Padre Lino Maia: A austeridade “está a gerar um ciclo de pobreza”

17 de abril 2013 - 1:26

O presidente da Confederação Nacional das Instituições Particulares de Solidariedade Social (CNIS) afirmou esta terça feira que as ameaças ao Estado Social são “brechas na luta contra a pobreza e que “o processo em curso é de empobrecimento coletivo, de agravamento da pobreza dos que já eram pobres e de criação de novos pobres”.

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Foto de Paulete Matos.

“O crescimento do desemprego, a insuficiência de rendimentos, o envelhecimento da população, a não fixação das populações no interior, a crise nos subúrbios urbanos, o ressurgimento do fenómeno dos sem-abrigo caracteriza a realidade dos nossos dias”, adiantou o padre Lino Maia durante a sua intervenção no seminário “A Pobreza e os Direitos Humanos”, organizado pela Plataforma Portuguesa das Organizações Não Governamentais para o Desenvolvimento, que teve lugar esta terça feira em Lisboa.

“O processo em curso é de empobrecimento coletivo, de agravamento da pobreza dos que já eram pobres e de criação novos pobres”, alertou o presidente da CNIS, frisando que há “quase uma doentia tentação de pensar que a austeridade resolve tudo”, mas, “de facto, está a gerar um ciclo de pobreza”.

“É importante inverter um bocado o discurso e a prática. Temos de abandonar a ideia de gastos para empreendimentos megalómanos, para aquilo que salta às vistas, e começar a investir nas pessoas, que são o mais importante”, defendeu.

“Se a educação não for gratuita começa logo a exclusão no berço e é impossível depois inverter o ciclo”, alertou, salientando ainda a necessidade de apostar no combate ao “grande drama” do desemprego.

“Penso que é aqui que não estamos a fazer tudo por tudo e julgo que há áreas em que se poderia investir sem grandes custos”, como por exemplo no desenvolvimento local e nos serviços de proximidade, ocupando equipamentos devolutos e diversificando serviços, referiu o padre Lino Maia, sustentando que “poderíamos estar aqui a criar muitos postos de trabalho sem grandes custos e com muitos benefícios”.

Para o representante da CNIS, “a erradicação da pobreza tem de ser a prioridade das prioridades, assumida como um desígnio nacional”. “É tempo de passar do tema da pobreza para uma estratégia e uma prática efetiva de luta contra a pobreza, contra as suas causas, as suas expressões, os seus efeitos e os seus legados”, defendeu.

Também o diretor da revista do Centro de Apoio e Inclusão de Sem-Abrigo (CAIS, associação de solidariedade social sem fins lucrativos), Henrique Pinto, advogou que “a pobreza não conduz à violação de direitos humanos, mas sim viola-os”, insistindo na proposta de “abolir a pobreza e ilegalizá-la”.

“É no Estado Social que se deve trabalhar, antes de mais”, adiantou, salientando que é necessário recuperar o “imperativo da cooperação que conduz à fraternidade e não ao negócio da pobreza”, por contraponto à atual “esmola burguesa”, de “sobras” e “branqueadora de todo o tipo de crimes”.

Já Manuel Lapão, diretor para a Cooperação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), lamentou a “institucionalização do negócio da pobreza” e realçou que “a pobreza é uma limitação da liberdade”.

A mesma opinião foi partilhada por Victor Nogueira, presidente da Amnistia Internacional, que voltou a defender que a pobreza é cerceadora da liberdade e viola os direitos humanos.