Porque é que o 12 de Março não fez o seu 5 de Junho?

14 de julho 2011 - 14:14

Contributo de Manuel Afonso

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Durante os debates que precederam a última Convenção, camaradas de todas as regiões e sensibilidades procuraram, e bem, debater o 12 de Março (12/3). Era um fenómeno novo e havia que fazer um esforço para entendê-lo. Tanto mais que o Bloco, apesar da maioria dos seus aderentes não o saber, estava fortemente inserido na ténue mas importante estrutura deste movimento e a influenciou de forma determinante. Porém, como no resto das temáticas da Convenção, foram preferidas abordagens superficiais a um entendimento profundo do fenómeno. Tudo se resumiu a um raciocínio: “estiveram 300 mil pessoas na rua, como lhes vamos sacar votos?”. O camarada Francisco Louçã pensou que podia tratar disso com o apelo que lançou: “Se gostaste do 12 de Março, faz o teu 5 de Junho!”. O soundbyte, versão moderna do “traz a luta até ao voto” do PCP, foi uma epifania para os convertidos, mas não teve eco fora das quatro paredes da Convenção. Provavelmente o “povo do 12 de Março” nem ouviu a expressão, mas caso ouvisse apenas ficaria mais “indignado”. Tentar enfiar nas urnas a multidão que coloriu as ruas em Março é passar ao lado da mobilização mais importante dos últimos anos. Apenas quem só vê o mundo distorcido pelas janelas do parlamento poderia ter tal abordagem!

Depois da euforia veio o descrédito. Foram menos os votantes no Bloco a 5 de Junho que os manifestantes nas ruas no 12/3. E foi assim a vez de os dirigentes bloquistas – para dentro, que para fora fica mal – ficarem indignados com o movimento. Uma vez percebido que aquele mar de gente não “vira a luz” e não ia votar massivamente em nós, preferiu dar-se a entender que fora um movimento com”laivos de populismo”, “contaminado pela extrema direita” ou que punha em causa a democracia! Resumindo, e citando uma camarada, “o 12 de Março foi zero!”.

Tamanho sectarismo, de quem hostiliza tudo o que não reverte em votos, só nos enterrará ainda mais. Mas de facto é importante entender como é que um partido que vinha crescendo entre os jovens e que se orgulha de ter trazido o debate da precariedade para a praça pública, não capitalizou pelo menos parte do descontentamento que partiu de uma iniciativa de jovens que, entre outras coisas, visava combater a precariedade.

Estão também indignados connosco?

Não convém simplificar. O 12/3 foi uma síntese complexa dos descontentamentos de muitos sectores. Estava lá a precariedade e o desemprego, assim como o aumento dos preços, a destruição da saúde e da educação, tal com a asfixia das PME’s. Estava também lá a indignação com os partidos que impuseram essa política. E também com o sistema de que vivem esses partidos: a democracia nascida não do 25 de Abril mas do 25 de Novembro. Como o povo não é puro e “politizado” e a consciência colectiva é mais complexa que uma cruzinha num boletim de quatro em quatro anos, na onda do 12/3 surfou também o discurso “anti-partidos”, a tendência natural a “pôr tudo no mesmo saco”. Mas somos obrigados a perguntar: foi o 12/3 que pôs tudo no mesmo saco, ou tem sido o BE a pôr-se consecutiva e exclusivamente no saco do sistema actual, dos jogos políticos ao lado de Sócrates, da vida parlamentar, de quem vê os interesses dos trabalhadores à luz dos interesses do partido? Será que estar ao lado do PS nas corridas para a maior câmara do país e para o mais alto posto da hierarquia do Estado não nos puseram “no mesmo saco”? Será que formar um partido que vive para a actividade parlamentar, movido por funcionários e dependente financeiramente do jogo eleitoral não nos põe “no mesmo saco”? Será que a política de criar e dirigir a partir das sedes “movimentos sociais” que são só para bloquistas e amigos, como o MEP ou o PI, não nos põe no “mesmo saco”? O epíteto “partido-movimento” há muito que não encaixa no BE e estamos a pagar por isso.

É verdade que o anti-partidarismo que reina é um obstáculo e baseia-se em preconceitos errados. É verdade que os principais culpados por estes preconceitos são os partidos do centrão. Mas é também verdade que o Bloco tem responsabilidades. A institucionalização do BE é evidente e fez com que o Bloco, partido melhor colocado para convergir com o 12/3, fosse atropelado pelo movimento.

Vítimas de nós próprios

Muito se falou também de como o clima de inevitabilidade prejudicou o BE. A Comissão Política assume ter sobrestimado a resistência popular. Há uma ponta de verdade nestas constatações. Mas há que ver que o Bloco não é um pequeno partido que em nada influi a realidade. Se a resistência popular ficou aquém do necessário é culpa do PCP e da CGTP, que não deram seguimento à Greve Geral e hostilizaram desde o início o 12/3, mas também do Bloco que não quis que este tivesse continuado.

Pelo seu posicionamento nos movimentos de precários vários camaradas ligados à direcção do Bloco, um deles agora estreante na Comissão Política, cedo tomaram parte nas decisões de quem liderava a “Geração à Rasca”(GaR). E aí, logo uma semana depois do 12/3, quando se reuniram os vários promotores nacionais e locais e representantes das cidades onde a GaR começava já a formar núcleos, os camaradas defenderam que este movimento não devia continuar, que não devia haver novas mobilizações em breve, que não se deviam criar assembleias populares da GaR que se coordenassem nacionalmente. Defenderam, apenas, puxando a brasa à sua sardinha, que dado que já havia os Precários Inflexíveis e o FERVE era para aí que os activistas se deviam dirigir. Os camaradas preferiram assim a sua Betesga ao povo do Rossio. A única coisa que propuseram foi a de uma iniciativa legislativa popular, que está agora parada - mais uma vez a obsessão em canalizar a rua para o parlamento.

Mais tarde, para cúmulo, quando irrompeu no Rossio uma “Acampada” influenciada pela Plaza Del Sol, que votou por unanimidade fazer uma manifestação contra o FMI, os camaradas ligados à maioria tentaram desmobilizar essa “Manif”, utilizando até, para criar confusão e desconfiança, os preconceitos anti-partidos. É verdade que o preconceito anti-partidos prejudicou o Bloco, assim como a acalmia da resistência popular. Porém esses factores não caíram do céu, foram construídos pelos diversos sujeitos políticos nacionais, entre os quais o Bloco.

Um sujeito Político para o 12 de Março

Para quem olhar com olhos de ver, é evidente que o 12/3 teve uma matriz de esquerda. Tentar colá-lo à extrema-direita é um exercício de cegueira política, que repete apostrioria política do PCP. E é trágico que esse movimento não encontre voz à esquerda. Essa omissão ajudou também a vitória das direitas. O Bloco sozinho não vai ser essa voz, assim como não vai ser o Bloco alegremente agremiado ao PS. É preciso um outro campo à esquerda que englobe o PCP e vá mais além. Que integre os movimentos e promova internamente a “Democracia Real”. Que esteja nas lutas e também nas eleições, que denuncie o governo e que queira ir além deste regime. Que mostre que os partidos não são todos iguais e que à esquerda há quem prefira a unidade à luta pelo seu quinhão de votos. O Bloco deve dar esse sinal, virar-se para a esquerda e para a rua. Aliar-se a quem está à esquerda da troika interna para construir algo maior, que dê voz aos que estão “à rasca” e indignados, que querem uma “Democracia Real” e não esta que tem sido o alfa e o ómega da política do Bloco.

Manuel Afonso, militante n.º 4752