A análise dos dados climáticos divulgados pela WaterAid e pelas universidades de Cardiff e Bristol revela como o aquecimento global está a criar um “efeito chicote”, criando extremos erráticos. O estudo, citado pelo The Guardian, refere como exemplo a região sul de Shabelle, na Etiópia. Depois de, entre 1980 e 2000 ter sofrido numerosos períodos de inundações, a região enfrenta agora uma situação que ganha contornos de uma seca prolongada e severa. O rio Shabelle, que é uma importante fonte de água para a Somália, sofreu recentemente as piores condições de seca no Corno de África.
O agravamento das secas reflete-se no norte de Itália, com a investigação a mostrar que o número de períodos de seca intensos vividos em ambas as áreas mais do que duplicou desde 2000. No entanto, como parte daquilo que os investigadores identificam como uma “alteração de risco climático”, as secas em ambas as regiões são pontuadas por chuvas extremas que provocam inundações devastadoras, tal como aconteceu na região da Lombardia, em Itália, no passado verão.
A investigação examinou a frequência e a magnitude dos riscos de inundações e secas ao longo dos últimos 41 anos em locais de seis países: Paquistão, Etiópia, Uganda, Burkina Faso, Gana e Moçambique. A Itália foi incluída para ter efeitos de comparação no espaço europeu.
Os investigadores assinalam que a alteração dos extremos climáticos está a ser vivida por milhões de pessoas que habitam em algumas das zonas mais pobres do mundo, onde as comunidades estão, muitas vezes, mal preparadas para lidar com esta realidade.
Tim Wainwright, executivo-chefe da WaterAid, enfatizou que a crise climática é uma crise hídrica em todo o mundo: “O nosso clima tornou-se cada vez mais imprevisível, com consequências devastadoras”.
“Desde terras agrícolas atingidas pela seca até assentamentos devastados pelas enchentes, comunidades no Paquistão, Burkina Faso, Gana e Etiópia estão todas a enfrentar efeitos climáticos alarmantes. O Uganda está a sofrer inundações cada vez mais catastróficas e Moçambique é uma mistura caótica de ambos os extremos”, detalhou.
Na véspera da conferência climática COP28 das Nações Unidas, Wainwright defendeu que “os nossos líderes devem reconhecer a urgência e dar agora prioridade ao investimento em sistemas hídricos robustos e resilientes”.
A WaterAid exorta os líderes mundiais na COP28 a priorizarem a água potável, o saneamento e a higiene de qualidade como componentes essenciais dos programas de adaptação climática, bem como apela ao rápido aumento do investimento na segurança da água nos países de baixo e médio rendimento.
Katerina Michaelides, professora de hidrologia de terras áridas no Instituto Cabot para o Meio Ambiente, da Universidade de Bristol, e principal autora da investigação, referiu que o colapso climático não estava a conduzir a alterações monolíticas. “Em vez disso, o perfil de perigo para qualquer região poderá mudar de forma imprevisível. Estes fatores devem ser considerados para apoiar a adaptação climática para as vidas e meios de subsistência dos seres humanos em todo o mundo”, vincou.