Ontem fui ao cinema, ver «Pina»

02 de julho 2011 - 0:09

Contributo de Mário Tomé

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«A directiva principal que nos tem de guiar na escolha de uma profissão é o bem da humanidade, a nossa própria realização.(…)A natureza do homem está estabelecida de tal modo que ele só pode alcançar o seu aperfeiçoamento se agir para a realização , para o bem dos seus contemporâneos.(…) Se escolhermos uma profissão em que possamos trabalhar ao máximo pela humanidade(…) a nossa felicidade pertencerá a milhões»

Karl Marx, aos 17 anos num trabalho liceal

A epígrafe de Marx revela um doce idealismo mas representa toda uma filosofia de vida marcada pelos valores que nos guiam. Idealismo na medida em que, como ele tão bem escalpelizou mais tarde, o capitalismo é o monstro que impede e destrói todos os valores. Nós, no Bloco de Esquerda, temos a sorte de poder contribuir, a tempo inteiro ou quando a vida no-lo permite, para o «bem dos nossos contemporâneos».

Na última Convenção, em Maio deste ano, o BE definiu uma estratégia política que mereceu uma larga aprovação e contou com votos diversos de correntes internas que têm vindo ao longo do tempo a manifestar o seu desacordo pontual ou mais alargado quanto à política ou quanto à organização e forma de direcção do BE.

Os resultados eleitorais nas legislativas provocaram um ataque exterior sem precedentes – aliás já claramente manifestado durante o período pré-eleitoral e nas eleições: o programa eleitoral do BE era demasiado «óbvio» como resposta sem contestação visível ao programa da troika.

Várias razões são apontadas para tão acentuado desaire e muitos camaradas acham que é necessária uma reunião magna do BE. Para redefinir a estratégia, a linha, o programa apresentado às eleições? Uns que sim, querem outro Bloco que corresponda aos seus anseios mais genuínos; outros que não, querem apenas analisar e tirar conclusões e aprovar as consequências delas decorrentes, nomeadamente alijar uma direcção que falhou porque perdemos metade do eleitorado.

Eis a razão «óbvia» pela qual eu estou contra uma convenção extraordinária.

Porque se formos analisar a política eleitoral e os resultados dela decorrentes a partir de decisões antes e durante as eleições (o programa foi aprovado em Maio, «não percam a memória») creio que vamos ficar pela espuma dos dias.

O apoio ao Alegre foi controverso? Foi. Mas já foi analisado na última Convenção, dois meses atrás, um mês antes das eleições, «não percam a memória».

Casus beli

A Moção de censura suscitou dúvidas e fortes críticas lançadas em primeiro lugar pelo inimigo e seus arautos, os média e os politólogos, essas inefáveis criaturas que têm sempre razão, que fazem política sem compromisso. Dentro do Bloco houve uma forte crítica, não ao facto de se ter apresentado a moção mas por ter sido decidida fora da Mesa (e sem um debate alargado?) Bem, para mim uma moção de censura é formalmente da responsabilidade estrita do Grupo Parlamentar.

Deveria ter sido previamente discutida na Mesa? A Mesa substitui a Convenção, representa todas as sensibilidades, a Mesa é o fórum para debates e decisões para não se estar em permanência em convenção. Não tem sentido invocar a Mesa. Terá sido discutida na Comissão Política. Se não o fosse, seria estranho, não seria muito curial, mas nada de grave. A Moção era da absoluta competência da representação parlamentar, nem sequer suscitava dúvidas a sua oportunidade, muito menos a sua justeza. Foi apresentada contra um governo nos últimos estertores, isolado, criticado e censurado por todo o espectro político e pela sociedade em geral.

No caso da Moção de censura não tenho nada a censurar. Jerónimo disse que admitia apresentar uma Moção de Censura, Francisco Louçã disse que não tinha oportunidade.

Passados poucos dias o mesmo Francisco Louçã, coordenador do BE, anunciou que o Grupo Parlamentar (GP) do BE apresentaria uma moção de censura para o dia em que o Presidente da República tomasse posse. Só a partir daí tinha sentido apresentá-la, de facto. Não ameaçou. Anunciou!

Devíamos ter acompanhado a agenda do PCP? Enganámos o PCP? Coitado. O PS? Coitadinho. A direita? Não se deve fazer uma coisa dessas! O povo? Bem, apenas mostrámos aquilo de que todos os partidos se reivindicam: ter uma agenda própria, reforçado com a racionalidade incontestável do argumento. Sem PR a Moção não tem efeito.

Aparentámos hesitação ou confusão? Sim disseram os média pressurosos cheios de tiques de coerência. Porquê? Porque não fizemos o que eles achavam. Ou seja, deixar o PSD à vontade. Se só o inimigo e os adversários podem manobrar estamos derrotados à partida.

O BE é diferente... Claro. Mas não é parvo. A política pública exige cautela privada. Ou não? A seriedade e a transparência ficaram beliscadas? Não me parece.

A táctica diz-nos como trabalhar para, em cada momento, alterar a correlação de forças. A táctica serve para neutralizar as manobras do inimigo ou dos adversários que impedem alcançar o objectivo estratégico. Só não temos o direito de enganar o árbitro: o povo.

Se a Moção não correspondesse à linha do Bloco, a direcção, Comissão Política e Mesa, deviam tomar uma posição que podia ir até à «moção de censura» à direcção do GP. Mas, correspondendo, nada a criticar, estava no uso das suas prerrogativas próprias, o GP.

Já apresentar a Moção de Censura dizendo que a censura também se dirigia ao PSD, ou seja significando na prática que não se queria ver aprovada, como aconteceu, não só não entalou a direita na sua demagogia contra o PEC 4 como matou a Moção tornando-a num fogo fátuo, dando o flanco ao inimigo e razão aos seus arautos qualificados. Isso teve consequências importantes na reacção do público e dos diferentes actores políticos, expôs o Bloco e não ajudou ao combate ao Governo e ao PSD.

Convenção extraordinária? Estávamos tramados cada vez que houvesse falhas mais ou menos graves.

Não fomos à Troika com base em princípios democráticos e institucionais. Quem nos quer enrolados nas manigâncias, farsas e demagogias populistas, talvez até aceitar participar num governo para que ele não faça tantas maldades, logo nos caiu em cima. O eleitorado terá não entendido a nossa posição ou mesmo achado que estávamos a fugir à nossa responsabilidade, e podíamos ter aproveitado a ida à Troika para fazermos a nossa campanha anti-troika. Admito que sim. Mas a posição certa foi a que tomámos.

São estes casos que exigiriam a demissão do coordenador, a demissão da direcção, uma convenção extraordinária ou antecipada? É uma questão de opinião. Subjectiva. Se o número de subjectividades for suficiente o BE terá estatutariamente a sua convenção extraordinária.

Um partido «em convulsão»

Quem vota e votará no Bloco fá-lo porque se sente representado, na defesa dos seus interesses, pelo Bloco. Não por razões ideológicas que exigem fidelidade e penalizam intimamente quem lhe falta, a velha sensação de pecado… É essa a garantia de que o Bloco vai crescer sustentadamente e construindo caminho para a transformação social. É essa a garantia de que o Bloco não será nunca um impostor, mesmo que involuntário, prometendo a materialização de utopias. A realidade é a nossa medida.

A utopia aponta para uma visão ideal, surge como necessidade de ultrapassagem de uma situação que não se tolera, mas não representa uma antecipação da realidade. Até pode ser ultrapassada por ela! Aliás, o socialismo já não é uma utopia desde que estão reunidas as condições históricas e materiais para a sua concretização. Portanto a sua concretização é uma questão prática.

Bem, subscritor da Moção A, que ganhou a Convenção, há dois meses, «não percam a memória», Daniel Oliveira, à frente de uma multidão de «bloguers» e leitores do Expresso papel e on-line, e de espectadores do Eixo do Mal diz que sim. Que é preciso mudar a direcção e fazer uma convenção extraordinária. Para analisar erros grosseiros no cumprimento do mandato dado pela Convenção? Disparate. A Mesa é a entidade adequada. Para mudar a estratégia? Então será necessária. Para mudar o Programa? Então será necessária. Para refundar o Bloco? Então será necessária.

Pelos debates que são totalmente livres no Bloco – e fora dele! - depreende-se que Daniel Oliveira acha que só assim poderemos vir a encontrar maneira de participar num governo, com o PS, depois de puxar o PS para a Esquerda ou então fingirmos que ele se chega à esquerda e não à direita. (N. B. : «Homens e mulheres de esquerda, juntem-se a nós!», disse Tozé Seguro enquanto luta por um capitalismo ético!)

Mas com a política da Troika? Bem, o PS está na oposição ao Governo PSD/CDS e de acordo com a Troika. Podemos fazer assim: enquanto o PS vai cumprindo o programa da Troika na oposição e nós vamos combatendo com todas as forças políticas, sociais e espirituais que o queiram fazer o programa da Troika, aí vamos encontrando os pontos comuns que nas próximas eleições nos ajudem a um programa comum para o governo!

Ou então, como pretendem camaradas subscritores da Moção C, para definirmos uma estratégia de entendimento com o PCP. Mas, chatice, o socialismo exige democracia. O socialismo é, aliás, a possibilidade de efectivar a democracia. A história demonstrou, e a ética socialista também, que só praticando e exigindo cada vez mais democracia nas actuais condições se pode caminhar para o socialismo. O PCP não a pratica internamente ou tem uma noção muito própria do que é democracia, acha que se pode chegar ao socialismo com boas ditaduras bem consistentes, como na China. Já não falo na Coreia do Norte porque admito que se tenha tratado de uma distracção do Bernardino Soares. Desta forma como conceber um acordo consistente e substancial com o PCP? Encontros e convergências na luta prática ou legislativa comuns, tudo bem. Como tem sido feito.

Poderá haver camaradas que ainda estejam na fase de achar que pela ditadura se chega à democracia ou que a ditadura socialista é melhor que a capitalista. Ou então maus leitores de Marx não percebem que este se referiu à «ditadura do proletariado» como forma de organização política e social que prevê a prévia eliminação do Estado. Se e quando tal for possível. E que enquanto houver Estado, capitalista ou socialista, a nossa luta é por um Estado de Direito, capitalista ou socialista!

«É a NATO Estúpido»

Entretanto o Rui Tavares mostrou o que é a politiquice enviesada e sem princípios graças ao Daniel Cohn-Bendit, Presidente do Grupo Verde Europeu onde o triste e pesaroso ex-deputado europeu foi pedir abrigo. Quando ele mostrou a sua insanável indignação por Louçã não lhe ter telefonado já se sabia que ele negociava com o Daniel Cohn-Bendit e estava decidido a mudar do arco-íris do BE para o verde sujo dos Verdes.

Foi assim:

– Ó Daniel! O Louçã ontem tratou-me mal posso vir para cá depois de amanhã?

– Claro meu caro Rui. A malta dos Verdes gosta de ver a NATO a defender a civilização judaico-cristã e os pobres dos povos que são bombardeados por engano, aliás aproveita para dar cabo das casas que estão em clara violação dos PDM’s comprometendo o urbanismo ecológico, e ficamos orgulhosos por um anti-NATO dos sete costados aderir às nossas teses ambientalistas.

– Mas eu não sou anti-NATO. Eu até acho muito bem que a NATO ande a bombardear a Líbia daquele bandido do Kadafi.

– Mas então como é que conseguiste estar no BE?

- Eu sempre vi longe!

- Vem, então, que nós também temos um olhar desses. «Unamo-nos e demos cabo do mundo».*

 

Na minha opinião todas estas coisas ao mesmo tempo não são coincidência. Estava montado um drama de faca e alguidar que afinal se transformou numa farsa imbecil.

O que aconteceu com Rui Tavares (e com Sá Fernandes) não faz uma única mossa na nossa política de abertura e de contar com independentes ao nosso lado e nas nossas listas.

É essa a base da nossa visão da política. E, como diz o outro, as acções ficam com quem as praticam.

As Raízes

Levar a discussão para questões que têm importância mas que são no fundo o pão nosso de cada dia, ou seja a acção táctica que umas vezes é boa, outras nem por isso e outras até pode falhar, é esconder o essencial: o que as eleições revelaram e sublinharam é que a ofensiva da direita, política e social, de transferência acelerada e em força do rendimento do trabalho para a finança, populista e chantagista, apoiada por uma acção ideológica global e de pensamento único, do inevitável e ou é assim ou estamos desgraçados, sindicatos e contestações agravam tudo e ficas sem salário e sem pensão, provocou uma viragem à direita na situação política e social sem precedentes, com consequências devastadoras nos direitos dos trabalhadores e no exercício da democracia. E esta constatação tira o tapete a quem acha que com os profs, o M12M, a Greve Geral, os acampamentos, a coragem dos confrontos com a repressão, se está pronto para a ofensiva. São movimentações que manifestam revolta mas que não conseguiram sequer travar os efeitos mais funestos da política de Sócrates e do PSD agora mais forte porque imposta pela Troika.

É necessária uma estratégia, a estratégia aprovada na Convenção do Bloco há dois meses, «não percam a memória», que associe bem a capacidade defensiva a uma vertente ofensiva que seja entendida e capaz de ser adoptada pela grande massa. Se as eleições nos colocaram no patamar de 2005 (ninguém perguntou por que razão duplicámos se não tínhamos implantação real na base?) é porque tal objectivo exige a concretização efectiva da política parlamentar e da política anunciada pela política praticada. Ou seja, no dia a dia, fábrica a fábrica, oficina a oficina, freguesia a freguesia, tasca a tasca, associação a associação, jardim a jardim. Do povo – que os militantes do Bloco são – para o povo, todos os que têm interesse, consciente ou não, na transformação social.

A alegação de que só seremos reconhecidos e teremos influência na base se formos para as autarquias e, portanto, fazendo alianças com PS e PCP é totalmente cega ao que são as autarquias com esses partidos à cabeça.

A afirmação e influência do Bloco a nível local decorrerá da capacidade de iniciativa, acção e relacionamento social e político a nível local.

Cada militante bloquista tem uma missão prioritária: integrar, enquanto cidadão ou cidadã, todas as manifestações de vontade popular, de iniciativa popular, todos os movimentos que cristalizem e representem vontade cidadã de transformação. Assim se vai fazendo. E muito bem, mas tem de ser em continuidade. Cada palmo de terreno conquistado na acção tem de ser consolidado e servir de respaldo para alargar os contactos entre pessoas pois são estes que consolidam a política.

Para mim, a única coisa que faltou da nossa parte nestas eleições foi a denúncia consistente e permanente do autêntico golpe de Estado levado a cabo antes das eleições: a vinda da Troika, a imposição de um programa de governo antes de o povo se pronunciar. As eleições foram realizadas debaixo de coacção. Como se as tropas estivessem na rua, mas pior ainda.

Votou-se para quê, se o futuro já estava definido, imposto o programa e marginalizadas as forças que o contestavam porque quereriam impedir a salvação nacional!? Fascismo? Não. União Nacional? Não. Mas a consolidação da governação da mentira, da chantagem, da corrupção, do crime, enfim, da burguesia financeira em apuros por ter levado o sistema à «glória» e que sabe que vai podendo fazer o que quiser porque a resposta tarda e cada dia é mais condicionada e que quem tem a ousadia de se lançar na acção, no protesto, na revolta, seja a nível de partidos, movimentos, ou países inteiros como a Grécia, pode ainda ser coagido e isolado e se necessário liquidado. É esta hoje a estratégia da burguesia.

Portanto a questão real é esta: o nosso programa, aprovado há dois meses, «não percam a memória», pode responder a esta situação? A minha resposta é sim. Quer do ponto de vista nacional quer do entendimento que tem da política europeia e da esquerda europeia. Foi essa a nossa conclusão.

A política geracional

Vamos então assistir à renovação geracional! O Miguel Portas vai sair ou porque tem outros planos, ou porque não pode continuar ou porque acha que há quem melhor faça o seu lugar, ou sinceramente porque já se sente velho ou porque há alguém que ele pensa que sendo jovem fará melhor que ele. E lança a palavra de ordem: os fundadores devem deixar lugar aos novos.

Derrota nas eleições, não se pedem cabeças mas exige-se a renovação. Dois em um, boa oportunidade: a direcção não sai porque foi derrotada mas porque está velha (os fundadores claro!). Por aí abaixo e por aí acima, calculo. Quem tiver mais de cinquenta e poucos, ala que se faz tarde? Estamos aonde?

O Louçã já não serve? O Fazenda já não serve? O Rosas já não serve? Com eles o Bloco não dá conta do recado? O pessoal acha que se deve desperdiçar o saber e a experiência e a capacidade no auge da sua potencialidade? Aos 50 e tal anos? Sessenta? Estamos aonde? Melhor: vamos para onde? Define-se assim, subjectivamente, neste caso administrativamente, a idade da reforma na política? Queremos que todos os camaradas possam dar o melhor de si próprios o maior tempo possível. Não se trata de cargos institucionais que têm a ver com as relações de domínio do Estado sobre a sociedade e de consolidação de relações pessoais e de corrupção possível.

No Bloco a renovação tem vindo a fazer-se paulatinamente e inteligentemente. A renovação não pode transformar-se numa quase questão ideológica. Perdoe-se-me a hipérbole excessiva, mas as «revoluções culturais» sempre deram em barraca da grande. E tiveram como isca a renovação geracional, mesmo quando o maestro continuou o mesmo.

Escusado dizerem que esta «hipérbole excessiva» é excessiva. Claro que é. Mas aqui fica.

São «os velhos» fundadores quem manda, ou é a Direcção? São eles quem manda na direcção? Continuarão a mandar se isto é coisa de mandar.

A luta contra o capital e o imperialismo precisa de malta nova? Claro. Mas a renovação não se faz permanentemente? Devia fazer-se.

O pensamento crítico é característica dos jovens, mas dos jovens de esquerda, de jovens com pensamento revolucionário. Não vamos cair naquela atoarda burguesa repetida numa espécie de «cretinismo parlamentar» : aos 20 revolucionário, aos 30 social-democrata e aos 40 conservador, para justificar as carreiras dos Durões Barroso e companhia. O pensamento crítico é sustentado apenas pelo conhecimento da realidade e de como a transformar, acompanhado da necessidade material e da consciência social. Portanto o pensamento crítico é característica de qualquer idade, assim como o pensamento reaccionário. A «renovação geracional» deve ter como objectivo único assegurar a passagem sustentada de testemunho na luta revolucionária.

Isto coloca-nos um desafio: como deve o Bloco encarar as movimentações de jovens revoltados com o sistema que lhes tira a esperança e lhes dá cabo da vida? A tendência que se nota é a de confrontar quase às cegas as regras de auto-sustentação do sistema. Só querem eleições quando elas já não forem necessárias, e exigem o fim do capitalismo sem, no entanto, se comprometerem politicamente com a organização necessária para lhe dar combate com eficácia.

Esquecem-se que essas regras correspondem a quase dois séculos de lutas contra o sistema e a sua repressão sempre brutal, de imposição de direitos que a burguesia foi obrigada a aceitar introduzindo, naturalmente, travões sempre que possível. A fase actual da crise capitalista que inspira um ataque desbragado aos direitos dos trabalhadores, exige capacidade política para defender e assegurar os direitos conquistados. Não se muda, muito menos se liquida o sistema reagindo apoliticamente contra ele.

A arte de ser bloquista

A maioria bloquista responsável pela aprovação do actual programa do Bloco poderá ter que fazer um «reset», pois há camaradas responsáveis que começam a pôr em causa na retórica, e na prática, não só os fundamentos da resolução que fizeram aprovar para orientar a política do BE, mas também as bases fundacionais do próprio Bloco.

O Bloco nasceu e afirmou-se, e em torno deles se consolidou, com alguns pilares incontestados: refundação da esquerda europeia com base no casamento indestrutível da democracia com o socialismo, a luta contra o capitalismo e contra o imperialismo, nomeadamente na sua forma mais brutal e criminosa, a NATO para a guerra infinita.

Quem combate pela democracia e pelo socialismo tem que assumir essa luta em todas as suas vertentes. E a participação e descentralização democráticas, a capacidade, prática e teórica, para impedir que a necessária burocracia se apodere da política são as partes mais sensíveis na construção dum partido anticapitalista.

Porque, todos sabemos, os meios condicionam os fins. E, ao contrário do PCP não posso chegar à democracia socialista através da liquidação da democracia interna ou através da liquidação da democracia capitalista como acontece na China. Muito menos de braço dado com aqueles que hipotecaram miseravelmente a liberdade e a democracia aos lucros criminosos do capital financeiro.

Para reflexão:

Da forma como funciona o Bloco tira-se que:

Só não fala, não escreve, não publica quem não quer. Para além das assembleias regulares e orgânicas, há a blogosfera, as redes sociais e, principalmente, o Esquerda .net .

Se acharmos que a participação não é devidamente assegurada ou é pouco estimulada por razões diversas, não há nada no Bloco que impeça que se realizem assembleias, seminários, encontros que podem e devem ser levados a cabo por iniciativa dos militantes. É o Bloco em acção!

E essas realizações serão ainda uma forma de chamar a cidadania a participar e contribuir. Não podemos estar à espera das assembleias «institucionais», aliás fundamentais e imprescindíveis, para ter iniciativa. O Bloco precisa disso, até menos, na minha opinião, para assegurar a possibilidade de participação interna do que para garantir a afirmação do partido no exterior.

É preciso não só participar mas ter papel nas decisões. Uma assembleia, seja ela qual for, está sempre limitada por razões objectivas que são de sobra, não é preciso arranjar razões subjectivas: limites de tempo, de espaço conduzem à necessidade de representação. Essa representação tem que ser o mais genuína possível. Mas não é mais do que uma representação.

A vitalidade do Bloco requer espíritos livres, plenos de iniciativa, de criatividade e de vontade sincera e profunda de entrega à luta política de acordo com os princípios fundadores e com o programa que estrutura e dá sentido à nossa intervenção na sociedade.

Outro dia fui ao cinema. Fui ver «Pina». Para além da beleza intrínseca e extraordinária do filme de Wim Wenders, fiquei a saber uma coisa: a companhia da Pina Baush funcionava às mil maravilhas porque, aparentemente, cada um fazia o que queria. Ela fumava, não falava. Quase nem sequer orientava. Ela tinha o dom de inspirar!

No programa da RT2, «Câmara Clara», Eugénio Lisboa dizia mais ou menos isto: um mau mestre (leia-se dirigente) ensina; um mestre medíocre explica; um mestre razoável demonstra; um mestre bom argumenta; um mestre excelente inspira.

Um partido não é uma escola, mas quase. Há sempre gente a aprender em todas as direcções.

A direcção do Bloco deve de ter como objectivo, qualquer direcção, inspirar. E a militância age inspirando outros e outros.

Eu sei que não somos uma companhia de Bailado.

Mas Karl Marx serviu-se de Goethe e de Shakespeare para abordar o significado do dinheiro e o seu papel. E dizia a Engels que para si, «O Capital», era uma obra de arte, antes de tudo o mais.

De qualquer modo, no BE como na companhia de Pina, serão sempre 10% de inspiração e 90% de trabalho como em todas as obras de arte a sério.

O BE, sempre em construção, como a própria democracia, deverá ser a nossa obra de arte antecipando a nossa visão do futuro em que o trabalho será a realização da pessoa humana enquanto artista.


* «Arrimado às duas portas,/ pingue boticário estava./ E brandamente acenou/ a um doutor que passava./ Mal que chega o bom Galeno,/ diz o outro com ar jucundo/Unamo-nos, meu doutor/ e demos cabo do Mundo!»

Epigrama de Bocage