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ONU quer “medidas drásticas” para conter aquecimento global

Agência da ONU para o Ambiente aponta que estamos a caminhar para um aumento de temperatura de 2,9°C até 2100, muito acima dos objetivos do Acordo de Paris. António Guterres defende que temos de arrancar “a raiz envenenada da crise climática: os combustíveis fósseis”.
Foto de Ana Mendes.

O relatório Emissions Gap Report 2023: Broken Record – Temperatures hit new highs, yet world fails to cut emissions (again), divulgado segunda-feira pela agência das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP), aponta que, num momento em que “as emissões de gases com efeito de estufa atingem novos máximos, os recordes de temperatura vão sendo quebrados e os impactos climáticos intensificam-se”, verifica-se que “o mundo está a caminhar para um aumento de temperatura muito acima dos objetivos do Acordo de Paris, a menos que os países cumpram mais do que prometeram”.

No documento reconhecem-se “progressos” desde que o Acordo de Paris foi assinado, em 2015. “As emissões de gases com efeito de estufa em 2030, com base nas políticas em vigor, foram projetadas para aumentar 16 por cento no momento da adoção do acordo. Hoje, o aumento projetado é de 3%”, escrevem os cientistas.

Ainda assim, alertam que as emissões de gases com efeito de estufa previstas para 2030 terão de cair 28% para respeitar os 2°C estipulados no Acordo de Paris e 42% para a trajetória de 1,5°C.

O relatório destaca que, a manter-se a trajetória atual no que concerne às emissões de gases com efeito de estufa, apenas estaremos a limitar o aquecimento global a 2,9 graus Celsius até 2100.

Os peritos consideram que “os países com maior capacidade e responsabilidade pelas emissões terão de tomar medidas mais ambiciosas e apoiar as nações em desenvolvimento” à medida que estas procuram seguir um modelo de crescimento com baixas emissões.

Inger Andersen, diretora da UNEP, reiterou o alerta que tem vindo a ser lançado pela agência: “Vamos estar a dizer a mesma coisa no ano que vem – e no seguinte também, assim como no ano a seguir, como um disco riscado (…) a humanidade tem quebrado os recordes errados quando o assunto é alterações climáticas”.

Em 2022, as emissões de gases com efeito de estufa atingiram um novo recorde. As emissões cresceram 1,2% entre 2021 e 2022, quando deveriam ter sido reduzidas em entre 4 a 6% para limitar a subida da temperatura média entre 1,5 e 2 graus Celsius.

O Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal), que preparou um relatório utilizando métodos epidemiológicos para relacionar temperatura e mortalidade, avança que mais de 70 mil pessoas poderão ter morrido prematuramente na Europa devido ao calor.

E é expectável que 2023 seja considerado o ano mais quente desde que há registo.

De acordo com o Serviço Copernicus para as Alterações Climáticas, 17 de novembro foi o primeiro dia em que a temperatura global excedeu 2°C acima dos níveis pré-industriais, atingindo 2,07°C acima da média de 1850-1900. E o valor provisório para 18 de novembro é de 2,06°C.

Combustíveis fósseis são “raiz envenenada da crise climática”

Durante a apresentação do relatório da UNEP, António Guterres frisou que o fosso entre os compromissos dos países em reduzirem emissões de gases com efeito de estufa, e aquilo que seria necessário para respeitar os objetivos do Acordo de Paris representa "um fracasso de liderança, uma traição aos que são vulneráveis e uma imensa oportunidade perdida". O Secretário-Geral das Nações Unidas pede “medidas drásticas” para conter o aquecimento global.

Num comentário ao relatório, citado numa nota de imprensa da UNEP, António Guterres também foi perentório: “Sabemos que ainda é possível tornar o limite de 1,5 graus Celsius uma realidade. Exige apenas que arranquemos a raiz envenenada da crise climática: os combustíveis fósseis. E exige uma transição justa e equitativa para as energias renováveis”.

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