O que a esquerda “decolonial” não quer ver na guerra da Ucrânia

10 de junho 2023 - 11:17

O campismo de esquerda não se limitou às correntes políticas soberanistas ou às que provêm de um marxismo obsoleto centrado unicamente no poder do capitalismo anglo-saxónico mas exprimiu-se também nos meios de comunicação social e em pensadores associados à chamada esquerda "decolonial". Por Pierre Madelin.

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Putin. Foto do NUSO.
Putin. Foto do NUSO.

Em 24 de Fevereiro de 2022, o exército russo invadiu a Ucrânia numa operação militar maciça destinada a decapitar rapidamente o poder ucraniano e a subjugar o país. Esta invasão brutal, rapidamente acompanhada de crimes de guerra e crimes contra a humanidade, deixou a esquerda mundial num estado de perplexidade. “Os ativistas, normalmente tão resolutos no seu apoio a todas as vítimas da guerra e do capitalismo, tornaram-se de repente extremamente matizados e 'reflexivos'”, comentou ironicamente o politólogo ucraniano Denys Gorbach no Lundimatin. De facto, uma parte importante da esquerda, seja na América Latina, na Índia ou em França, adotou posições ditas “campistas”.

“O que é o campismo?” perguntam-se os filósofos Pierre Dardot e Christian Laval. “É uma estupidez política com as consequências mais sinistras que consiste em pensar que só existe um Inimigo. Vamos defini-lo como um anti-imperialismo unidirecional. Da unicidade do Inimigo deriva esta conclusão irrefutável: aqueles que se opõem ao Inimigo têm direito, se não a bênçãos, pelo menos a uma justificação, com base no princípio de que os inimigos do Inimigo são, se não amigos, são pelo menos 'aliados objetivos' numa luta justa”. (Em O fracasso de um "anti-Imperialismo Unidirecional")

Um campismo decolonial

No entanto, há um ponto que talvez não tenha sido suficientemente sublinhado: o campismo de esquerda não se limitou às correntes políticas soberanistas ou às que provêm de um marxismo obsoleto centrado unicamente no poder do capitalismo anglo-saxónico mas exprimiu-se também nos meios de comunicação social e em pensadores associados à chamada esquerda "decolonial".

No mundo anglo-saxónico, o historiador Sandew Hira, coordenador da International Decolonial Network, apresentou a Rússia como vítima do Ocidente, a 26 de fevereiro, e chegou a comparar a diabolização de Vladimir Putin nos meios de comunicação ocidentais à diabolização das populações indígenas das Américas pelos teólogos nos primeiros tempos da colonização. Na esfera académica, várias figuras de proa dos estudos decoloniais, alguns dos mais influentes académicos da América Latina, como o português Boaventura de Sousa Santos e dois membros emblemáticos do grupo Modernidade/Colonialidade, o porto-riquenho Ramón Grosfoguel e o argentino Walter Mignolo, foram também ativos divulgadores dos clichés da propaganda russa. Sousa Santos, num artigo publicado a 10 de Março de 2022, refere-se à estratégia de “provocar a Rússia e neutralizar a Europa” implementada pelos Estados Unidos: “A Rússia foi provocada a expandir-se e depois criticada por o fazer”. Esta tese foi reiterada, em 23 de dezembro de 2022, numa entrevista em que afirmava que na Ucrânia havia “uma guerra entre os Estados Unidos e a Rússia”.

Grosfoguel, por seu lado, numa entrevista de 8 de março de 2022, foi ainda mais radical, falando de uma “guerra fabricada pelo imperialismo americano” e declarando que os Estados Unidos, com a ajuda de “milícias nazis”, tinham realizado um “golpe de Estado internacional para recuperar o controlo político, económico e militar da Europa”. Um mês mais tarde, quando a Ucrânia foi bombardeada e as primeiras imagens do massacre de Bucha chegaram aos olhos do mundo, voltou a evocar, fingindo lutar contra a censura do Estado profundo e dos grandes meios de comunicação social, “uma guerra fabricada nos Estados Unidos, que encorajou os neonazis da Ucrânia que estavam a levar a cabo um genocídio contra a população russófona da Ucrânia (…), o fantoche Zelensky (...) e um golpe de Estado internacional feito pelos Estados Unidos principalmente contra a China e os europeus, (...) que agora se torna uma neo-colónia gringa”. Mignolo, finalmente, embora não se tenha pronunciado publicamente (tanto quanto sei) sobre a invasão da Ucrânia em 2022, celebrou a anexação da Crimeia, em 2014, no seu blogue (a página já não existe). E, num artigo publicado em 2017, celebrou, comparando-a a um processo de descolonização, “a emergência de vários projetos de desocidentalização, incluindo: o ressurgimento político da China; a recuperação da Rússia da humilhação do fim da União Soviética, que lhe permitiu opor-se à ocidentalização da Ucrânia e da Síria e a cooperação do Irão com a China e a Rússia”.

Devo dizer que fiquei surpreendido ao descobrir estas intervenções, que reproduziam o discurso do Kremlin nos seus aspetos mais delirantes, pois parecia-me óbvio que a guerra de anexação conduzida pela Rússia, uma antiga potência imperial e colonial, deveria ter dirigido a solidariedade destes autores para a Ucrânia. A lógica do anticolonialismo ou do anti-imperialismo dita que os países ou povos que o sofrem devem ser solidários com os que sofrem noutro lugar, mesmo que seja sob o domínio de uma potência rival.

É claro que isto não significa que todos os autores associados aos estudos decoloniais tenham defendido posições semelhantes, nem que se rejeitem todas as ideias associadas a esta corrente. Chamar a atenção, como fazem os decoloniais, para os efeitos assimétricos persistentes das diferentes vagas de colonização europeia e de escravatura, tanto nas sociedades como nos ecossistemas terrestres, e sublinhar a dupla “divisão” colonial e racial no coração da modernidade capitalista, para além da simples divisão da sociedade em classes, não só é legítimo como necessário. Em muitos aspetos, parece pertinente, em diferentes contextos históricos e geográficos, estabelecer uma equivalência entre os pares “dominante/dominado” e “centro/periferia”, por um lado, e os pares “norte global/sul global”, “ocidente/resto do mundo” ou “branco/não branco (racializado)”, por outro.

Como explicar então a reação dos pensadores decoloniais que mencionei à guerra da Ucrânia? Num certo sentido, as posições antiamericanas destes pensadores, dois dos quais são latino-americanos, explicam-se pela responsabilidade dos Estados Unidos pela violência a que o seu continente foi sujeito no século XX, o que os leva espontaneamente a ver por todo o lado a “mão” da potência que apoiou tantas ditaduras, por vezes através de intervenções militares, nos seus próprios países.

Mas penso que esta reação se explica também pelo essencialismo das suas próprias elaborações do pensamento decolonial: a tendência para apresentar o Ocidente moderno, tal como foi afirmado desde 1492 e a conquista das Américas até aos nossos dias, aquilo a que Grosfoguel chama “o moderno sistema-mundo euro/norte-americano/capitalista colonial/patriarcal”, como um bloco inalterado e quase imutável. Assim, sob a bandeira da “episteme” colonial-moderna, agrupam-se “o capitalismo e o comunismo, a teoria política iluminista (do liberalismo e do republicanismo: Locke, Montesquieu) e a economia política (Smith), bem como o seu opositor, o socialismo-comunismo” (como teorizado por Mignolo). Quanto às tensões e contradições internas à história da Europa e das suas ideias, elas são simplesmente apagadas, como bem salienta Daniel Inclan. Inclan sublinha que não há lugar nestas reflexões para uma “dialética da Europa nos processos de colonização, já que é apresentada como uma unidade, como como uma substância maligna que se expande pelo mundo”.

Ocidentocentrismo invertido

Neste quadro, a análise de situações concretas parece dar lugar a uma metafísica da história em que um hiper-sujeito todo-poderoso detém o quase monopólio do mal no mundo, mas esta visão é obviamente inoperante para apreender a especificidade da guerra na Ucrânia. É claro que certos elementos desta guerra e dos seus efeitos deram a estes autores algumas razões para terem razão. Por exemplo, é evidente que o tratamento privilegiado dos refugiados ucranianos, não só em comparação com os refugiados sírios, afegãos e sudaneses que os precederam, mas também em comparação com os estudantes africanos e do Sri Lanka que viviam na Ucrânia e que foram rejeitados quando chegaram à fronteira polaca, resulta em parte de uma questão de privilégio racial. O mesmo se pode dizer de alguns comentários sobre os ucranianos em fuga do seu país serem descritos como “imigrantes culturalmente europeus” e de “alta qualidade”, ou do facto de a causa ucraniana ter beneficiado de visibilidade mediática e de um apoio diplomático, económico e militar significativo por parte das potências ocidentais, sintomático de uma indignação hierárquica em termos de respeito pelo direito internacional.

Mas a crítica legítima a estes dois pesos e duas medidas não pode, por si só, explicar, e muito menos justificar, a falta de apoio à mobilização de massas da sociedade ucraniana face à agressão russa. Esta falta de solidariedade deve também ser entendida à luz das limitações inerentes ao pensamento destes mesmos autores. Ao oporem “a pele e as localizações geo-históricas dos migrantes do Terceiro Mundo à pele dos 'europeus nativos' do Primeiro Mundo” (Mignolo), ao afirmarem que “a epistemologia tem cor” (Grosfoguel) e que “o sistema-mundo remete para uma articulação espacial do poder” (Mignolo) em que o fundamentalismo eurocêntrico e a sua extensão norte-americana ocupam um lugar central que nada parece poder pôr em causa, dão a impressão de postular uma equivalência quase ontológica entre os pares “dominante/dominado” e “centro/periferia” e os pares “Ocidente/Sul Global” e “branco/não-branco”. Embora esta tese seja, em muitos aspetos, historicamente relevante (e permaneça válida atualmente em muitos contextos sócio-políticos), torna-se extremamente problemática quando assume a forma de uma tese essencializante e totalizante. Nesse caso, torna-se incapaz de captar a historicidade específica de muitos dos principais acontecimentos do nosso tempo, que não fazem necessariamente parte da continuidade da história colonial e imperial europeia.

O simplismo historiográfico, o maniqueísmo permanente, o essencialismo de uma visão culturalista e o provincianismo latino-americanista estão, assim, entre as razões das suas reações, a que se junta “uma aparente crítica do eurocentrismo que, na realidade, esconde um ocidentalismo férreo”, como Pierre Gaussens e Gaya Makaran bem demonstraram. O paradoxo é que o pensamento destes autores, cuja primeira e perfeitamente legítima vocação foi a de criticar o “eurocentrismo”, é muitas vezes profundamente eurocêntrico e ocidentalocêntrico quando se propõe compreender o presente. A antiga celebração do Ocidente e da sua “missão civilizadora” foi retirada para dar lugar à denúncia incessante dos seus males, sem que a sua centralidade, mesmo quando já não corresponde inteiramente às evoluções do mundo contemporâneo, seja alguma vez verdadeiramente refutada.

Este ocidentalismo invertido encontra-se mesmo na cultura histórica de Grosfoguel e Mignolo. Se a longa história das intervenções americanas no mundo lhes é bem conhecida e constantemente recordada, uma estranha amnésia parece rodear a igualmente longa história das intervenções soviéticas em muitas das suas periferias, para não falar dos crimes maciços perpetrados na Ucrânia, como o Holodomor ou a deportação dos tártaros da Crimeia. Esta falta de conhecimento não lhes permite acomodar a diversidade das histórias coloniais e dos seus legados. Neste sentido, um decolonialismo policêntrico poderia ser uma perspetiva frutuosa.

É claro que, ao contrário dos impérios coloniais espanhol, britânico ou francês, que se desenvolveram essencialmente em territórios “distantes”, o colonialismo russo foi um colonialismo de “proximidade”. É provavelmente por isso que é menos percetível à primeira vista, uma vez que os territórios integrados no império, desde o século XVII até ao fim da Segunda Guerra Mundial, foram conquistados em camadas sucessivas, na periferia imediata do núcleo territorial inicial. E embora alguns destes territórios tenham sido emancipados do controlo soviético, após a queda da União, as sequelas desta longa história colonial ainda estão vivas, especialmente no Cáucaso e na Ásia Central. Além disso, nos primeiros meses da guerra, foram as minorias étnicas da Federação Russa, em particular os buriates e os iaques, que pagaram o preço mais alto no campo de batalha ucraniano, enquanto as classes médias brancas de Moscovo e S. Petersburgo saíram relativamente ilesas.

Uma confluência perigosa

Mas se fosse apenas uma questão de falta de complexidade na análise, as coisas não seriam tão graves. O problema é que este reducionismo conduz a uma preocupante cegueira perante a natureza e a diversidade das ameaças que hoje enfrentamos, quando não conduz à complacência ou à cumplicidade ativa com regimes autoritários. Nesse sentido, parece ser tempo de admitir que já não vivemos num sistema-mundo monocêntrico, se é que tal sistema alguma vez existiu, em que o “Ocidente branco”, sozinho, atravessado apenas por rivalidades internas à sua suposta dinâmica e essência, ocuparia a posição hegemónica, mas num sistema-mundo policêntrico, em que a violência autoritária, nacionalista e racista pode surgir em todo o lado, sem que seja provocada, em última instância, pelo “Ocidente”.

É claro que as potências ocidentais continuam a gozar de muitos privilégios e a beneficiar de trocas económicas e ecológicas imperialistas e desiguais. É claro que o etno-nacionalismo e o supremacismo branco ganharam novo terreno nos Estados Unidos ou em França, onde a ansiedade pela “Grande Substituição” é galopante. Mas há também a ameaça do nacionalismo russo, cuja violência desenfreada pode ser medida hoje na Ucrânia (e ontem na Chechénia e na Síria), do etno-nacionalismo e supremacismo hindu na Índia de Narendra Modi, que já é mortal para os muçulmanos vítimas de pogroms ou para as populações indígenas, e do etno-nacionalismo e supremacismo Han na China, que oprime populações como os uigures.

No entanto, o pensamento de autores decoloniais que denunciam um fetiche chamado “Ocidente”, acusado de ser a fonte de todos os males do mundo, ao assimilar sem nuances um compromisso com os “direitos humanos (...), com conceções imperiais globais e a hierarquia étnico-racial global entre europeus e não-europeus” (Grosfoguel), ressoa infelizmente com a ideologia e a propaganda destes regimes políticos que tendem a apresentar a sua cruzada contra um Ocidente “decadente” como um processo de descolonização da ordem mundial.

Assim, Putin, no seu discurso de 27 de outubro de 2022, enumerou a longa lista de malfeitorias cometidas pelo “Ocidente” ao longo da sua história: o tráfico de escravos, o extermínio dos nativos americanos, a exploração dos recursos em África e na Índia, as guerras coloniais, os bombardeamentos dos Aliados contra as cidades alemãs, a destruição de Hiroshima e Nagasaki, as guerras da Coreia e do Vietname, etc. A Rússia "nunca aceitará o diktat do Ocidente agressivo e neocolonial” e os planos dos europeus, da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), dos países anglo-saxónicos e dos Estados Unidos para impor no mundo “o totalitarismo, o despotismo e o apartheid”, “o nacionalismo e o racismo”. Por fim, concluiu: “Eles não querem que sejamos livres, querem que sejamos uma colónia”.

“O nosso país não manchou a sua reputação com os crimes sangrentos do colonialismo e sempre apoiou sinceramente os africanos na sua luta para se libertarem do jugo colonial”, acrescentou Sergei Lavrov, o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, durante uma visita diplomática a África. Recep Tayyip Erdoğan, o autoritário presidente turco, é autor de um livro “em que a visão de um mundo injusto e binário brilha em cada página: de um lado, o Ocidente, os países colonizadores e imperialistas, cegos pelos seus privilégios; do outro, os muçulmanos oprimidos”. Na Índia, os filósofos Shaj Mohan e Divya Dwivedi mostraram que existe uma convergência entre certas teorias pós-coloniais e o ultranacionalismo hindu, unidos na mesma denúncia do carácter “eurocêntrico” dos direitos humanos e das reivindicações feministas. E, claro, na China, o mesmo acontece com Xi Jinping e o Partido Comunista Chinês para quem o Ocidente e os seus “valores” são agora o alvo preferencial.

Voltando mais precisamente à propaganda do Kremlin, é preciso ver que ela joga, de facto, a dois níveis. Para agradar à direita e à extrema-direita, que partilham com Putin o desejo comum de liquidar o legado da modernidade política nos seus aspetos emancipatórios e democráticos, para dar lugar a um mundo em que todas as formas de dominação serão livres de se exprimir sem qualquer contrapeso e em que toda a oposição será esmagada por um regime de terror, defende a tradição e a autoridade, sublinhando a decadência moral do Ocidente sob o efeito combinado dos “invasores” migrantes do Sul e da perda de virilidade induzida pelo feminismo e pelos movimentos LGBTI+. Mas, para seduzir muitos países do Sul e certas franjas da esquerda, apresenta-se como uma potência anti-imperialista e anticolonialista, capaz de oferecer um contrapeso à hegemonia dos Estados Unidos. Isto é obviamente grosseiro quando se conhece a longa e ainda inacabada história do colonialismo russo acima mencionada, mas funciona até certo ponto.

Ao acusar a NATO de ser a responsável pela guerra e ao opor-se ao fornecimento de armas em nome de um pacifismo falsamente virtuoso, certos sectores da esquerda parecem convencidos de que um pouco de “equilíbrio de poderes” e de “multipolaridade” não seria mau.

Assim, por ingenuidade ou por estarem presos em bolhas ideológicas, estas esquerdas contribuem involuntariamente para a atual brutalização do capitalismo e para o advento do mundo sonhado pela extrema-direita e por todas as forças iliberais. Obviamente, o ideal de um mundo multipolar pode ser desejável, mas, no contexto atual, é evidente que não conduziria – infelizmente – a uma maior autonomia, liberdade e justiça para os povos do mundo, e muito menos a uma redução da pressão extrativa e produtiva cada vez mais infernal sobre a Terra. Pelo contrário, seria um mundo em que os blocos geopolíticos mais poderosos reconheceriam o direito de preservar ou restabelecer internamente as ordens sociais mais brutais e desiguais, se necessário perpetrando toda a espécie de crimes hediondos sem censura, enquanto gozam de uma esfera de influência submissa na sua periferia que não é contestada pelos outros blocos. Em suma, um mundo em que cada potência poderia fazer os seus “pequenos massacres” a seu bel-prazer e em que toda a frágil arquitetura normativa das relações internacionais construída ao longo de décadas, assente, apesar das suas imensas imperfeições e hipocrisias, numa referência de princípio ao respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais, seria liquidada.

Num texto notável, “Multipolaridade, esse mantra do autoritarismo”, a feminista indiana Kavita Krishnan pôs claramente em evidência a convergência objetiva entre certas críticas de esquerda ao “Ocidente” e a ideologia dos regimes nacionalistas e autoritários que procuram desacreditar qualquer referência ao universalismo, à democracia e aos direitos humanos em virtude da sua “essência” supostamente ocidental e, portanto, colonial, encobrindo assim a sua vontade de destruir a democracia a pretexto da luta contra o imperialismo.

Decolonialismo policêntrico

O que é que podemos concluir desta confluência entre as posições de certos representantes de uma das correntes mais proeminentes da esquerda radical contemporânea, espontaneamente associada ao campo da emancipação, e a retórica de alguns dos piores regimes políticos do nosso tempo? Em primeiro lugar, digamos que soa a um aviso: é melhor não ceder a nenhuma teoria essencialista das relações de dominação política e adotar abordagens circunscritas e historicizadas; uma historicização que, por sua vez, poderia levar-nos ao decolonialismo policêntrico.

Este último ajudar-nos-ia a compreender, para além da relação entre a Europa Ocidental e as suas antigas colónias, a situação específica dos espaços pós-soviéticos, como fizeram os investigadores ucranianos Adrian Ivakhiv e Hanna Perekhoda. Curiosamente, há muito empenhados numa luta contra o capitalismo e o Estado mexicano, os zapatistas não cederam ao campismo e, a 13 de Março de 2022, marcharam pelas cidades de Chiapas em apoio à resistência ucraniana e ao grito de “Fora Putin!” Ao renunciar às abordagens culturalistas da dominação, seria também possível concentrarmo-nos na análise das diferenças políticas entre os Estados que se confrontam hoje na cena internacional, e escapar assim ao relativismo de todos aqueles que parecem convencidos de que “na noite do capitalismo tardio, todos os regimes são cinzentos”.

Evidentemente, não devemos ceder à retórica do “mundo livre”, empunhada pelas elites neoliberais que se apresentam, não sem uma grande dose de hipocrisia, como defensoras de “valores” que não cessam de violar, abandonando os migrantes no Mediterrâneo e, por vezes, povos inteiros, como na Síria, à sua aniquilação programada. No entanto, é importante reconhecer que a guerra de libertação nacional ucraniana é também um confronto entre uma ditadura criminosa, cujo único futuro é a multiplicação de ruínas e valas comuns, e um regime em que a arbitrariedade do capitalismo e do Estado é contrariada por instituições e contrapoderes (sociais, mediáticos, intelectuais) que garantem um mínimo de vida democrática e de Estado de direito, para que os avanços emancipatórios sejam possíveis e o futuro esteja aberto à contestação.

O historiador Taras Bilous, nascido em Lugansk, a quem deixo a última palavra (“La démocratie ukrainienne, loin d'être parfaite, mérite d'être protégée du régime parafasciste de Poutine”), salienta a este respeito que, se fosse iraquiano, em 2003, teria condenado a agressão dos EUA, mas não se teria arriscado a defender o regime de Saddam Hussein. No entanto, como ucraniano, em 2023, alistou-se sem hesitar nas forças de defesa territorial para defender “a frágil democracia ucraniana que, longe de ser perfeita, merece ser protegida do regime para-fascista de Putin”.


Pierre Madelin é ensaista e tradutor. Cresceu em Cuba e Paris e viveu em San Cristóbal de Las Casas (México). Estudou Filosofia na Universidade de Paris (Sorbonne) antes de se tornar tradutor especializado em "Humanidades ambientais".

Publicado originalmente no Nueva Sociedad, republicado em Correspondencia de Prensa. Traduzido por António José André para o Esquerda.net.