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Pessimismo da razão, otimismo da vontade

A “dialética espetacular do trabalho” – que é, ao mesmo tempo, fator de alienação e de sociabilidade – é, no século XXI, tal como nos séculos anteriores, a chave com a qual iremos abrir as portas de um novo mundo. Por Tomás Nery
"Trabalho não pago sustenta o capital", manifestação do 1º de Maio de 2022, Lisboa - Foto de Ana Mendes
"Trabalho não pago sustenta o capital", manifestação do 1º de Maio de 2022, Lisboa - Foto de Ana Mendes

Dizia Antonio Gramsci, reutilizando a expressão de Romain Rolland, que a “conceção socialista do processo revolucionário se caracteriza por duas notas fundamentais”, a saber: o “Pessimismo da Razão” e o “Otimismo da Vontade.”

Nos tempos que correm, numa fase em que a resistência Ucraniana serve de sustento politico e ideológico às teses daqueles que, ambicionando recuperar a sua hegemonia através da NATO, aproveitam para aprofundar o reinado de terror social a que o neoliberalismo tem condenado os nossos povos, o “Pessimismo da Razão” – isto é, a perceção preocupante do desenvolvimento da realidade – deve-nos convidar a reforçar a análise objetiva do mundo que se desenrola perante os nossos olhos, com especial enfoque nas estratégias que a Esquerda tem vindo a adotar no espaço politico e social, a nível internacional.

Ao longo da história, o movimento operário e socialista forjou a sua matriz identitária em torno da “mais-valia”, ou seja, em torno do “trabalho não pago” – que constitui a parcela de trabalho realizado pelo trabalhador que, ao invés de ir parar à carteira de quem produz, vai parar ao bolso do patrão. Este conceito, transformado em fator unitário pelas diversas esquerdas, deve continuar a nortear a nossa ação politica, apesar das mutações que a sociedade tem vindo a sofrer nas últimas décadas.

Com isto em mente, afirmo que o eterno medo da exclusão, o sofrimento psíquico, as alterações climáticas, o conservadorismo sexista e homofóbico, o racismo, ou o crescimento das direitas radicais devem ser combatidos, partindo do entendimento de que as diversas opressões não resultam:

1- De fenómenos momentâneos de opressão, mas de um desenvolvimento histórico intermitente que, ao acompanhar a evolução do sistema económico que lhe dá corpo e forma, reproduz e transforma as relações de poder que se desenvolvem no seu seio.

2- Da interação simultânea de diversos sistemas autónomos de opressão, mas da ação concentrada de um sistema económico que, ao lutar pela sobrevivência e, posteriormente, pela hegemonia, necessitou de dominar as demais esferas de existência coletiva: social, cultural e política.

Dito isto, e regressando ao início, impera – como forma de materializar o “Otimismo da Vontade” – reforçar a centralidade da “mais-valia” e, portanto, da luta laboral, na nossa ação politica para que, como nos aconselha o sociólogo Ricardo Antunes, possamos “construir um novo modo de vida, a partir de um novo mundo do trabalho”.

A construção de novas maiorias sociais, capazes de combater os fenómenos que impõem ao nosso povo uma existência cada vez mais angustiante, em que o direito ao futuro é espezinhado pela instabilidade do presente, passa por aqui. Na Galiza, onde o Bloco Nacionalista Galego (BNG) tem vindo a mobilizar cada vez mais apoio popular, a “Galiza Nova”, representando a Juventude do BNG, apresenta como principal proposta para combater o sofrimento psíquico – reflexo da hegemonia com que o neoliberalismo tem vindo a infiltrar as nossas instituições públicas –, a transformação radical do código laboral vigente. Em França, onde a candidatura de Jean-Luc Mélenchon representou um susto redentor para as elites Francesas, os 3 pilares principais da sua campanha foram os salários, a Segurança Social e a idade da Reforma – conciliando, desta forma, uma política de valorização das condições materiais do presente, ao mesmo tempo que oferece aos seus eleitores soluções para um futuro menos incerto. No Chile, onde a esquerda progressista, representada por Gabriel Boric, chegou ao poder, foram as enormes mobilizações populares, centradas no direito a imaginar e a construir uma sociedade de novo tipo, que fortaleceram o seu resultado eleitoral.

Em suma, podemos concluir que a esquerda radical fortalece a sua implantação social, e reforça a sua importância na luta pela emancipação politica e humana quando, ao invés de procurar polarizações estéreis e acríticas com uma direita cada vez mais radicalizada, opta pela disputa da reinvenção do mundo do trabalho, como estratégia unitária das mais diversas formas de opressão. A “dialética espetacular do trabalho” – que é, ao mesmo tempo, fator de alienação e de sociabilidade – é, no século XXI, tal como nos séculos anteriores, a chave com a qual iremos abrir as portas de um novo mundo.

Face ao atual cenário urge, com especial relevância, conquistar o direito ao futuro, partindo da opressão geral que, coletivamente, nos afeta a todos por igual, para as opressões particulares que, individualmente, nos impedem de ser verdadeiramente livres. Saibamos fazê-lo, refletindo sobre o que nos trouxe até aqui, com a consciência da mudança que se precipita perante nós, e chegaremos à conclusão de que, como nos lembrou o companheiro José Mário Branco, “os passos para trás não são um retrocesso”.

Artigo de Tomás Nery, ativista Estudantil

Sobre o/a autor(a)

Estudante de graduação em Biologia na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e ativista
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