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“Parar guerra implica pôr fim ao apartheid e à ocupação ilegal da Palestina por Israel”

Perante a escalada de violência deste sábado, com centenas de mortes e milhares de feridos em Israel e, principalmente, na Faixa de Gaza, Marisa Matias afirmou que “as vítimas inocentes dos dois lados são o efeito da ocupação”.
Bombardeamento de Israel na faixa de Gaza depois de ataque do Hamas. Foto de MOHAMMED SABER, EPA/Lusa.

Na madrugada de sábado, 7 de outubro, o Hamas lançou mais de 2.000 mísseis da Faixa de Gaza em direção aos territórios israelitas na fronteira, no âmbito da operação “Tempestade Al-Aqsa”. Em comunicado, o grupo declarou que a ação constitui uma resposta à proposta de anexação de partes da Cisjordânia e dos ataques contra a Mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém.

O ataque apanhou Tel Aviv de surpresa, mas Israel prontamente declarou “estado de guerra”, lançando bombas sobre os territórios palestinianos, um ataque muito mais mortífero tendo em conta as enormes diferenças militares a favor dos israelitas, equipados com armas de ponta graças ao apoio dos Estados Unidos e outros poderes. Benjamin Netanyahu garantiu que o “inimigo pagará um preço que nunca conheceu”.

O “preço” da escalada de violência já se traduz em mais de 400 mortos e mais de 2000 feridos, na sua maioria palestinianos da Faixa de Gaza.

Dadas as primeiras notícias da operação lançada pelo Hamas a partir de Gaza e a declaração do “Estado de guerra” por Netanyahu, as potências europeias manifestaram-se para prestar o seu apoio incondicional ao Estado de Israel. “Condeno inequivocamente o ataque realizado pelos terroristas do Hamas contra Israel. É o terrorismo na sua forma mais desprezível. “Israel tem o direito de se defender de ataques tão atrozes”, afirmou a presidente da Comissão Europeia, Ursula Von Der Leyen.

O mesmo acontece com o Governo português, com o ministro João Gomes Cravinho a afirmar na rede social X que "Israel tem o direito de se defender".

"Estes ataques nada resolverão, contribuindo apenas para piorar a situação na região. Estamos solidários com Israel e oferecemos condolências pelas vítimas", escreve o governante. 

Os Estados Unidos também expressaram o seu “compromisso inabalável” com o direito de Israel “de se defender”, e comprometeram-se a garantir a Israel os meios para o fazer. “O nosso compromisso com o direito de Israel de se defender permanece inabalável”, disse o secretário de Defesa, Lloyd Austin.

Vítimas inocentes dos dois lados são o efeito da ocupação”

Na sua conta de X, antigo Twitter, a eurodeputada bloquista escreve que “as vítimas inocentes dos dois lados são o efeito da ocupação”.

“Parar a guerra implica pôr fim ao apartheid e à ocupação ilegal da Palestina por Israel. Aos palestinianos devemos o respeito do direito à autodeterminação como na Ucrânia ou em Timor, ou não haverá solução para a paz”, destaca a eurodeputada bloquista.

Num momento em que os “palestinianos estão subitamente no topo das manchetes internacionais”, outras personalidades, como Tariq Ali, denunciam que “o isolamento internacional do povo palestiniano parece destinado a aumentar”.

Perante os ataques vis das forças israelitas, que “atacaram e mataram palestinianos à vontade”, e dos esforços de sucessivos governos de Tel Aviv “para sabotar qualquer esperança de criação de um Estado” palestiniano, os líderes ocidentais “deixaram tudo isto desenrolar-se sem murmurar”, refere Tariq Ali.

O escritor paquistanês e ativista revolucionário defende que os palestinianos têm o direito de resistir à “agressão ininterrupta a que estão sujeitos”, sublinhando que “não há equivalência moral, política ou militar no que diz respeito aos dois lados”.

“Israel é um Estado nuclear, armado até aos dentes pelos EUA. A sua existência não está ameaçada. São os palestinianos, as suas terras, as suas vidas que são. A civilização ocidental parece disposta a ficar de braços cruzados enquanto são exterminados. Eles, por outro lado, levantam-se contra os colonizadores”, lê-se no artigo publicado na New Left Review este sábado.

2023 foi o ano mais sangrento para os palestinianos desde a segunda Intifada

O ano de 2023 foi o mais sangrento para os palestinianos desde a segunda Intifada, em 2000. Os números são esclarecedores: 204 palestinos foram assassinados, incluindo 37 menores, em incursões militares israelitas em campos de refugiados em várias cidades da Cisjordânia, em ataques de colonos judeus a aldeias palestinianas naquela área ocupada, e também nos ataques e bombardeamentos israelitas na Faixa de Gaza.

Benjamin Netanyahu tem endossado os ataques contra a população palestina e árabe em geral, para favorecer os setores de extrema direita que o apoiam. Há apenas 10 dias, no 23º aniversário da intifada palestiniana, Israel bombardeou vários postos de vigilância e outras instalações palestinianas na Faixa de Gaza, no limite da fronteira, com drones, helicópteros e tanques. Os ataques e abusos do Exército e do Governo de extrema-direita não se limitam a bombardear os palestinos com mísseis ou a espancá-los e detê-los violentamente, mas abrangem uma ampla gama de crimes, que incluem a perseguição, humilhação e maltratos a idosos ou crianças, a destruição de plantações e contaminação de poços de água, entre muitos outros.

Sem que isso implique a defesa do grupo Hamas, que procura estabelecer um Estado teocrático, a partilha da sua estratégia e métodos, vários intelectuais de origem judaica como Ilan Pappé têm vindo a denunciar os crimes do Estado de Israel contra o povo palestiniano e a defender o direito à autodeterminação da Palestina.

Há apenas dois meses, um grupo de mais de 700 intelectuais e académicos israelitas e palestinianos assinou uma declaração conjunta denunciando o avanço do governo de Netanyahu e a sua reforma judicial.

No texto, apontam Israel como um estado de apartheid contra a população palestiniana e dizem que “o objetivo final da reforma judicial é reforçar as restrições a Gaza, privar os palestinianos de direitos iguais, tanto fora como dentro da Linha Verde, anexar mais terras e etnicamente limpar todos os territórios governados por Israel da sua população palestina”.

Mas as potências europeias e os Estados Unidos continuam a apoiar a ofensiva contra a população palestiniana.

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