar, Ibrahim Boubacar Keita, Presidente do Mali desde 2013, anunciou a sua demissão e a de todo o Governo numa declaração feita pela televisão. O golpe militar ocorreu após meses de protestos contra a corrupção no país e o aumento da insegurança.

No final da tarde de terça-feira, 18 de agosto, Keita fora detido na companhia de Boubou Cissé, primeiro-ministro do país. Ambos terão sido levados para um acampamento militar onde teve lugar de manhã um motim, refere a agência Lusa.

"Se hoje pareceu bem a alguns elementos das nossas forças armadas concluir que tudo devia terminar com a sua intervenção, será que tenho realmente escolha? Não tenho outra escolha senão submeter-me, porque não quero que seja derramado sangue para me manter [no cargo]", disse Keta, referindo-se a si mesmo como “Presidente cessante”.

"É por isso que gostaria neste preciso momento, ao agradecer ao povo do Mali o seu apoio ao longo destes longos anos e o calor do seu afeto, de vos anunciar a minha decisão de deixar as minhas funções, todas as minhas funções, a partir deste momento", disse. "E com todas as consequências legais: a dissolução da assembleia nacional e do governo", acrescentou. A notícia da sua saída foi recebida com festejos nas ruas, noticia a Al Jazeera.

Os militares que tomaram o poder no país afirmam que pretendem uma "transição política civil" que conduza a eleições gerais dentro de um "prazo razoável".

"Nós, as forças patrióticas agrupadas no Comité Nacional para a Salvação do Povo (CNSP), decidimos assumir as nossas responsabilidades perante o povo e perante a história", disse o porta-voz dos militares e vice-chefe de Estado-Maior da Força Aérea, coronel Ismaël Wagué, numa declaração emitida às 03h40 (04h40 em Lisboa) pela televisão pública ORTM.

Os militares justificam o golpe de estado com o facto de o país, dizem, se afogar “dia após dia no caos, na anarquia e na insegurança”, responsabilizando por isso “os homens encarregados do seu destino”. Denunciam ainda o "clientelismo político" e "a gestão familiar dos assuntos do Estado".

Em declarações feitas esta manhã, pedem à sociedade civil e aos movimentos sociopolíticos que se juntem aos militares “para criar as melhores condições para uma transição política civil conducente a eleições gerais credíveis para o exercício da democracia, através de um roteiro que lançará as bases para um novo Mali”.

O porta-voz do CNSP afirma que serão respeitados todos os acordos internacionais do Mali, mantendo-se o empenho “no processo de Argel”, o acordo de paz assinado em 2015 por Bamako e os grupos armados do norte do país.

O ministro da Defesa português João Gomes Cravinho afirmou à Agência Lusa que está “a acompanhar a situação no Mali com grande preocupação”. Portugal tem destacados no país 63 militares da Força Aérea Portuguesa.

O ministro acentuou "a ilegitimidade da imposição" da força para resolver o conflito e “considera fundamental respeitar a ordem constitucional do país”.

“Qualquer mudança que venha a ocorrer no Mali não pode ser imposta pela força das armas", salientou a fonte do gabinete de João Gomes Cravinho.