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O livro, os dias: memória, tecnologias, encontros

No dia do livro é importante lembrar que esta velha inovação da humanidade perdura e se reinventa entre as relações das gentes com o objeto. O livro reflete quem o criou e para quê. Quem o lê, o destrói, o acarinha, o transmite ou censura evidencia o poder que ele pode encerrar. Se nenhuma pessoa é uma ilha, nenhum livro é apenas uma coisa. “O livro muda a história que o muda”, diz Fernando Báez em Os Primeiro Livros da Humanidade. Por Paula Sequeiros
Foto disponível em http://forcolaediciones.com/producto/los-primeros-libros-de-la-humanidad/

Como tecnologia da memória, o livro foi incorporando sucessivos contributos de povos dos mais diferentes pontos do globo, embora nas Histórias mais ou menos oficiais possa ser sacado para contar apenas a história de um só lado: a China onde se inventou o papel e a tinta, o Mali onde existiu a primeira universidade do mundo e se preserva a cultura do El-Andalúz, “a outra Espanha”. No México, onde foi usado de modo singular pelos mixtecas e maias para conservar em imagens as histórias de deuses e humanos, clama-se contra o roubo desses códices que ainda hoje estão na Europa, todos. Os livros sempre foram grandes viajantes, saltam fronteiras com ou sem licença, conversam entre si rindo-se das diferenças nas linguagens.

Com a escrita, o livro transformou-se na memória coletiva “de uma dezena de civilizações fundadoras”: a escrita sendo “corte, separação, distinção”, veio a ligar humanos díspares e às vezes antagónicos, sendo o homo a única espécie animal que escreve. E como diz Báez, “se isto não é incrível, não sei o que possa sê-lo”.

Neste dia do livro, uma evocação e um reconhecimento a quem, contra ventos e marés, tem dedicado a sua vida à preservação da memória humana contida nos escritos em vários pontos do mundo, um perito, um ativista, um professor: Fernando Báez

Neste dia do livro, uma evocação e um reconhecimento a quem, contra ventos e marés, tem dedicado a sua vida à preservação da memória humana contida nos escritos em vários pontos do mundo, um perito, um ativista, um professor. Dou-lhe a palavra, a partir do seu mais recente livro citado acima: “Essa ideia de que o livro era algo mais do que uma estrutura física, que era uma máquina para pensar capaz de proteger a memória coletiva ou individual, culminou no êxito de algumas metáforas poderosas que não podem ser desapreciadas: o livro passou a ser um talismã, um arquivo de vida, um reflexo da natureza como parte dum espelho perdido, um símbolo do mundo ou o próprio mundo, a versão de um código da vida como o genoma da cultura, um sonho individual ou solitário e um perigo para os tiranos”.

Hoje há mais livros do que nunca, continua haver homens com poder suficiente para os destruir com sistema e implacabilidade e, contrariamente ao que se poderia pensar, precisamente porque eles sabem o seu valor, não por serem incultos ou ignorantes. E continua a haver quem se emocione e rejubile intelectualmente porque leu o que lhe faltava, sentiu o que procurava, continua a haver quem se frustre porque não sabe ler.

Para Báez há quatro grandes livros que marcaram a História da humanidade: a Ilíada de Homero, A cabana do Pai Tomás de Harriet Beecher Stowe, a Origem das Espécies de Charles Darwin e o Manifesto Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels – em todo o mundo. Deixo aqui algumas hiperligações, lamentando não ter achado o caminho para traduções para português, em Acesso Aberto, que permitissem uma leitura cómoda e alargada. Ficam contudo pistas para futuras descobertas e achados, ainda que noutras línguas. Fica a espera pela tradução de Los primeros libros de la Humanidad para português e a sugestão da leitura de algo que é simultaneamente um manual, uma História, um longo conto.

Cada uma de nós terá os livros que não esqueceu mais, como companheiros ao longo da vida.

A 40 anos de Abril, como o pensaríamos sem livros, quantos livros escritos neste outro abril que agora vivemos? Quantos mais livros passados em testemunho, em desafio, em luta? Que livros nos revolucionam e fazem sonhar?

A 40 anos de Abril, como o pensaríamos sem livros, quantos livros escritos neste outro abril que agora vivemos? Quantos mais livros passados em testemunho, em desafio, em luta? Que livros nos revolucionam e fazem sonhar?

E mais livros ainda, esses que temos e teremos de resgatar da destruição e do esquecimento, porque o digital é tecnologia não é garante da preservação. Preservar é política, a tecnologia da memória é nela que se apoia, se acoita ou se faz esquecida.

Bom dia do livro, boas leituras, criemos boas políticas para o livro.

Artigo de Paula Sequeiros.

Tradução própria a partir de excertos do original em espanhol. Em artigos relacionados pode aceder a artigos de e sobre Fernando Báez publicados no Esquerda.net

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Sobre o/a autor(a)

Investigadora em sociologia da cultura
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