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“As maravilhas perdidas do mundo”

O livro recém lançado de Fernando Báez, “As maravilhas perdidas do mundo”, é um grito de apelo a congregar forças em torno da defesa da cultura de toda a humanidade, como bem comum de importância superior. O autor foi entrevistado por Silvia Isabel Gámez, para o Reforma.com.

O chamado Apocalipse Maia serviu para lembrarmos como culturas ancestrais continuam a ser abusadas e mal interpretadas. Neste início de século, findos na Europa os colonialismos antigos, o Outro, fora dos nossos próprios paradigmas culturais, é ainda usado de forma mais do que simplista, realmente simplória, como protagonista dum passado mítico e/ou folclorizado. Passado esse lhanamente criado, mas também orientado para a crença de que o nosso presente é o único possível e razoável, se não mesmo o único racional.

Fernando Báez, autor e assessor da UNESCO, toma agora a polémica em torno do Apocalipse para o usar de uma outra perspetiva e com um outro fim: o de o usarmos para questionar o que sobra para o futuro, não necessariamente da cultura do Outro, mas da nossa mesma, da cultura de cada povo. O percurso presente para que aponta, do mito à ruína, é marcado pela destruição cultural por ação das grandes potências dominantes no momento histórico. Em contexto bélico elas são tão seletivas nos alvos a atingir entre os bens culturais como seletivas são com os típicos objetivos militares. A lógica e os resultados desta destruição cultural não casual, mas intencional e planeada, diferem apenas daqueles por serem mais desconhecidos e, com isso, menos reconhecidos e eventualmente menos contestados. Nesta forma de destruição cultural, entendida como eugenista e homogeneizadora, ganha base esta outra reivindicação cultural: a da preservação da diversidade e da riqueza do património cultural da humanidade.

O livro recém lançado de Báez, “As maravilhas perdidas do mundo”, é um grito de apelo a congregar forças em torno da defesa da cultura de toda a humanidade, como bem comum de importância superior.

Na sequência do seu lançamento, Silvia Isabel Gámez entrevista Báez para o jornal eletrónico mexicano Reforma.com, em 21 de dezembro 2012 que se transcreve. (Apresentação de Paula Sequeiros).

O Apocalipse traz reflexão cultural

“O fim do mundo foi anunciado pelo menos 30 000 vezes pelos grupos cristãos que interpretaram mal o texto bíblico do Apocalipse”, diz o investigador venezuelano Fernando Báez. Mas, em Megido, o cenário em que ocorrerá o Juízo Final segundo São João, restam apenas ruínas de antigos palácios e muralhas.

Considera que a data do “Apocalipse Maia” deveria levar a refletir sobre a advertência que representa o colapso que sofreram as antigas cidades desta civilização e que se poderia repetir hoje nas grandes metrópoles por não se tomarem a tempo medidas preventivas.

Sem perseverança e vontade, escreve em “As maravilhas perdidas do mundo”, dentro de um século a catástrofe cultural da humanidade será irremediável.

"A História é um cemitério de culturas e civilizações que pensaram que seriam eternas, mas os desastres naturais e as guerras reduziram-nas a meras ruínas", afirma numa entrevista.

Estima-se que 50 por cento da memória do mundo se tenha perdido. Traduzindo em números, são 650 culturas desaparecidas nos 5 continentes, 30 civilizações desmoronadas e 100 impérios extintos num período de 8000 anos.

“Se aceitamos que o Homo habilis tem cerca de 2,5 milhões de anos e o Homo sapiens sapiens desenvolveu a escrita há uns poucos milhares de anos, quer dizer que a humanidade tem 99 por cento de pré-história e um por cento de história escrita. E o que sabemos da pré-história reduz-se a 30 por cento de achados quase todos casuais. Perdemos a pista de nós próprios. É incrível que não estejamos atentos a estes fenómenos”.

Báez encerra com “As maravilhas perdidas do mundo” ([da editora mexicana] Oceano) uma pentalogia dedicada ao tema da destruição cultural, que abordou anteriormente em “História da antiga Biblioteca de Alexandria”, “História Universal da Destruição dos Livros”, “A destruição cultural do Iraque” e “O saque cultural da América Latina”.

As catástrofes causaram também o desaparecimento de milhares de espécies. Segundo os biólogos, observa ele, existem atualmente 1,5 milhões de espécies descobertas, que representam apenas um por cento do que se conseguiu salvar da extinção desde o início da vida no planeta há 4 mil e 400 milhões de anos.

"Isso significa que 99,9 por cento dos seres vivos desapareceu de forma natural ou por calamidades, a maioria sem deixar rasto da sua forte presença.”

Antes de escrever este livro, diz Báez, não imaginava a magnitude das catástrofes culturais que tiveram lugar em diferentes épocas.

"Estar em tantos locais em ruínas nos cinco continentes, em Merv, no Turcomenistão, ou no porto de Biblos, no Líbano, foi uma sorte de tipo déjà vu ontológico em cada oportunidade. A experiência deixou-me exausto e nunca mais voltarei a ser a mesma pessoa."

“As maravilhas do mundo perdido” reúne, na opinião do seu autor, casos paradigmáticos de colapso, queda ou destruição de civilizações, idiomas, escritas e obras de arte desde a Antiguidade até ao presente momento, com base nas suas viagens e leituras.

Desde o Paleolítico até ao Afeganistão, diz Báez, foram destruídos os símbolos da memória coletiva dos vencidos. "Não é o suficiente eliminar o adversário, é preciso dominar os sobreviventes, fazê-los entediar-se com o seu próprio passado, transculturizá-los. Um povo sem memória é como uma pessoa amnésica, é presa fortuita de quem o cerca".

Como as guerras, têm sido mortais os desastres naturais, que pela sua recorrência constituem um desafio para os programas de proteção do património cultural.

O "Tesouro de Benghazi", com milhares de peças arqueológicas, foi roubado na Líbia, e na Síria e em Timbuktu existe a ameaça do desastre cultural, o que torna necessário, diz, uma maior participação da comunidade cultural internacional.

Báez duvida da existência de cadeados confiáveis nosmuseus para impedir a aquisição de bens produto de pilhagem cultural ou falsificação.

"A maioria das melhores coleções dos grandes museus da Europa e América têm um prestígio comprado ilegalmente ou roubado. O Museu Britânico e o Louvre são o equivalente a uma Homenagem ao Saque Cultural no Mundo".

O seu livro “A Destruição Cultural do Iraque”, resultado da visita que fez ao país árabe em 2003, encomendado pela UNESCO para investigar os danos nas suas bibliotecas e museus, significou para Báez uma "caçada" promovida pelos Estados Unidos a qual, tal como tem relatado, resultou na perda de contratos e até mesmo em ameaças de morte. Agora confia que a sua pentalogia possa sensibilizar os leitores sobre a urgência de retomar a temática da defesa da memória.

“Nunca serei perdoado por ter denunciado a destruição cultural causada pelos EUA no Iraque. Nunca. Mas, longe de ser um problema, é um estímulo. Como esse génio que foi Mario Benedetti: '... A história tange sonora / A sua lição como um sino / Para aproveitar o amanhã / Há que lutar neste agora'”.

 

Tradução de Sónia Passos

Entrevista original de aceso livre no Reforma.com

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