ONG acusam Bayer Monsanto de esconder estudos sobre neurotoxicidade do glifosato

28 de setembro 2023 - 22:16

A Rede Europeia de Ação Contra os Pesticidas e outras associações apresentaram queixa contra a empresa na Procuradoria Pública de Viena. A empresa está obrigada a apresentar todos os estudos sobre os efeitos da substância mas omitiu dados que colocavam em causa a sua segurança.

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Foto da Rede Europeia de Ação Contra os Pesticidas/Twitter.
Foto da Rede Europeia de Ação Contra os Pesticidas/Twitter.

A Rede Europeia de Ação Contra os Pesticidas junto com a Générations Futures, a Global 2000, a Pestizid Aktions-Netzwerk e a Associazione Italiana Medici per l’Ambiente apresentaram esta quarta-feira uma queixa à Procuradoria Pública de Viena contra a Bayer Monsanto, acusando-a de esconder dados sobre os riscos dos efeitos do glifosato em mulheres grávidas.

Em comunicado de imprensa, revelam que a empresa não submeteu estudos ou dados desfavoráveis sobre os efeitos cancerígenas ou neurotóxicos ao requerer a re-aprovação do uso da substâncias. Estas omissões, alegam, podem ter influenciado as avaliações de riscos efetuadas pelas autoridades.

Numa altura em que os Estados-membro da União Europeia estão a analisar outra vez a reautorização do uso de glifosato, com votação marcada para 12 ou 13 de outubro, estas organizações apelam à sua rejeição, pois a decisão estará a ser feita “com base numa avaliação de riscos e perigos deficiente, influenciada pela supressão de informações desfavoráveis dos estudos dos fabricantes e da literatura científica publicada”.

De acordo com a legislação da União Europeia sobre pesticidas, os fabricantes estão obrigados a declarar todos os estudos sobre os efeitos potencialmente nocivos das substâncias que produzem, quer os encomendados por elas quer outros que façam parte da literatura científica. É agora revelado que a autorização de produção de glifosato pela Bayer, atualmente em vigor, não tinha “a maioria das publicações que indicam os efeitos nocivos sobre o sistema nervoso (neurotoxicidade) do glifosato, incluindo um estudo epidemiológico que descobriu um risco maior de perturbações do espetro do autismo em crianças cujas mães foram expostas a glifosato durante a gravidez ou nos seus primeiros anos de vida”.

Considera-se “particularmente preocupante” que não se tenha partilhado com as autoridades europeias um estudo de neurotoxicidade desenvolvimental, encomendado pela Syngenta, que mostrava “que a exposição das mães ao glifosato durante a gravidez provocou uma perturbação comportamental significativa em ratos jovens”.

Estas organizações dão ainda a conhecer que esta queixa surge no seguimento de uma outra, apresentada ao mesmo órgão em julho de 2019 pelo advogado Josef Unterweger e que não tinha sido tornada pública “de forma a não perturbar a investigação”. Nesta já se detalhavam suspeitas de que “a Monsanto durante o processo de autorização anterior, apresentou erroneamente ou não revelou dados e resultados de estudos desfavoráveis para esconder os riscos de saúde associados ao glifosato”. No novo processo, de acordo com Unterweger, estar-se-á a repetir “esta abordagem”.

Exemplo disso é um e-mail interno da Monsanto que prova que a empresa encomendou um estudo em 2002 para convencer as autoridades alemãs de que a sua estimativa de absorção dérmica do glifosato era exagerada. O relatório interno do estudo, contudo, revelou um valor “significativamente maior” do que aquele que era estimado pelas autoridades alemãs. A Monsanto tratou de encerrar o estudo, temendo que pudesse “rebentar com a avaliação de risco do Roundup”, a marca de glifosato da empresa.

O estudo de neurotoxicidade desenvolvimental citado é também altamente problemático para a Bayer. De acordo com o bioquímico Helmut Burtscher-Schaden, da Global 2000, este “mostra efeitos nocivos numa dose que é atualmente considerada segura pelas autoridades”.

Para o toxicologista Angeliki Lysimachou, da Rede Europeia de Ação Contra os Pesticidas, “é profundamente alarmante observar as crescentes provas científicas que ligam o glifosato à neurotoxicidade. Porém, as empresas de pesticidas, numa violação flagrante das leis da União Europeia, esconderam dedos neurotóxicos decisivos sem repercussões.” O cientista e ativista culpa a Comissão Europeia e os Estados Membros que tenta agora manter o glifosato no mercado “ignorando as provas claras dos seus potenciais efeitos nocivos”.