A investigação sobre os casos de esterilização forçada com características de eliminação da população pobre foi reaberta e comunicada à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, em Washington. A novidade é que o inquérito agora indica o financiamento norte-americano da política do ditador Alberto Fujimori.
O programa de controlo populacional esterilizou cerca de 300 mil mulheres. Duas mil dizem ter sido enganadas, ou forçadas, a submeterem-se às cirurgias. Desde o fim da ditadura essas mulheres lutam por indemnizações. E movem uma ação judicial contra Fujimori desde 2002. Mas sem avanços.
O governo Ollanta Humala vinha a ser pressionado pelo movimento de mulheres há pelo menos um ano. O processo eleitoral contra Keiko Fujimori (filha do ex-ditador) em 2011, acabou por forçar Humala a posicionar-se sobre o assunto e garantir a eleição.
O inquérito entregue à Comissão de Direitos Humanos, ligada à ONU (Organização das Nações Unidas), tem mais de 14 mil folhas e 23 volumes.
Além de responsabilizar Fujimori por mais esse crime a reabertura da investigação serve para discutir a participação e intervenção dos EUA nas ditaduras na América Latina. Nesse caso, com o envio de dinheiro para financiar a ditadura.
Política imperialista de dominação
O governo republicano de George H. W. Bush pai iniciou o financiamento da ditadura de Fujimori (1990-2000). As transferências somam o equivalente a 140 milhões de euros. O democrata Bill Clinton deu continuidade a essa política.
Segundo o inquérito, a própria ONU apoiou essa política. E agora terá de retomar as investigações através da Comissão de Direitos Humanos.
A política de esterilização é ainda hoje justificada pela direita e a ONU apoiou essa política através do Fundo para a População que teria como objetivo "reduzir a pobreza e promover os direitos das mulheres e de minorias".
O financiamento foi cortado apenas em 1999, no segundo mandato de Clinton, quando o Congresso norte-americano cancelou a transferência.
Ainda nos anos 80 as mulheres peruanas foram vítimas de grandes violências, durante as disputas políticas que tomavam conta do Peru. A violência sexual e a esterilização forçada começaram antes da ditadura, como política de aterrorizar a população e imobilizar as mulheres. Era parte do plano de eliminar a população pobre e indígena.
Essa política foi organizada e tomou proporção de política de Estado a partir dos anos 90 com a ditadura. O programa, que, segundo as investigações, era acompanhado pessoalmente por Fujimori, esterilizou, por laqueação de trompas, "314.605 mulheres com idade entre 15 e 49 anos, na maioria pobres e analfabetas, indígenas residentes em áreas remotas da selva amazónica. É o que indicam documentos do Plano Populacional, iniciado em meados de 1990. Nessa época, as mulheres em idade fértil representavam 41% da população rural peruana e eram comuns as famílias com mais de cinco filhos" (O Globo, 1 de dezembro, 2012).
O caso é considerado crime contra a humanidade. Por décadas hospitais e ambulatórios públicos tiveram metas mensais de esterilização feminina. Enquanto médicos recebiam melhores salários por esse tipo de serviço e estudantes de medicina ganhavam pontos para realizar cadastros e cirurgias. Muitas mulheres nem sequer sabiam que o seu útero estava a ser retirado, outras submetiam-se à laqueação de trompas em troca de alimentos.
Segundo os dados oficiais, pelo menos 18 mulheres morreram devido às cirurgias.
Até hoje nenhuma medida de indemnização foi tomada em favor dessas mulheres. Muito menos qualquer tipo de sanção foi proposta aos EUA pelo seu envolvimento com as brutais ditaduras na América Latina, o assassinato, desaparecimento, tortura, eliminação da população pobre e, nesse caso, esterilização em massa de mulheres.
Artigo retirado do site PCO.