Está aqui

Outra maré cheia virá da maré vaza: da vingança do capital à contraofensiva popular

A estratégia da submissão a Bruxelas e Berlim e a resignação só levam a tristes, pesadas e humilhantes derrotas históricas, das quais demoraremos anos a levantar-nos e que tanto prejudicaram o avançar da luta à escala europeia. Artigo de Rafael Boulair.
A recusa de Trump e Bolsonaro, em aceitar a própria realidade, revela o perigo incalculável de se entregarem países a fascistas em processos eleitorais - Foto de  Bolsonaro de Carolina Antunes/Agência Brasil
A recusa de Trump e Bolsonaro, em aceitar a própria realidade, revela o perigo incalculável de se entregarem países a fascistas em processos eleitorais - Foto de Bolsonaro de Carolina Antunes/Agência Brasil

Mais de uma década volvida sobre a ainda traumática crise do capitalismo de 2007/2008, cujas proporções são somente comparáveis ao crash de 1929, o mundo vê-se submergido por um novo abalo económico-financeiro, desta vez acompanhado por uma pandemia tão terrível como inesperada. As consequências não se fizeram esperar. Já se observa a destruição social e de emprego, as deslocalizações e falências, os despedimentos e abusos laborais de todo o tipo, tendendo a situação a piorar nos próximos meses. A resposta da União Europeia peca por fraca, pouco coordenada e tardia, mas a recusa de Trump e Bolsonaro, em aceitar a própria realidade, revela o perigo incalculável de se entregarem países a fascistas em processos eleitorais como os de 2016 e 2018, respetivamente.

O que observamos nos quatro cantos do mundo é um capitalismo em crise permanente e decadência acelerada, mas que ainda sobrevive e resiste. Já o tinha notado Marx, o capitalismo recupera de cada crise aumentando a exploração sobre o trabalho e o planeta, não recuando perante nenhum crime. Ora, a burguesia realmente existente não hesita nem hesitará em apertar novamente o cinto à classe trabalhadora, ainda que esprema sangue de uma pedra, para utilizar uma metáfora criada por Varoufakis numa referência à tragédia da austeridade na Grécia.

Num contexto em que a luta de classes não conhece quarentena, ainda que os media e a propaganda hegemónica nos tentem vender que esta já não existe, urge repensar e ponderar o estado das forças do nosso campo a nível internacional. O propósito é o de esboçar o início de uma contraofensiva popular que combata implacavelmente a terapia de choque que a direita política tem aplicado durante décadas a fio, tirando partido da enorme desorganização e fragmentação do campo do trabalho, da falta de consciência de classe e da tibieza das respostas dos sindicatos e dos restantes movimentos sociais.

A União Soviética, com todas as suas contradições, permitiu não apenas impor uma derrota definitiva ao nazi-fascismo em 1945 como garantiu décadas de alargamento de direitos e de construção do Estado Social no ocidente europeu. No entanto, a reorganização do capital, a ofensiva Thatcherista, o tournant de la rigueur de Mitterrand em 1983, a queda da URSS nas mãos de Gorbatchov e já moída pela Perestroika deram espaço à direita para inverter as políticas e o modelo económico, fazer inversão de marcha e adotar o modelo neoliberal-de privatizações, desregulação dos direitos laborais e de cortes no Estado de Bem-estar.

Nas três últimas décadas, o que assistimos foi a uma verdadeira vingança do capital contra as conquistas do último século e do 25 de abril, no caso português, passando a viver-se num Estado de Mal-estar social, como diria Chomsky, destroçando-se peça por peça os direitos que se julgavam adquiridos do pós-guerra. Chegados a 2008, a burguesia não cessou os ataques, como se pensava ao início, nem empreendeu nenhuma viragem keynesiana. Antes pelo contrário, aproveitou o vazio estratégico da esquerda, da social-democracia transformada em terceira via ao eurocomunismo em ruínas, para se lançar na destruição dos alicerces da solidariedade- a escola púbica, os sistemas de saúde universais e gratuitos, a segurança social. É a esta luz que devemos ver a tentativa de privatizar o SNS ou o NHS inglês, que nunca estiveram tão em perigo como no presente.

Em 2020, o reagrupamento das nossas forças no contexto da globalização neoliberal continua frágil e inacabado. Na Grécia ainda está fresca a estrondosa derrota do Syriza. Esta foi uma derrota pessoal de Alexis Tsipras, que pagou caro o preço de ter vendido o povo ao diabo e aos mercados por tão pouco. Mas é também a demonstração de que a estratégia da submissão a Bruxelas e Berlim e a resignação só levam a tristes, pesadas e humilhantes derrotas históricas, das quais demoraremos anos a levantar-nos e que tanto prejudicaram o avançar da luta à escala europeia. Não tivesse Tsipras feito ouvidos de mercador perante os avisos de Zoe Konstantopoulou no Parlamento helénico nem despedido Varoufakis do seu governo de um dia para o outro para o substituir por um lacaio do FMI e talvez o glorioso OXI do povo grego tivesse levado a sua avante, dando o golpe necessário contra a prisão dos povos e encorajando outros povos à rebeldia e à revolta contra o austericídio.

Há, no entanto, razões para ter esperança. Se, na Alemanha, Merkel tem os dias no poder contados, a França viveu em dezembro de 2019 o seu maior movimento social desde o maio de 68, tendo a greve nos transportes, alargada a muitos outros setores, durado o dobro das mobilizações de 1995 contra o Plan Juppé. É certo que a Europa continua um barril de pólvora e que a ofensiva patronal e governamental tem promovido a agudização das contradições culturais e interculturais, não se vislumbrando uma alternativa clara que nos livre da torpe escolha entre neoliberalismo e fascismo. Não há respostas simples nem receitas mágicas, mas a unidade na diversidade parece ser essencial se queremos ter alguma hipótese de afirmar a nossa agenda. O vulcão francês pode ainda despertar e mostrar o caminho aos trabalhadores da Europa e do mundo, impulsionando um novo ciclo de progressismo e de vitórias políticas e sociais.

Em tempos de medo e de aperto, em que os fascistas deixam de conspirar na sombra e articulam discursos e projetos que apelam às massas, a esquerda de que faço parte tem de saber estar lado a lado com as classes populares, com as vítimas da crise e das troikas, sem se esquecer que está mandatada para salvar o povo. Salvá-lo da miséria, da pobreza, da precariedade e saber assumir essa escolha quando ela se apresenta como disjuntiva entre socialismo e barbárie. Impedir que esta crise dê o balão de ar que falta à extrema direita para tomar o poder, sem por isso fechar-se numa posição defensiva. A palavra de ordem deve ser, em toda a parte, com internacionalismo e solidariedade de classe, contra-ataque popular contra todo e qualquer ataque aos direitos. É esse contra-ataque e essa unidade do povo trabalhador em torno das bandeiras da luta socialista que permitirão inverter a relação de forças com o capital, trocando as voltas a liberais e conservadores, aos terapeutas de choque e a todos quantos nos achavam derrotados por antecipação. A convergência e a articulação de forças com o movimento sindical vermelho, que resiste e se mantém como o maior movimento social do mundo, é também fundamental.

Essa luta implica a construção de um programa máximo que esboce um horizonte de transformação socialista da sociedade, pois, como assinalou Naomi Klein numa obra recentemente publicada, estar contra não é suficiente: precisamos de algo por que lutar. Construir uma alternativa que reduza a jornada de trabalho, aumente salários e se bata pela classe trabalhadora implica munirmo-nos de um programa ofensivo, levá-lo para a rua e afirmá-lo no seio das classes populares. Esse programa é o de uma esquerda que vai até ao fim, na medida em que o seu compromisso com os trabalhadores implica o fim da exploração e a rutura com o capitalismo. O movimento proletário internacional precisa de recuperar a confiança nas suas próprias forças, emergir do labirinto em que se encontra e mostrar novamente que não há derrotas finais nem há becos sem saída. A resposta ofensiva da Classe nas fábricas, nas empresas, na rua, é o elemento que permitirá barrar a ofensiva do capital, impedir a acumulação e erguer uma resistência ganhadora contra a distopia. Mais do que nunca, precisamos de reaprender a vencer.

A explosão social que aí vem exige uma esquerda que não desvie os olhos da História que nos espera e não abandone a luta pela Terra da Fraternidade, nem desista de fazer a revolução sem entraves nem ameias. A utopia, cada vez mais percebida como única alternativa possível à barbárie, a necessidade e a vontade de levar o sonho ao poder, como disse o poeta José Gomes Ferreira, não nos podem fazer tropeçar e confiar em demasia no gramsciano otimismo da vontade. Olhar o futuro nos olhos obriga-nos e impele-nos a disputar cada centímetro do terreno com o inimigo, afirmando uma esquerda que seja uma bandeira dos oprimidos. Só a luta convergente e consequente do proletariado moderno, articulando as resistências e as batalhas de vários movimentos sociais (feminista, ecologista, LGBT, antirracista), pode fazer pender a balança para o lado do socialismo e desenhar as vitórias políticas e sociais que farão a minha geração orgulhar-se do tanto que conseguimos avançar diacronicamente e do tanto que ganharemos amanhã graças às lutas de hoje. Porque somos os herdeiros de todos quantos lutaram e remaram contra ventos e marés, traremos de novo essa maré cheia que tanto ansiamos, entendida como reencontro do povo consigo mesmo nos combates que constroem, sem cessar, a dignidade e a vida por inteiro.

Sobre o/a autor(a)

Estudante universitário e dirigente concelhio do Bloco no Porto
Termos relacionados Comunidade
(...)