As economias mais importantes do mundo estão a passar pelo sexto ano de estagnação ou recessão. Estados Unidos, Europa e Japão não podem sair do atoleiro com políticas que combinam expansão monetária para resgatar bancos e restrição fiscal no âmbito social e do trabalho. Apesar dos resultados insatisfatórios, as potências persistem nesta estratégia. Existe uma ideia naturalizada no senso comum que postula que nas grandes crises perdem todos. Ricos e pobres, trabalhadores e empresários. Não é assim. Também predomina a noção de que a deterioração geral não convém a ninguém. Para uns poucos, sim, ou é indiferente para eles uma vez que as suas riquezas são tão grandes que não são afetadas. Isso é ratificado num estudo realizado por Wealth-X, empresa que oferece o perfil dos ultra-ricos para profissionais das finanças dedicados à gestão de patrimónios privados.
Na sua página na internet, a empresa informa que trabalha com oito dos principais bancos privados do mundo e gaba-se de que a sua base de dados oferece dados exclusivos dos ultramultimilionários, incluindo a sua riqueza, receitas, paixões, interesses filantrópicos, orientação política, assessores, famílias e biografias. Além disso, apresenta um ranking de países com maior quantidade de “Ultra High Net Worth Individuals” (UHNWI), pessoas com ativos superiores a mais de mil milhões de dólares, sem contabilizar as casas e bens de coleções (obras de artes, entre outros) e de consumo (carros, aviões, iates, etc).
A instabilidade económica nos últimos anos não afetou esse reduzido grupo que concentra patrimónios imensos, superiores em alguns casos ao PIB de países periféricos. A quantidade de ultramultimilionários aumentou, assim como a sua riqueza, apesar da prolongada incerteza global. Wealth-X calculou que essas fortunas aumentaram 760 mil milhões de dólares no ano passado e produziu o ranking dos dez países com mais ultramultimilionários e a riqueza em conjunto registada por essas pessoas.
1. Estados Unidos (480) – 2,05 biliões de dólares
Com 333 ultramultimilionários a mais que o seu competidor mais próximo, a China, os Estados Unidos lideram comodamente o ranking. Apesar da estagnação da sua economia, no ano passado surgiram 25 novos muito ricos. Em média, cada um acumula uma fortuna de 4,3 mil milhões de dólares. Segundo a última lista da Forbes, Bill Gates (Microsoft), está em primeiro lugar com 67 mil milhões de dólares, seguido por Warren Buffett, com 53 mil milhões. O estado preferido dos ultra ricos para morar é a Califórnia, seguido por Nova York, Texas, Flórida e Illinois.
2. China (147) – 380 mil milhões de dólares
Pela quantidade, a China está em segundo, mas fica atrás da Alemanha e do Reino Unido em termos de riqueza total. Os chineses muito ricos têm 2,6 mil milhões de dólares cada um em média. Shangai, Guangzhou, Shenzhen, Beijing e Hangzhou são as cinco cidades com maior presença de ultra ricos. Zong Qinghou, que comanda o Grupo Nahzhou Wahaha, empresa líder de bebidas na China, ocupa a liderança com 11,6 mil milhões de dólares, segundo a Forbes.
3. Reino Unido (140) – 430 mil milhões de dólares
No Reino Unido, vive a maior quantidade de ultra ricos da Europa, com uma média de 3,1 mil milhões de dólares cada um. Em 2012, apesar da recessão, a quantidade de milionários britânicos cresceu 0,2% e a sua riqueza global aumentou cerca de 4%.
4. Alemanha (137) – 550 mil milhões de dólares
Está localizada em quarto lugar, mas em termos de riqueza total é a segunda, superando China e Reino Unido. Há menos alemães milionários, mas eles têm mais património, com uma média de 4 mil milhões de dólares cada um. Hamburgo, Munique e Dusseldorf são as três cidades com maior quantidade de ricos. O número um é Karl Albrecht, com 26 mil milhões de dólares, dono da Aldi Sud, uma cadeia gigante de supermercados, com 4.600 estabelecimentos em nove países.
5. Índia (109) – 190 mil milhões de dólares
Numa das economias consideradas nova potência, a quantidade de multimilionários destaca a magnitude da riqueza que se está a criar neste país, juntamente com o aumento da desigualdade social. A Índia é a terceira maior economia da Ásia, depois de China e Japão. Esse trio representa cerca de 75% dos ultra ricos da região. Cada um dos multimilionários da Índia tem um património médio de cerca de 1,7 mil milhões de dólares, com Mukesh Ambani (petroquímica, petróleo e gás) em primeiro lugar, com 21,5 mil milhões.
6. Rússia (109) – 380 mil milhões de dólares
São menos, mas em riqueza média situam-se muito perto do segundo lugar do ranking: cada um acumula uma média de 3,9 mil milhões de dólares. E são cada vez mais: a quantidade de multimilionários russos aumentou 17% no ano passado. O mais rico de todos é Alisher Usmanov, com 17,6 mil milhões de dólares.
7. Hong Kong (64) – 190 mil milhões de dólares
Hong Kong é o centro financeiro chave da Ásia, onde também se encontram algumas das pessoas mais ricas da região. Ka-shing Li, de 84 anos, é o homem mais rico de Hong Kong, com uma fortuna de 31 mil milhões de dólares, segundo a última lista da Forbes.
8. Suíça (57) – 125 mil milhões de dólares
Apesar da crise europeia, a fortuna dos ultra ricos suíços aumentou 3% no ano passado em relação ao período anterior, e em quantidade de pessoas subiu 7%. A consultora Wealth-X pergunta-se no informe: Que atração tem a Suíça para os ultra ricos?. E responde: “Os seus benefícios tributários e as leis de privacidade, já que podem manter lá o seu dinheiro mesmo sem viver permanentemente no país”.
9. Brasil (49) – 300 mil milhões de dólares
É o único país latino-americano na lista dos dez mais. No ano passado, com uma economia estagnada, o Brasil mostrou um incremento de 3,5% na quantidade de ultra ricos. Eike Batista é o homem mais rico com uma fortuna estimada em 19,4 mil milhões de dólares, segundo a Forbes.
10. Canadá (40) – 105 mil milhões de dólares
A relação de ultramultimilionários do mundo voltou a alcançar máximos históricos, informa a Forbes: agora essa lista é formada por 1.426 nomes com um valor patrimonial líquido de aproximadamente 5,4 biliões de dólares. Essa lista, junto com o ranking dos países com maior quantidade de milionários e as suas cifras correspondentes oferecem uma conclusão inquietante. A pior crise económica global desde a Depressão de 30 do século passado segue sem horizonte de terminar, enquanto aumenta a concentração de riqueza nas mãos de uns poucos ultra ricos.
Artigo de Alfredo Zaiat, publicado no Página 12. Tradução de Katarina Peixoto para Carta Maior