O euro já está a arder

24 de julho 2012 - 15:05

O ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Laurent Fabius, confirmou a existência de divergências no eixo Berlim-Paris em relação à questão espanhola que entroncam no papel do Banco Central Europeu e dos Fundos de Estabilização. A Alemanha mantém a inflexibilidade quanto ao papel do BCE, tal como o ministro das Finanças, Wolfgang Schaube, comunicou ao seu homólogo espanhol, Luís de Guindos.

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Mariano Rajoy prossegue a política de cortes que está a afundar o país e prepara-se para entregar os espanhóis às mãos da troika.

Os terrenos estão demarcados mas a posição alemã segundo a qual "a independência do nosso BCE é intocável", de acordo com Philipp Rosler, ministro da economia, continua a prevalecer mesmo apesar da advertência lançada nas últimas horas pela agência de notação Moody's.

Num encontro com o seu homólogo espanhol, García-Margallo, Laurent Fabius declarou que a França não entende ainda como inevitável que Madrid tenha que pedir o "regaste total" à troika, além dos 100 mil milhões já solicitados para a banca privada, porque o apoio pode sair dos mecanismos de estabilização financeira ou do próprio Banco Central Europeu.

Essa hipótese tem sido descartada pelo lado alemão e pelo próprio presidente do BCA, Mario Draghi, segundo o qual o banco não existe para "resolver problemas das dívidas dos países" mas para garantir o funcionamento estável dos mercados.

Poucas horas depois do encontro entre Fabius e Margallo em Paris o ministro espanhol da Economia, Luís de Guindos, deslocou-se a Berlim para se encontrar com Wolfgang Schaube, o ministro alemão das Finanças. Apesar de Luís de Guindos ter rejeitado a possibilidade de a Espanha pedir o resgate a imprensa europeia admite que essa possibilidade tenha sido o ponto central do encontro, uma vez que a Alemanha não altera as suas posições sobre o papel do BCE. A imprensa espanhola recorda que ainda recentemente o ministro da Economia negara na véspera o que viria a acontecer: o pedido de resgate para a Banca.

O cenário envolvente de todo este processo é o que os analistas começam a qualificar como o início da "verdadeira crise do euro", despoletado com a entrada da Espanha e da Itália, duas grandes economias europeias, na zona dos resgates. Acções de "apoio" a estas duas economias terão que ter uma envergadura muitas vezes superior à somas dos resgates de Portugal, Irlanda e Grécia, o que não deixará de tocar em toda a estrutura da moeda única.

A posição da agência de notação Mooody's assumida na segunda-feira, e segundo a qual a Alemanha e outros parceiros poderão vir a perder a notação de triplo A para os seus créditos, traduz as convulsões que pairam sobre toda a Zona Euro. A agência quis dizer com a sua "advertência" que os mercados começam a manifestar desconfiança perante economias como a alemã, a holandesa, a finlandesa, e também a austríaca e a francesa por serem as que mais irão suportar os eventuais resgates a Espanha e a Itália.

Neste momento a situação espanhola é considerada mais alarmante do que a da Itália, escondendo a gravidade desta que é real e está na base de intensas movimentações políticas contestando o governo Monti.

Os dirigentes da direita governante espanhola multiplicam agora declarações contra "a irracionalidade" dos mercados e reclamam acções contra "os especuladores" devido às condições insustentáveis em que o país se está a financiar. Enquanto Madrid repete que já "não tem dinheiro", os financiamentos nos mercados estão a ser feitos a juros que se mantêm bem acima da zona considerada limite para os pedidos de resgate. E quanto mais essa situação se mantém mais a especulação se faz sentir, num ciclo vicioso de que não há saída à vista, a não ser a da troika uma vez que a intervenção do BCE continua fora de causa.

Na Grécia o primeiro ministro anunciou que a recessão será este ano superior a sete por cento, mais grave ainda do que a prevista, também em consequência do ciclo vicioso provocado pela austeridade. As receitas fiscais, tal como acontece em Portugal, estão muito abaixo das previstas nos memorandos da troika porque o desemprego e o congelamento económico assim o impõem, empurrando cada vez mais a economia para o fundo. A Grécia entrou no sexto ano consecutivo de recessão e, num tom optimista que os factos rejeitam, o chefe do governo perspectivou que o regresso ao crescimento não acontecerá "antes de 2014".

Também a Espanha está mergulhada na recessão. As estatísticas oficiais anunciaram um decréscimo da actividade económica de 0,4 por cento no último trimestre.

Todas estas notícias são más para o euro, sabendo-se que a Alemanha mantém o controlo absoluto sobre a moeda única e o Banco Central Europeu segundo uma política que tem conduzido a esta situação. Berlim dá cada vez mais como adquirida a saída da Grécia do euro. Numa entrevista divulgada na segunda-feira, o chefe do ramo bávaro (CSU) do partido da chanceler Merkel recomendou ao governo grego que comece a pagar em dracmas os salários da função pública.


Artigo publicado no portal do Bloco no Parlamento Europeu.