Passado recente, presente e futuro do Bloco de Esquerda

27 de junho 2011 - 13:22

Contributo de Rosinda Beltrão

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Resultados eleitorais:

Não se podem analisar os resultados das eleições legislativas de 2011, sem comparar o contexto em que as mesmas ocorreram e o diferente contexto de idênticas eleições em 2009.

Em 2009, tínhamos um PSD desorganizado, com Manuela Ferreira Leite à frente do partido (figura não muito simpática para a maioria dos eleitores) e um PS a quem os mesmos eleitores sentiam que era urgente retirar a maioria, para que a arrogância de todo um governo assente na figura de José Sócrates, tivesse um ponto final.

Para os que ainda fazem jus em exercer o seu direito de voto, havia que optar por um outro partido que, embora não fosse governar, poderia ser o catalisador desses votos.

Quem melhor do que o Bloco de Esquerda para esse fim, estávamos em estado de graça!

Ora, isto foi enganador porque muitos bloquistas convenceram-se que a partir daí seria sempre a subir. Nada mais errado! 

Em 2011, com a entrada da troika em Portugal e depois da assinatura de um memorando que responsabilizou os três maiores partidos da cena política portuguesa PS-PSD-CDS, a cumprir não o programa de qualquer um deles, mas sim o programa imposto por essa mesma troika, o panorama mudou radicalmente.

Os eleitores fartos de um José Sócrates que lhes pintava quase que diariamente um país cor-de-rosa, quando para eles o desemprego ou a ameaça dele, a possibilidade do não pagamento do ordenado ou da pensão no final do mês, encheu-os de um medo sem paralelo, após o 25 de Abril.

Sondagens diárias em toda a comunicação social, dando um empate técnico entre PSD e PS, levou muitos a pensarem o que aconteceria se José Sócrates fosse de novo eleito.

E a vontade de mudar era tanta que levou muitos que votavam PS a votar PSD/CDS, que votavam BE a votar PSD/CDS, não percebendo que ao fazê-lo, estavam a votar numa mudança de regime de que muito se virão a arrepender.

Por outras razões, das quais mais à frente falarei, houve quem tivesse anteriormente votado BE e agora votou PAN ou não votou (abstenção ou voto em branco).

Por outro lado, nas referidas sondagens, o BE aparecia sempre como quinta força política, dias houve que já quase não tinha expressão...

RAZÕES das derrotas ou o curso natural das coisas :

1. Não vou discutir qual o candidato que deveríamos ter apoiado para Presidente da República, é uma discussão que já não conduz a nada, mas que serviu para nos dividir.

A comunicação social sempre muito atenta, dominada por grandes interesses, deixou de nos achar piada porque crescemos de mais e esteve em cima do acontecimento, dando ênfase a essas divergências.

Esta foi a primeira derrota do ano!

2. A célebre moção de censura, justíssima, mas num sábado não é o tempo, numa terça anuncia-se a sua apresentação com um mês de antecedência e numa quinta é contra toda a direita.

Não era para passar e fez com que durante um mês fossemos o bobo da corte, levámos pancada de todos, até dos nossos!

Os eleitores não têm recursos para grandes diversões e vêem muita televisão. Ouviram falar tanto mal do Bloco e durante tanto tempo que as mentiras repetidas n vezes, tornam-se verdades.

A moção foi chumbada e uma semana depois com o igual chumbo das medidas do PEC4, o Primeiro Ministro demitiu-se e são convocadas eleições antecipadas, numa conjuntura absolutamente desfavorável.

3. Reunião com a troika, fez-nos também perder alguns votos porque não soubemos avaliar a importância que os eleitores deram a esta reunião.

Concluiu-se que foi um erro, deveríamos ter lá ido expor as nossas ideias, dizer à comunicação social o que aqueles senhores queriam para o nosso país e pronto.

Alinhávamos na palhaçada (parece que muitos camaradas se sentiriam representados) e os eleitores também! Eu lamento, mas pertenço a uma pequena minoria, de vez em quando também convém ser minoria, mas prefiro a coerência das ideias e dos propósitos.

CAMPANHA ELEITORAL

Ao longo da campanha, o nosso discurso economicista e adequado ao momento, não foi entendido.

Expressões como "renegociação da dívida", "auditoria às contas públicas", saber qual a "divída pública e dívida privada", cansou!

As pessoas querem coisas simples e concretas...

Muitos camaradas, a nível nacional, empenharam-se deram o seu melhor nesta campanha.

O seu esforço, apesar da derrota comparativa, fez com que cerca de 300.000 eleitores votassem e confiassem no Bloco de Esquerda.

Os que por qualquer motivo não se sentiram motivados e não se empenharam tanto quanto seria necessário, fica para a próxima.

Há mais marés ...

PRESENTE E FUTURO

Estamos na fase do debate interno e do debate público.

A nível do debate interno, sei que é mais fácil querer diferente do que dizer como deverá ser a diferença, mas eu gostava de um debate diferente.

Quando penso que alguns camaradas que foram muito críticos nalgumas matérias e que nós os convidámos a virem ao debate connosco para em conjunto reflectirmos e depois se dá quatro minutos para se fazerem ouvir, há qualquer coisa de errado.

Acompanhei quase todas as críticas do Daniel Oliveira e achei que muito do que disse nos jornais e televisão, deveria dizer-nos a nós, aos seus camaradas. Mas depois damos-lhe quatro minutos?

Após os debates e chegados a conclusões, deveremos pensar no trabalho, na luta por aquilo que defendemos.

E há muito a fazer, nomeadamente a nível autárquico.

Não basta o excelente trabalho desenvolvido a nível do Parlamento, há que olharmos seriamente para o trabalho local.

É aí que tudo começa, na rua, no bairro, na freguesia, no concelho.

Esta não é uma ideia só minha, é também uma ideia de vários outros camaradas.

A outra luta vai acontecer normalmente com o que aí vem.

Percepciono que coisa boa não será...

E será essa luta decerto que vai fazer com que os bloquistas se unam em torno do que é importante e que originou este movimento, com todas as diferenças existentes no seu seio.

Será isso também o que distingue o Bloco de Esquerda de qualquer outro partido!

Quando os verdadeiros "inimigos" pensarem que estamos moribundos, demonstraremos que nunca estivemos tão vivos!

Contributo de Rosinda Beltrão

Queluz - Concelhia de Sintra