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“A preservação e divulgação da nossa memória histórica é fulcral para a Democracia”

Mais de 200 pessoas assistiram na quarta-feira, dia 23 de maio, à apresentação do livro "A noite mais longa de todas as noites", da resistente antifascista Helena Pato, cuja apresentação esteve a cargo da historiadora Irene Pimentel e do escritor Mário de Carvalho. Por Mariana Carneiro.
Da esq. para a dir.: Fernando Mão-de-Ferro (Edições Colibri), Irene Pimentel (historiadora), Mário de Carvalho (escritor) e Helena Pato (autora de "A Noite Mais Longa de Todas as Noites"). Foto de Maria Alice Carneiro.

De acordo com a autora, a obra foi escrita “a pensar naqueles que desconhecem o que realmente foram esses longuíssimos anos [da Ditadura]”, os “jovens e menos jovens, que tiveram a felicidade de nascer ou crescer em Democracia”.

Em A Noite Mais Longa de Todas as Noites (Colibri, 2018), Helena Pato apresenta-nos, por ordem cronológica, “60 historinhas vividas com outros, sejam eles amigos, ou desconhecidos, ou inimigos”.

“Estão contadas na primeira pessoa e com uma vontade emocional que, no percurso da escrita, quase me deixou em ferida. Mas esses testemunhos são sempre precedidos de referências, objetivas, ao período histórico”, avançou a autora durante a apresentação do livro, que teve lugar no Espaço Biblioteca Europa (antigo Cinema Europa) de Campo de Ourique, em Lisboa.

Sublinhando ter “noção da importância que teve a luta que se foi travando, em múltiplas frentes, contra a Ditadura” para, um dia, “os nossos filhos poderem viver livremente, perseguir as opções ideológicas da sua consciência e baterem-se pela conquista total de todos os direitos de cidadania que foram barrados à nossa geração e às gerações anteriores”, Helena Pato dedicou a obra a “todos esses meninos, vítimas indiretas da Ditadura”, ainda que nomeie apenas os seus filhos, Rosa e João.

O livro A Noite Mais Longa de Todas as Noites conta com prefácio de Maria Teresa Horta e posfácios de Luís Farinha e Jorge Sampaio. O grafismo é de Raquel Ferreira sobre fotografia da autora num comício em 1974.

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“A memória do passado tem vindo a ser metodicamente apagada e deturpada”

Alertando que “a memória do passado tem vindo a ser metodicamente apagada e deturpada”, Helena Pato defendeu que “a preservação e a divulgação da nossa memória histórica” tem “uma importância fulcral, quer para a História e a historiografia, quer para a Democracia”.

Segundo a autora, “a memória do passado fascista devia ser repensada quando se encara a educação dos jovens”, defendendo que se deve apostar numa “pedagogia política que traga para primeiro plano a memória da Ditadura”.

Helena Pato reconhece, por outro lado, que “a memória da Resistência parece merecer agora maior atenção dos poderes públicos” e que os temas relacionados com o fascismo têm sido mais abordados em jornais, livros e programas de rádio, bem como por escritores e cineastas de novas gerações, assinalando que, neste aspeto, as redes sociais "tiveram e têm um papel determinante".

Contudo, há, segundo Helena Pato, “bravos lutadores contra o fascismo, com vidas que permanecem na sombra, sem que a Memória lhes faça justiça”.

“A memória da Resistência antifascista tem de deixar de ser construída com heróis, para passar a ser feita de homens e mulheres de carne e osso que, pela firmeza do seu caráter, na dedicação à causa da Liberdade, se dispuseram a dar a vida por ela”, frisou.

“Porque é da maior justiça histórica a preservação dessa memória”, a autora propõe a criação de um memorial no coração de Lisboa, onde, durante décadas, esteve instalado o centro da ação repressiva do regime fascista: “A memória da Resistência não cabe em memoriais, é verdade. Porém, não duvido que esta seria mais uma forma de evocar os tão esquecidos combatentes pela Democracia, pela Liberdade e contra a Ditadura fascista”, vincou.

“Livros como este são vitais para a História e a Memória”

A historiadora Irene Pimentel afirmou que este livro, “através dos seus textos, atiça a curiosidade, a 'cusquice', no bom sentido, além de emocionar, comover quase em cada página”.

“Desencadeia a empatia e admiração pela coragem, lucidez e a capacidade de análise da autora, num registo revelador do sentido de humor, da capacidade de análise psicológica e do maior pudor” de Helena Pato, referiu Irene Pimentel.

De acordo com a historiadora, “contribuindo para a memória e a história da ditadura, do fascismo, do totalitarismo, do autoritarismo, ou seja 'da noite mais longa', Helena responde aos que, após anos de secretismo na clandestinidade, continuam a pensar que se deveria abster de contar certos episódios”.

“Livros como este são vitais para a História e a Memória”, frisou Irene Pimentel, avançando que A Noite Mais Longa de Todas as Noites “é de novo uma preciosidade para os historiadores, mas também para qualquer interessado na nossa História recente, bem como para os que não a conhecem”.

“Para os historiadores certamente, pois preenchem espaços de experiência aos quais eles não têm acesso através de outras fontes”, acrescentou.

A historiadora focou aspetos fundamentais do livro, desde logo, “a síntese da noite mais longa, que é o medo. Os medos”.

Durante a sua intervenção, Irene Pimentel fez ainda referência ao facto de nunca se ter cuidado “do stress pós traumático dos presos políticos e dos torturados”.

“Por todo o lado, vão emergindo sinais de ressurgência dos fascismos e das tiranias”

Referindo à pergunta que surge no livro, “se valeu a pena”, Mário de Carvalho sinalizou que, “por todo o lado, vão emergindo sinais de ressurgência dos fascismos e das tiranias”.

“Valerá sempre a pena ter presente este manifesto em favor da resistência e da liberdade, quando pressentimos o fascismo ou os seus pressupostos a tomar vulto e a rondar por aí. Por enquanto, sobre diversas capas, disfarces e pretextos. A tempo de ser travado. E, para isso, é essencial saber -lhe os efeitos, com a autoridade de quem os sofreu e conheceu por dentro”, avançou.

De acordo com o escritor, “o descaso, a indiferença ou ignorância poderão consentir que [a Ditadura] regresse sob novas formas”.

Mário de Carvalho também referiu que “o medo é um dos temas centrais que percorre todo o livro”, frisando que “o medo que assoberbava a sociedade não era apenas o da PIDE”, manifestando-se “nos menores ensejos do quotidiano, em todos os aspectos do relacionamento social, impregnava o viver do dia-a-dia dos cidadãos”.

“Não obstante, não houve tirania que pudesse abafar todas as pequenas alegrias do quotidiano”, vincou.

O escritor assinalou o “efeito de reconhecimento ou de identificação que este livro, em muitos passos, suscita em nós” e o estilo de Helena Pato, “feito de clareza, flueza e limpidez”.

Após realçar inúmeros passos na obra, que o marcaram especialmente, Mário de Carvalho afirmou estar consciente de “não conseguir transmitir toda a riqueza, o colorido, a exuberância da maneira de contar de Helena Pato”.

“Uma vida plena, rica, empolgante, em que apesar de todos os sobressaltos, riscos, sofrimentos e combates, nada conseguirá apagar, nas palavras da autora 'a refrescante lembrança dos dias em que, apesar de tudo isso, fomos incomensuravelmente felizes'”, rematou.

 

Sobre o/a autor(a)

Socióloga do Trabalho, especialista em Direito do trabalho
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