Livro

“Pessoas Decentes” e a Cuba em transe de Padura

26 de outubro 2024 - 10:37

Numa Havana em transformação, passado e presente entrelaçam-se num intrigante romance policial. Na obra do aclamado autor cubano, a investigação de um assassinato provoca reflexões acerca das cicatrizes deixadas pela história.

por

Raíssa Araújo Pacheco

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Padura
Padura. Foto de Yumi Kajiki/Blog da Boitempo.

Cuba, março de 2016, o casal Obama acaba de aterrar em Havana, na presença de Raúl Castro. É a primeira vez, em 88 anos, que o presidente dos Estados Unidos faz uma viagem oficial à ilha.

Para adensar a sequência de eventos históricos, o show dos Rolling Stones no mesmo também fez a população cubana vibrar.

Esse é o pano de fundo de Pessoas Decentes, romance policial do aclamado escritor cubano Leonardo Padura, lançado no Brasil pela Boitempo Editorial.

A obra destaca-se com um enredo que entrelaça passado e presente, revelando a complexidade da vida cubana, além de explorar questões profundas de poder, corrupção e as cicatrizes deixadas pela história.

A trama junta-se à série de livros do detetive Mario Conde, agora com 62 anos, como revela o autor em entrevista ao Outras Palavras.

“com este processo temporal, [Conde] tornou-se mais cético, mais irónico, mais desencantado, mais pessimista. Mas tudo isso estava em gestação desde que o esbocei pela primeira vez. A grande mudança foi deixar de ser polícia, mas agora continua a fazer investigações policiais e sempre, antes e agora, dando um diagnóstico da realidade cubana.”

Há duas narrativas a acontecer ao mesmo tempo. A principal gira em torno do assassinato de Reynaldo Quevedo, um político de destaque e símbolo de uma era marcada por abusos de poder.

Com a cidade agitada pela visita do presidente americano, o detetive aposentado Mario Conde é convocado a investigar o crime. À medida que se aprofunda na trama, Conde desvenda uma teia de segredos que expõe as contradições da sociedade cubana, refletindo a luta contínua por dignidade e justiça.

Paralelamente, o detetive pesquisa e escreve sobre a vida de Alberto Yarini, um chulo emblemático da época da Havana de 1910. No entanto, na estrutura do livro, esse passado e o presente de Conde é intercalado entre capítulos, conduzindo o leitor numa espécie de viagem no tempo.

O que aprofunda e interliga ambas as narrativas é o facto de que a história de Yarini não é apenas um retrato do passado, mas um espelho que reflete os dilemas e desafios enfrentados pela Cuba contemporânea.

Através dessa dualidade temporal, Padura habilmente mostra como os problemas sociais se perpetuam, tecendo um laço entre a história e a realidade atual.

Pessoas Decentes é uma narrativa empolgante e profunda, com personagens complexos e ricos. Nela, Padura se consolida como uma voz essencial da literatura latino-americana, trazendo à tona questões que reverberam na vida dos cubanos.

O livro é um convite a mergulhar em um universo vibrante, onde a investigação de um crime se torna um meio de explorar a essência de uma sociedade em constante transformação.


Raíssa Araújo Pacheco é redatora do Outros Quinhentos. Formada em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Foi assessora de movimentos sociais e entidades envolvidas na luta pela habitação e direito à cidade.

Texto publicado originalmente no Outras Palavras. Editado para português de Portugal pelo Esquerda.net