Odemira: “A nossa saúde é muito mais importante do que os milhões dos frutos vermelhos”

23 de agosto 2021 - 23:13

A disputa autárquica em Odemira abriu a série de debates na RTP. O candidato bloquista Pedro Gonçalves diz que o território do concelho não aguenta a pressão criada pela agroindústria e foi o único a rejeitar o alargamento da área de cultivo.

PARTILHAR
Pedro Gonçalves, candidato do Bloco à Câmara de Odemira.
Pedro Gonçalves, candidato do Bloco à Câmara de Odemira. Imagem RTP.

No debate entre candidatos à Câmara Municipal de Odemira para as eleições autárquicas de 26 de setembro, os efeitos da presença da agricultura intensiva no concelho foram o tema dominante. O candidato do Bloco, Pedro Gonçalves, foi o único a sublinhar a oposição ao alargamento da área de cultivo previsto pelo Governo, naquilo a que chamou “último ato de Capoulas Santos” na pasta da agricultura do Governo.

“O Bloco tem a mesma posição desde há dez anos em Odemira: não é possível continuar com esta situação. O território do concelho de Odemira não tem condições para triplicar a agricultura intensiva que já existe”, defendeu Pedro Gonçalves. “Não temos água, os serviços públicos em Odemira estão esgotados. Dizem que temos 30 mil habitantes, mas quem está no terreno sabe que existe muito mais gente”, prosseguiu o candidato.

“A economia não pode estar acima das pessoas. Os milhões dos frutos vermelhos não podem estar acima da saúde dos odemirenses”, afirmou Pedro Gonçalves, chamando a atenção para o facto de que “há exploração na agricultura em Odemira e há violação dos direitos humanos em Odemira”. E quanto à riqueza gerada por estas empresas, “muito pouca fica no concelho”, havendo casos de empresas cujos impostos “são pagos na Holanda”.

“A nossa saúde é muito mais importante do que os milhões das empresas que só estão interessadas no lucro”, afirmou Pedro Gonçalves, criticando a “posição bastante dúbia” dos restantes partidos com assento na Assembleia Municipal - PS, PSD e CDU - face ao poder económico das empresas que promovem a agricultura intensiva em Odemira.

Para dar resposta à falta de habitação no concelho, Pedro Gonçalves insistiu que “temos de garantir que a Estratégia Local de Habitação não é capturada pelos senhores da agroindústria”, pois “o município não se pode responsabilizar por toda a habitação que a agroindústria quer colocar no terreno” . Aos contentores onde muitos trabalhadores são alojados, o candidato do Bloco chama-lhes “uma ilusão”, pois apenas existem "meia dúzia com condições" e são bem visíveis as más condições em que os migrantes vivem em Odemira, apontou.

Para alargar a oferta de habitação no concelho, o Bloco defende que seja feito o cadastro dos edifícios municipais devolutos com vista a recuperar esse edificado abandonado. Por outro lado, “há no concelho muito edificado privado abandonado que pode ser recuperado pelo município”, com este a cobrar depois as rendas "até o investimento estar pago". Para as freguesias do interior, a solução deve passar pela construção de novas habitações à medida das necessidades, defendeu o candidato do Bloco de Esquerda.

O impacto da pandemia  e das restrições impostas pelo Governo no turismo de Odemira foi outro dos temas abordados. ”Vimos o que aconteceu com o Zmar, com a cerca sanitária. Mas nunca ninguém nos explicou o porquê da cerca sanitária naquelas duas freguesias”, afirmou o candidato do Bloco, concluindo que “houve um grande desnorte" e que Odemira acabou por "pagar pela incúria do Governo" ao serem ali detetados os dois primeiros casos da variante Delta. "Houve uma tentativa de proteger a agricultura intensiva, esquecendo o resto do território”, resumiu Pedro Gonçalves.