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O assalto à nova Biblioteca de Alexandria

Tudo aconteceu numa quarta-feira quente, com brisa leve, estando no Egito 83 milhões de habitantes polarizados e desconcertados perante o rumo incerto que seguiu a transição política, iniciada na Praça Tahrir e que encheu de esperança os admiradores da Primavera Árabe, agora transformada num verão sangrento. Artigo de Fernando Báez, publicado no La Vanguardia.

Não era a primeira vez, mas provavelmente também não será a última. A 14 de agosto, enquanto morriam quase 700 seguidores do deposto Presidente Mohamed Morsi no Cairo, um grupo desfilava disperso nas proximidades da biblioteca de Alexandria para exprimir o seu descontentamento contra o governo interino do General Abdul Fath Al-Sisi que tomou o poder em 16 de julho.

Alguns bibliotecários tinham sido avisados de possíveis incidentes impulsivos; em 2011 eles tiveram que proteger o lugar, usando escudos humanos para salvar as estantes da depredação, durante duas semanas. Uma medida extrema que não se conseguiu repetir nestes dias, porque a surpresa é sempre órfã e hoje predomina uma enorme divisão entre os trabalhadores e o diretor Ismail Serageldin, uma autoridade que sobreviveu ao colapso de Hosni Mubarak.

Tudo aconteceu numa quarta-feira quente, com brisa leve, estando no Egito 83 milhões de habitantes polarizados e desconcertados perante o rumo incerto que seguiu a transição política, iniciada na Praça Tahrir e que encheu de esperança os admiradores da Primavera Árabe, agora transformada num verão sangrento.

Às ruas de Alexandria, a segunda cidade mais importante, chegavam notícias dos confrontos na capital e noutras regiões, enquanto a raiva acumulada aumentava; já se sabia que algumas frações, por vingança, haviam ateado fogo a 23 mosteiros e igrejas de cristãos coptas nos distritos de Delga, Deir Mawas e Minya. No Suez queimaram as Escolas Católicas e Franciscanas; em Luxor, lojas com objetos cristãos. O prelúdio de uma guerra civil, religiosa e étnica, como o da Síria ou do Mali.

Após uma primeira tentativa fracassada, sucedeu o inevitável durante a tarde, quando se soube que algumas mesquitas como a de Rabaa al-Adawiya ardiam em chamas e que uma multidão começou a vandalizar o edifício moderno da Maktabat al- Iskandarīyah ou Bibliotheka Alexandrina; pintaram graffiti nos muros, atravessaram a praça central, partiram os quiosques das livrarias próximas, chegaram à Sala de Conferências, destruíram o que encontraram no seu caminho e começaram a atirar pedras aos vidros da entrada principal.           

Contra toda a lógica, o eco que precedeu o grito; alguns polícias caíram feridos e foi então que se tornou possível compreender que alguns manifestantes estavam a disparar e a causar o pânico, até que as forças de segurança conseguiram deter os distúrbios impedindo a queima das coleções. Já na madrugada permaneceu apenas uma biblioteca fantasma, rodeada por blindados antimotim, centenas de polícias e instalações fechadas, cheias de detritos, fumaça, pedras e vidros.

Na cidade e no resto da comunidade internacional seguidores entusiastas rebentaram em lágrimas pensando o que poderia acontecer e que, infelizmente, pode continuar  a passar-se porque a luta está só na sua infância e a desestabilização é maior sem mediadores nem diálogo.  De facto, a confirmação do pior foi que a denúncia de 15 de agosto feita pelo ministro do Conselho das Antiguidades, Mohamed Ibrahim, o qual assinalou que o Museu do Malawi tinha sido saqueado, arrasado e bens culturais incríveis retirados. É conhecido, com informações a partir de fontes da Interpol, que bandos criminosos globais se aproveitam da situação para realizar saques maciços de antiguidades nos assentamentos, como já fizeram no Iraque ou na Síria, Iémene e Afeganistão.

O temor que existe não é infundado, além do mais, porque o Egito, à sua própria maneira, é uma antologia da história da humanidade. Do Egito saíram papiros, como saiu Moisés para o exílio, para divulgar Homero e Aristóteles; de lá veio a criação do códice[i]. No Egito se traduziu a Bíblia para o grego e se concluiu a elaboração da primeira versão canónica. No Egito se mediu o tamanho da terra e Cláudio Ptolomeu propôs o modelo do universo que se manteve em vigor até Copérnico.

Durante a era dos faraós, 30 Dinastias ergueram monumentos como a Grande Pirâmide, que se manteve por 4500 anos como o edifício mais alto da terra e a única das sete maravilhas antigas que resistiu. Nestes pontos, que deveriam ser turísticos, as Pirâmides e a Esfinge foram abandonados por visitantes e arqueólogos em fuga em busca de refúgio.

É curioso, mas o país que hoje se associa com a melhor biblioteca clássica foi o primeiro cemitério de livros do mundo: a Geniza do Cairo, um espaço na sinagoga para armazenar manuscritos ou cópias com versos ou textos sagrados, danificados por acidentes, desgaste ou danos por insetos.

Outro motivo para cautela e desconfiança é o passado recente de devastação. Ainda está fresco na memória dos leitores que a 18 de dezembro de 2011 foi incendiado o edifício da Academia das Ciências, que albergava 200.000 materiais desde o século 18 e obras como Description de l’Égypte[ii].

A agressão recente contra a nova biblioteca de Alexandria, não foi apenas contra uma instituição mas sim contra um conceito de conhecimento compartilhado que hoje tem o seu melhor reflexo na Internet. Talvez conviesse, por isso mesmo, lembrar que a estrutura atual, oficialmente inaugurada em 2002, foi uma homenagem, concebida entre o povo egípcio e a UNESCO, à biblioteca singular que existiu na cidade e que prestava tributo ao conquistador Alexandre o Grande, a mais famosa e a maior durante séculos.

Também, é verdade, foi um dos lugares mais perseguidos e atacados em todas as suas etapas. A primeira biblioteca foi criada por Demétrio de Falero no século 3 A.C. Num momento inicial, o rei Ptolomeu acreditava que podia reunir 500.000 rolos de papiro, mas esse magnífico esforço foi ensombrado por uma sucessão interminável de fogos ou assassinatos: o fundador foi assassinado assim como a bibliotecária e matemática Hipátia.

Existe uma controvérsia, ainda em vigor, sobre se a biblioteca foi destruída pelos cristãos ou pelos árabes. E, claro, não falta sequer uma lenda como em toda boa crónica. Aparentemente, o comandante que conquistou o Egito perguntou a Omar I o que fazer com os livros de uma biblioteca tão descomunal com muitos livros gregos. A carta foi andando de mão em mão, pelo deserto e levada em camelos, até chegar de volta com o temido parecer: «se os livros contêm a mesma doutrina do Corão, não servem para nada porque só repetem; se os livros não estão em conformidade com a doutrina do Corão, não tem sentido conservá-los.»

O soldado pensou talvez que era uma pena, mas foi obediente, de acordo com o cronista árabe Abd al-Latif, e não vacilou em cumprir a ordem recebida: «a biblioteca de Alexandria foi queimada e totalmente destruída". Episódio verdadeiro ou falso, somente 15 séculos mais tarde a biblioteca poderia ressurgir das suas cinzas para voltar a estar em risco no século 21.

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"Ninguém conseguiu entender o que Alexandria significa", disse-me um jovem guia turístico, enquanto me ele explicava o valor literário duma cidade onde nasceram personagens como Ungaretti, Hobsbawm, Cavafys, um porto próspero e cosmopolita que o romancista Lawrence Durrell soube descrever. De regresso ao hotel, há apenas umas semanas, fui procurar o exemplar de um livro pela biblioteca nova, distinta pelo seu mural em dezenas de línguas, e já cansado e ao mesmo tempo taciturno, confesso que pensei muito sobre a verdade do que foi dito pelo funcionário quando a encontrei fechada: Alexandria é certamente um jogo de palavras cruzadas da outra margem do Mediterrâneo onde 5 civilizações se encontraram ao afirmar um signo de identidade universal.

Hoje, perante a violência incessante que voltou a deixar mais destruição, faço um apelo para salvar a nova biblioteca de Alexandria. Não é uma mera formalidade que todos os líderes egípcios devem cumprir por compromisso; é uma conjuntura mundial em que todos devemos escolher entre a preservação da memória coletiva ou o retorno ao caos. Recordemos que nunca é tarde mesmo se falta o tempo.

 

Fernando Báez é autor de Nueva historia universal de la destrucción de libros  (Destino, 2011). Vive no Egito.

Artigo traduzido para espanhol na edição impressa do La Vanguardia de 18 de agosto de 2013.

Tradução de Paula Sequeiros feita a partir do texto original do autor.

Outros artigos de Fernando Báez no esquerda.net:

“As maravilhas perdidas do mundo”

Assange, Wikileaks e a censura no século XXI

“Cada fotografia é um pedaço de memória e de recordação”

 



[i]       o códice (codex, palavra latina para livro, bloco de madeira) era um manuscrito gravado em madeira, em uso desde a Antiguidade tardia até à Idade Média na Europa; foi um avanço em relação ao rolo de pergaminho, que substituiu gradualmente, sendo depois substituído pelo livro impresso (nota adaptada da Wikipédia).

[ii]      série de publicações de 1809-1829, em que cerca de 160 estudiosos e cientistas civis e 2000 artistas e técnicos, que acompanharam Napoleão na Campanha do Egito, pretenderam descrever o antigo e moderno Egito (nota adaptada da Wikipédia).

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