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A Pequena Depressão

As negociações de dívida, se derem certo, repetirão o grande erro de 1937: opção prematura por contração fiscal freará a recuperação.
Refugiados das inundações do Rio Ohio, Louisville – Fevereiro de 1937, Foto de Margaret Bourke-White para a revista “Life” – Disponibilizada por Cea/Flickr

Estes são tempos interessantes -no pior sentido. Estamos diante não de uma crise iminente, mas de duas, com riscos de desastre global. Nos EUA, fanáticos de direita no Congresso podem bloquear a elevação necessária do tecto da dívida. E, se o plano que acaba de ser acordado por chefes de Estado europeus não acalmar os mercados mundiais, poderemos ver dominós caindo em todo o sul da Europa. Potencialmente, as duas semeariam o caos.

Mesmo que consigamos evitar uma catástrofe imediata, é praticamente garantido que os acordos que estão a ser fechados de cada lado do Atlântico agravem a depressão.

Os responsáveis pelas decisões económicas parecem determinados a perpetuar algo que chamo de Pequena Depressão -o período prolongado de desemprego alto que começou com a Grande Recessão de 2007-2009 e continua até hoje.

A grande bolha imobiliária da década passada, fenómeno americano e europeu, foi acompanhada por um aumento enorme na dívida das famílias. Quando a bolha estourou, a construção imobiliária residencial caiu vertiginosamente, assim como os gastos dos consumidores.

Tudo ainda poderia ter dado certo se outros actores económicos importantes tivessem elevado gastos. Mas ninguém o fez. E os governos tampouco fazem muito para ajudar. Alguns foram, pelo contrário, obrigados a reduzir gastos em vista da queda das receitas. Os esforços modestos de governos fortes (incluindo o plano de estímulo de Obama) mal foram suficientes para contrabalançar essa austeridade forçada.

Portanto, estamos com economias enfraquecidas. O que os governantes propõem? Menos que nada.

Anteontem, os "chefes de Estado ou governo da área do euro" divulgaram o seu grande acordo. Não foi tranquilizador. É difícil acreditar que a engenharia financeira que o comunicado propõe resolva a crise grega, que dirá a europeia.

Mas, mesmo que resolva, o que vai acontecer a seguir? O comunicado prevê fortes reduções do défice "em todos os países excepto os que estão num programa", a acontecer "até 2013 no mais tardar".

Como os países "que estão num programa" estão a ser forçados a aderir à austeridade fiscal drástica, isso equivale a planear que toda a Europa reduza gastos ao mesmo tempo. E nada sugere que em menos de dois anos o sector privado estará preparado para tomar medidas para que a economia cresça.

Para quem conhece a história dos anos 30, soa muito familiar. Se alguma das duas negociações de dívida fracassar, é possível que estejamos perto de um replay de 1931, o colapso global dos bancos que fez a Grande Depressão ser tão grande.

Mas, se elas derem certo, estaremos prestes a repetir o grande erro de 1937: a opção prematura por contração fiscal que fez a recuperação descarrilar e garantiu que a Depressão continuasse até que a Segunda Guerra finalmente deu à economia o incentivo de que ela precisava.

Há um ditado antigo: "Você não sabe, meu filho, com quão pouca sabedoria o mundo é governado". As elites de ambos os lados do Atlântico mostram incompetência em sua resposta ao trauma económico, ignorando todas as lições da história.

Tradução de Clara Allain, texto publicado na “Folha de S. Paulo.

Sobre o/a autor(a)

Economista
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