O que está em jogo este domingo no Chile

16 de dezembro 2023 - 13:54

Em caso de vitória do voto A Favor no referendo sobre o processo constituinte, seria o terceiro triunfo eleitoral da direita em pouco mais de um ano e a preparação da plataforma de lançamento da campanha de José Antonio Kast. Por Paul Walder.

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Campanha pelo voto Contra em Valparaiso
Campanha pelo voto Contra em Valparaiso. Foto Valparaíso en contra/Facebook

Desde o início de dezembro, a divulgação de sondagens sobre o referendo de domingo, dia 17, está proibida. Até agora, todas as sondagens, utilizando as mais variadas metodologias, mostraram uma tendência de voto contra em proporções muito elevadas face ao voto a favor.

Apesar da aparente certeza destes registos, há ainda um espaço nebuloso: mais de metade dos inquiridos ainda não sabe ao certo em que votar nem o que é que se está a votar. Embora a proposta, um documento de 182 páginas que pode ser descarregado em PDF nos sites oficiais e distribuído na forma de livro em alguns centros cívicos e praças, ninguém, ou quase ninguém fora das elites, se deu ao trabalho de a ler ou de a analisar.

Como acontece nestes casos, a circulação da informação segue outros caminhos. A propaganda oficial via televisão em sinal aberto para ambas as opções é uma, os media tradicionais pressionam e, massivamente, as redes sociais secundam-nos. Desde o início da divulgação e propaganda, as sondagens registam uma tendência de subida do voto A Favor, um processo que tem circulado em silêncio desde o início do mês. No domingo 17 haverá, como aconteceu desde o início do processo constituinte, uma forte dose de incerteza.

As elites e as oligarquias já ganharam este processo. No caso de uma vitória da #AFavordeChile, assistiremos a uma cristalização do modelo neoliberal, juntamente com uma maior tendência conservadora que se expressa em direitos das mulheres mais limitados. O direito ao aborto nas três vertentes seria provavelmente, como alertado na campanha #EnContra pela ex-presidente Michelle Bachelet, suscetível de ser revogado na eventualidade não muito distante de um governo liderado por conservadores. Em caso de rejeição da proposta constitucional, a atual Constituição, com 43 anos, permaneceria em vigor.

A incerteza em torno dos resultados de domingo tem pelo menos duas origens. As eleições dos constituintes, em maio passado, deram um triunfo surpreendente, por eles nunca sonhado, à direita tradicional e à extrema-direita de José Antonio Kast. Se houvesse alguma racionalidade na política do século XXI, este eleitorado deveria votar a favor da proposta elaborada pelos seus eleitores. O problema, que divide analistas e cientistas políticos, é outro: não há coerência política porque não há filiação ideológica ou de classe, mas sim, de forma mais sociológica e complexa, clivagens temáticas. No plebiscito sobre a anterior proposta constitucional, realizado a 4 de setembro de 2022, o mesmo eleitorado que tinha votado numa convenção constituinte progressista, feminista e com fortes traços identitários, rejeitou claramente o texto que tinha sido redigido. Não é de excluir a repetição deste fenómeno.

A outra fonte de incerteza é o voto de castigo contra o governo do Presidente Boric. Foi o que aconteceu, dizem não poucos cientistas políticos, em setembro de 2022, entre outras coisas. Perguntamo-nos que relação tem a proposta de uma nova Constituição com a avaliação do governo. Pouco ou nada, diríamos nós. Mas quando se constata que há uma maioria de eleitores desinteressados, aborrecidos e politicamente ignorantes, que só vão votar por causa da ameaça de uma multa, as saídas deste cenário podem ser muito incertas. Há um grande segmento que não sabe do que se trata o evento de domingo e que vai aproveitar a oportunidade para castigar o governo. Esta é uma das explicações para o facto de as sondagens registarem uma maioria a votar #Contra.

A campanha #AFavordeChile baseou a sua estratégia de comunicação na inversão deste sentido: votar contra o crime, a corrupção e a imigração desenfreada, e contra o governo no final, é votar a favor desta constituição. Toda a campanha, com os indignados e os frustrados, aponta tangencialmente mas, em última análise, diretamente contra as clivagens mais sensíveis. A segurança, a corrupção, o controlo da imigração, todas as fraquezas e problemas associados ao governo, podem ser resolvidos com a proposta constitucional. Uma estratégia para desviar a raiva, a indignação e o medo da rejeição para um voto a favor.

O que está em jogo neste domingo? Para os que contestam a proposta, é a aprovação de uma constituição não só neoliberal e conservadora, mas pior do que a atual porque corta direitos conquistados pelas organizações após longos anos de esforço e luta. O Chile aprovaria uma nova constituição à medida da oligarquia e das elites, cujo alcance temporal poderia ser de algumas décadas a partir do dia 17. Um modelo regressivo e desigual cristalizado e lançado num futuro cada vez mais vago e crepuscular.

E há também a batalha política que aponta para 2025 com as eleições presidenciais e legislativas. Se a opção #AFavordeChile ganhar, seria o terceiro triunfo eleitoral da direita em pouco mais de um ano e a preparação da plataforma de lançamento da campanha de José Antonio Kast.

Paul Walder é jornalista e escritor chileno, licenciado pela Universidade Autónoma de Barcelona, colaborador do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE). Artigo publicado no site do CLAE. Traduzido por Luís Branco para o Esquerda.net.