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Portugal enfrenta nova “fase de imensa pressão” no SNS

Esta quarta-feira foram registadas mais 10.027 infeções, o maior valor diário desde o início da pandemia. A pressão exercida sobre os hospitais públicos faz-se sentir um pouco por todo o país, onde continuam a faltar camas e profissionais. Ministra alerta que nos esperam “dias muito duros”.
Foto: Alejandra De Lucca V./Minsal/Fotos Públicas.

Os dados da Direção-Geral da Saúde, que apontam para mais de 10 mil novas infeções, levaram a ministra da Saúde a dar indicações à Administração Regional de Lisboa e Vale do Tejo para suspender toda a atividade não urgente nos hospitais da região. Marta Temido referiu que Portugal enfrenta nova “fase de imensa pressão” no SNS e advertiu que nos esperam “dias muito duros”.

O jornal Público traça um retrato da pressão sentida em vários hospitais. No Santa Maria, em Lisboa, registou-se, na segunda-feira, o terceiro dia com mais episódios de urgência desde março. Já no Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, onde a pressão é “muito intensa há algum tempo”, os doentes com covid-19 “ocupam neste momento um quarto ou mais da capacidade do hospital”. São 106 os doentes internados com covid-19, dos quais 16 em unidades de cuidados intensivos. No Amadora-Sintra, a taxa de ocupação ao nível dos internamentos é de cerca de 95%, com 117 pacientes com covid-19 internados em enfermaria e 16 em unidade de cuidados intensivos.

No Centro Hospitalar de Leiria (CHL) só estão disponíveis sete das 120 camas para doentes com covid-19. Esta unidade de saúde admite suspender a atividade cirúrgica e médica programada e não urgente. Já o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) teve de aumentar o número de camas disponíveis. O CHUC conta com uma capacidade de 180 camas para covid-19, 170 das quais estão ocupadas. Existem 47 doentes em estado crítico em cuidados intensivos e apenas seis camas vagas neste serviço. O Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP) alerta que o Hospital dos Covões, que integra o CHUC, está “em rutura e sem condições de trabalho e segurança”. Segundo a estrutura sindical, cerca de 30 doentes com covid-19 necessitam “de ser internados sem que para tal haja lugar”.

Quanto aos hospitais do Norte, o Público adianta que a ocupação das camas dedicadas à covid-19 era na segunda-feira de 78,3% nos cuidados intensivos. O jornal diário evoca os dados da Administração Regional de Saúde do Norte (ARS-Norte): à data, estavam internados em cuidados intensivos na região Norte 213 doentes com covid-19. Destes, 137 estavam ventilados. Existem 1.175 camas afetas a doentes covid-19 nos hospitais da região e estavam internados na segunda-feira 852 doentes em enfermaria, o que equivalente a uma taxa de ocupação de 72,5%.

A Sic Notícias refere que o hospital de Viseu está perto de atingir o limite máximo da resposta aos casos covid-19 registados na região. Este estabelecimento de saúde já teve de abrir uma quinta enfermaria e algumas cirurgias não urgentes estão a ser canceladas. Em menos de uma semana, o número de internados praticamente duplicou, existindo 10 pessoas em cuidados intensivos e 115 internadas em enfermarias.

Imagens captadas por utentes do Hospital da Guarda, reproduzidas pela RTP, mostram um amontoado de doentes nas urgências. Adelaide Campos, diretora da Urgência do Hospital da Guarda, admite que os profissionais estão no seu limite, existindo “uma sobrecarga muito grande”.

Em declarações à Renascença, o presidente da Federação dos Bombeiros do distrito de Évora alerta para o risco de colapso na resposta aos doentes com covid-19. Inácio Esperança assinala que há doentes infetados que são transportados de lares e ficam horas à espera de ser atendidos dentro das ambulâncias. “Os bombeiros estão exaustos, estão com problemas, temos quartéis de bombeiros fechados, os médicos no hospital de Évora estão exaustos e o hospital não tem capacidade para receber mais gente”, revela.

Em declarações ao Expresso, Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública (ANMSP), afirma que “dez mil novos casos de infeção implicam a realização do mesmo número de inquéritos epidemiológicos, mas não temos meios para os fazer em tempo útil”.

“Há inquéritos em atraso há vários dias e na região Norte chegámos a ter 20 mil inquéritos pendentes. A pressão sobre os centros de saúde será enorme”, alerta. “Se mantivermos este nível de incidência”, acrescenta, “rapidamente haverá um colapso, no sentido em que não será possível dar resposta a todas as solicitações”. “Se não conseguirmos colocar as pessoas em isolamento profilático, teremos dificuldade em interromper as cadeias de transmissão do vírus”, reforça.

Ricardo Mexia defende que é preciso “reforçar as unidades de saúde pública”. “Não vamos lá com remendos, com profissionais a deslocarem-se a estas unidades para fazer um par de horas e com anúncios de contratação que depois não se materializam”, aponta. O presidente da ANMSP recorda que há unidades “que não têm um único médico de saúde pública”. “Os cerca de 350 médicos de saúde pública que temos no terreno não chegam para as necessidades”, relata, avançando que o número de enfermeiros e assistentes técnicos também não é suficiente.

"Contrate-se onde há a contratar; requisite-se onde é preciso requisitar"

No debate da renovação do estado de emergência, o deputado Moisés Ferreira desafiou o governo a não ficar “pela metade” nas respostas que se exigem na defesa do SNS.

Moisés sublinhou que, "como era provável e expectável desde o início de dezembro, teremos em janeiro um aumento muito significativo de novos casos de Covid, sendo que o ponto de partida agora é muito diferente e muito mais complicado: a capacidade de internamento já estava muito pressionada e sofrerá agora uma pressão adicional".

"Não se pode andar a correr atrás do prejuízo", frisou. "Ou seja, o aumento da capacidade de resposta do SNS e o aumento da capacidade de internamento deveria já ter sido preparado. Como não foi, tem de ser feito já, de imediato", defendeu o deputado.

"Contrate-se onde há a contratar; requisite-se onde é preciso requisitar", realçou Moisés Ferreira.

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