Os multimilionários fazem-nos mal

14 de janeiro 2024 - 9:49

Como o poder económico conduz inexoravelmente à destruição ambiental. Por George Monbiot.

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Elon Musk. Imagem de duncan cumming/Flickr.
Elon Musk. Imagem de duncan cumming/Flickr.

Mas eles não têm filhos? Netos? Os ricos e poderosos não se preocupam com o mundo que vão deixar aos seus descendentes? Fazem-me estas perguntas todas as semanas, mas não são fáceis de responder. Como é que podemos explicar uma mentalidade que sacrificaria um planeta habitável por um pouco mais de poder ou riqueza quando já têm tanto?

Há muitas maneiras pelas quais a riqueza extrema nos torna mais pobres. A mais evidente é a dispersão do dinheiro pelo nosso espaço ecológico comum. Os relatórios recentes da Oxfam, do Instituto do Ambiente de Estocolmo e do Guardian dão-nos uma ideia da área do planeta que os muito ricos ocupam atualmente. Os 1% mais ricos da população mundial queimam mais carbono do que os 66% mais pobres, enquanto os multimilionários, com os seus iates, jatos privados e casas várias, consomem cada um milhares de vezes mais do que a média global. Podemos ver isto como mais uma apropriação colonial de terra: uma elite poderosa apreendeu os recursos de que todos nós dependemos.

Mas o problema não acaba aqui. Alguns destes "poluocratas" também fazem de tudo para impedir as tentativas de outras pessoas de evitar o colapso dos sistemas terrestres. Multimilionários e centimilionários financiam uma rede de instituições que procuram impedir uma ação ambiental eficaz. Muitos dos junk tanks fundados ou financiados por Charles e pelo falecido David Koch, proprietários de um vasto império empresarial que inclui a extração de combustíveis fósseis, refinarias de petróleo e fábricas de produtos químicos, abastecem-nos de argumentos que disfarçam o egoísmo industrial de princípio moral. O mesmo acontece com os seus congéneres no Reino Unido, financiados de forma opaca, em Tufton Street ou nos arredores de Westminster.

O multimilionário Jeremy Hosking, que investiu milhões no Vote Leave e no Brexit, é também o principal financiador do partido Reclaim, de Laurence Fox, que afirma não haver crise climática e que faz campanha contra as políticas zero emissões líquidas, os bairros de baixo tráfego e é a favor do fraturamento hidráulico. Por coincidência, uma investigação do openDemocracy, no ano passado, descobriu que a empresa do mesmo, a Hosking Partners, tinha 134 milhões de dólares investidos no setor dos combustíveis fósseis.

Mais difíceis de explicar são, talvez, os oligarcas que não estão muito ou diretamente envolvidos nos combustíveis fósseis, mas que promovem oposição à ação ambiental. Uma investigação recente do site DeSmog revelou que 85% dos artigos de opinião sobre questões ambientais publicados no Telegraph, nos últimos seis meses, negavam estudos científicos ou atacavam as medidas e campanhas que tentavam evitar a catástrofe ambiental. O atual proprietário, Sir Frederick Barclay, não é um barão dos combustíveis fósseis. Mas se o jornal for vendido agora, e há indícios de que será, a um fundo controlado pela família real de Abu Dhabi, financiado pela indústria do petróleo e do gás, a situação não poderia ser pior.

No centro do império de Elon Musk está a Tesla, que fabrica veículos elétricos. Mas Musk transformou a sua compra recente, o Twitter (agora X, em breve Ex), num lugar extremamente hostil ao debate sobre o ambiente. Estudos sugerem que quase 50% dos seus utilizadores orientados para questões ambientais remeteram-se ao silêncio ou foram levados a sair da plataforma desde a sua "emuskulação". O próprio Musk contribuiu para a negação da ciência ambiental que tem aumentado exponencialmente na sua plataforma desde que a comprou.

Uma vasta coligação de interesses – empresas de combustíveis fósseis, multimilionários, os seus jornais e outros membros da elite económica – fez pressão e conseguiu a criminalização do protesto ambiental em muitas partes do mundo, incluindo no Reino Unido. Aqui, tal como em vários outros países, os protestos ambientais moderados suscitam agora longas penas de prisão, facilitadas pelo silenciamento em tribunal. Em alguns casos, os ativistas são proibidos de dizer ao júri por que razão agiram. Nos Estados Unidos, instituições financiadas por empresas petrolíferas e multimilionários redigem leis que incluem penas draconianas e aterradoras contra os manifestantes, procurando depois universalizá-las em vários estados e nações. Manifestantes completamente pacíficos são demonizados, apelidados de extremistas e até terroristas. Uma hostilidade generalizada contra os ativistas ambientais tem sido fabricada por junk tanks de dinheiro obscuro e pela imprensa dos multimilionários. É escandaloso que aqueles que procuram proteger o planeta por meios democráticos sejam detidos em massa e presos pelas autoridades enquanto as pessoas e instituições que destroem a vida do nosso planeta saem impunes.

Então, porque é que os oligarcas que não têm investimentos diretos na destruição do ambiente parecem ser tão hostis para com a proteção ambiental? Parte da razão é que qualquer oposição ao business as usual é vista como uma oposição aos seus beneficiários. Aqueles que hoje são multimilionários, ou centimilionários, estão, por norma, bem servidos pelo sistema atual. Têm a perceção correta de que um mundo verde mais justo significa reduzir o seu imenso poder económico e político. Mesmo aqueles que investiram em tecnologias verdes ou que fazem donativos para causas verdes têm, sem dúvida, uma sensação instintiva dessa ameaça.

As redes financiadas pelas empresas de combustíveis fósseis agregam deliberadamente temas, associando as políticas ecológicas ao comunismo e a revoluções violentas enquanto promovem candidatos políticos que irão reprimir simultaneamente a ação ambiental, a democracia e a redistribuição. A paranoia da propriedade frequentemente associada à riqueza extrema, a sensação de que todos conspiram para lha tirar, é facilmente desencadeada.

Mas não podemos descartar a possibilidade de algumas destas pessoas, de facto, não quererem saber, nem mesmo dos seus próprios filhos. Há aqui duas forças convergentes. Em primeiro lugar, muitos dos que sobem a posições de grande poder económico ou político têm perturbações de personalidade, particularmente narcisismo ou psicopatia. Estas perturbações são muitas vezes a força motriz da sua ambição e o meio pelo qual ultrapassam obstáculos associados à aquisição de riqueza e poder, tal como a culpa pela forma como tratam os outros. Obstáculos esses que impediriam outras pessoas de alcançar esse domínio.

O segundo fator é que, uma vez adquirida uma grande riqueza, esta parece reforçar essas tendências, inibindo a ligação, o afeto e o remorso. O dinheiro compra o isolamento. Permite as pessoas isolarem-se dos outros nas suas mansões, iates e jatos privados. Mas não só fisicamente, também cognitivamente, sufocando, assim, a consciência dos seus impactos sociais e ambientais e ignorando as preocupações e dificuldades dos outros. A riqueza extrema nutre um sentimento de direito ao privilégio e de egoísmo. Parece suprimir a confiança, a empatia e a generosidade. A riqueza também parece diminuir o interesse das pessoas em cuidar dos seus próprios filhos. Se qualquer outra condição gerasse estes sintomas, chamar-lhe-íamos uma doença mental. Talvez seja assim que a riqueza extrema deva ser classificada.

Assim, a luta contra a degradação ambiental não é, nem nunca foi, apenas uma luta contra a degradação ambiental. É também uma luta contra a péssima distribuição da riqueza e poder que afeta todos os aspetos da vida no nosso planeta. Os multimilionários – mesmo os mais tolerantes – são maus para nós. Não nos podemos dar ao luxo de os manter.


Texto publicado na página do autor.

Traduzido por Nuno Oliveira para o Esquerda.net.