Tarifas ao Brasil

O programa de Trump de proteção a ditadores

11 de julho 2025 - 12:22

Se ainda tivéssemos uma democracia a funcionar, esta jogada do Brasil seria, por si só, motivo para uma destituição.

porPaul Krugman

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Donald Trump
Donald Trump. Foto Casa Branca/Facebook

Não costumo fazer posts noturnos. Um por dia ao pequeno-almoço é, penso eu, suficiente ou mais do que suficiente. Mas a última carta de Trump, impondo uma tarifa de 50 por cento ao Brasil, marca um novo ponto de partida, e penso que merece um boletim especial. Afinal de contas, é simultaneamente maléfica e megalómana.

Aqui está a primeira página:

Carta de Trump a Lula da Silva
Carta de Trump a Lula da Silva

Reparem que Trump mal finge que existe uma justificação económica para esta ação. O que está em causa é punir o Brasil por ter levado Jair Bolsonaro a julgamento.

Bolsonaro, como a maioria dos leitores provavelmente sabe, é o anterior presidente do Brasil, que perdeu as últimas eleições - mas tentou manter-se no poder através de um golpe que anulou essas eleições. Claro que isso soa familiar.

Esta não seria a primeira vez que os Estados Unidos utilizariam a política tarifária para fins políticos. Pelo contrário, o sistema de comércio internacional que criámos após a Segunda Guerra Mundial foi, em parte, motivado pela convicção dos responsáveis dos EUA de que o comércio, para além de ser economicamente benéfico, era uma força de paz e reforçaria a democracia em todo o mundo. Provavelmente tinham razão e, de qualquer forma, era um objetivo nobre.

Agora Trump está a tentar usar as tarifas para ajudar outro aspirante a ditador. Se ainda pensavam que a América era um dos bons da fita, isto diz-vos de que lado estamos hoje em dia.

Porque é que eu digo que é megalómano? O Brasil tem mais de 200 milhões de habitantes. Eis para onde vão as suas exportações:

Exportações do Brasil
Percentagem dos países de destino das exportações do Brasil

Essas exportações para os EUA representam menos de 2% do PIB do Brasil. Será que Trump pensa mesmo que pode usar tarifas para intimidar uma nação enorme, que nem sequer é muito dependente do mercado dos EUA, a abandonar a democracia?

Portanto, como eu disse, malvado e megalómano. Se ainda tivéssemos uma democracia a funcionar, esta jogada do Brasil seria, por si só, motivo para uma destituição. Claro que teria de esperar na fila atrás de todos os outros motivos.

Seja como for, não encolham os ombros a isto. Estamos a assistir a mais um passo terrível na espiral descendente da nossa nação.


Publicado por Paul Krugman na sua página Substack.

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Sobre o/a autor(a)

Paul Krugman

Economista