O Bloco no final da “Belle Époque”

03 de julho 2011 - 0:04

Contributo de Francisco Furtado

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Finalmente uma discussão

Antes de mais é de saudar a iniciativa de incentivar este debate aberto. Após uma estrondosa derrota ainda existe massa crítica no Bloco, o número de contribuições para esta discussão é disso sinal. Assim como a participação na última distrital de Lisboa, de tal forma participada que se teve de prolongar para a sexta-feira seguinte. Mas atenção! Agora ainda há força para recuperar o Bloco, se deste debate não se tirarem conclusões e se adoptarem decisões importantes, da próxima vez a desmoralização superará a vontade de apostar numa regeneração. Não tenhamos dúvidas este é um momento de vida ou morte para o BE.

É bom que este debate tenha uma componente pública, na verdade é fundamental neste momento não nos alhearmos do que se está a passar, a primavera Árabe, a revolta Grega, os Indignados Espanhóis, as lutas que aquecem na Inglaterra, o crescer da extrema-direita na Europa do Norte e do Leste, o novo governo de talibãs nacional. É sobre este pano de fundo que o debate sobre os rumos do Bloco tem de ser tido.

Começo então com um breve enquadramento, depois faço um prelúdio, porque isto era previsível e poderia ter-se tentado, pelo menos, evitar chegarmos aqui (tanto o Bloco, como mais importante, o país). Em seguida faço algumas constatações sobre o momento presente e ao que julgo terem sido dos erros mais graves cometidos pelo Bloco. Acabo com aquilo que penso serem as nossas tarefas fundamentais a curto prazo.

No final da “Belle Époque”

Há que perceber o contexto Histórico em que se dá este debate, estamos no final de uma “Belle Époque” a caminho de uma nova era, estas fases de transição são e sempre foram períodos duros, de posições extremadas, em que barbáries que muitos julgariam pertencer aos livros de Históriareemergem em todo o seu esplendor. Se há coisa que caracteriza os tempos em que vivemos é que tudo é possível. As Revoluções mais libertadoras, a reacção mais tenebrosa, a Guerra…

O grande desígnio do actual regime, a integração europeia, está em desagregação acelerada. A própria União Europeia deixa cair a máscara, muitos foram aqueles que acreditaram numa União que fizesse jus ao seu Hino, agora é claro, são fantasias. A União será o Império Alemão e dos seus aliados, ou não será. Várias vozes mais lúcidas, ou descomprometidas, tanto à esquerda, ou até nem tanto, já perceberem que um cenário provável será o da desintegração desta Europa. E Portugal é dos mais próximos do centro da tempestade, o nosso regime fundado sobre a esperança nesta CEE/UE, provavelmente irá colapsar com o desabar deste horizonte… Neste contexto a questão do Euro é um paradigma da cegueira Bloquista, a questão não é se somos em abstracto a favor do Euro ou não, a questão é que, sobretudo para um estado periférico como Portugal, a saída do Euro é uma questão de tempo. Face a isto o problema não é se queremos sair ou não. O problema é: já que vamos sair, qual a melhor estratégia a seguir face a isso! Uma Europa solidária, democrática e livre só se irá erguer sobre as cinzas da actual União Europeia. Há dúvidas?

Prelúdio

Bloco: Um Balanço com História, excerto de texto publicado a 20 de Outubro de 2009 (após as autárquicas)

Em Conclusão

No seu décimo ano, em 2009, o perigo é duplo:

Primeiro é o da asfixia da organização do Bloco protagonizado pelas correntes que detêm a direcção do Bloco há 10 anos… Nomeadamente se as correntes da “Hegemonia Partilhada” não derem espaço de manobra à recentemente chegada militância que apareceu no decorrer deste ciclo eleitoral. Neste momento um salto quantitativo e qualitativo é urgente em termos organizativos, esta tem de ser uma prioridade política e de recursos (que nem são poucos) da Direcção do Bloco.

O segundo é o de virar costas à realidade envolvente. O Bloco em 1999 nasceu num contexto bastante diferente do actual. Em termos mundiais vivia-se ainda o consulado Clintoniano pré-11 de Setembro e pré emergência das novas potências (Brasil, Rússia, Índia e China); no plano interno estávamos no auge da década de ouro portuguesa, acabadinhos de sair da expo; organicamente existiam dois partidos cada qual com estruturas e alguma militância , um movimento difuso e muitos independentes. Desde esses anos que não se faz uma profunda reflexão estratégica e uma análise rigorosa ao que é o Bloco, onde quer chegar e como. Sem isso o Bloco caminhará para derrotas bem piores que as autárquicas, que originarão um período de guerra civil interna, provavelmente seguido da desintegração a prazo do Bloco.

Tempos Extraordinários requerem Convenções Extraordinárias, excerto de texto publicado a 14 de Abril de 2010 (antes do PS apoiar Alegre)

Entretanto a Direcção foge de qualquer discussão mais profunda como Maomé do toucinho, isto com o receio que a coesão do Bloco se estilhace assim que se discutam as grandes opções a tomar pelo Bloco de uma forma consequente (ou seja, que das discussões de facto se retirem decisões práticas a implementar no terreno) ou assuntos que vão para lá da banalidade. O problema é que a realidade é impiedosa e adiar as discussões significa apenas que serão tidas sob muito maior pressão e num ambiente bem mais agreste no futuro...

«O marxismo busca o seu caminho através das brechas da crise desta sociedade, mas parte de uma posição muito minoritária. Rejeita a estratégia das alianças antifascistas para defender uma democracia novembrista, síndroma da Bela Adormecida que continua a imperar em alguma esquerda portuguesa e que paralisa o seu pensamento estratégico»

Herança Tricolor, Francisco Louçã

É exactamente porque o Bloco começa a demonstrar fortes sintomas do “síndroma da Bela Adormecida” que uma convenção neste momento faz todo o sentido.

Quando o Bloco surgiu, há mais de dez anos, tinha um grande objectivo a atingir, refazer o mapa da esquerda portuguesa.

O objectivo de refazer o mapa da Esquerda Portuguesa já foi em grande medida atingido, a progredir e não definhar o Bloco precisa de definir novos horizontes.

Ter apenas uma colecção de causas, algumas propostas e uns quantos discursos irados "do contra" é pouco para apresentar ao Povo, é insuficiente e, de facto, não responde aos problemas do país. É preciso mais. É necessária uma nova República, este regime e a classe dirigente que nos governa e se governa (sobretudo) têm de ser removidos. Isso implica ter uma proposta alternativa, qual é a que temos?

A crise veio para ficar e com ela as tensões sociais não podem se não aumentar, os tempos que se avizinham serão duros. Sem uma organização com o mínimo de enraizamento popular e estrutura o Bloco será facilmente cooptado ou aniquilado.

É que não me parece fazer sentido algum apoiar fulano ou sicrano sem antes percebermos bem o que queremos para o País. Vejo a candidatura e a eleição Presidencial como parte de um processo de luta mais vasto, é sobre esse pano de fundo que se deveria tomar a decisão de qual o candidato a apoiar.

Tenho dúvidas que Alegre seja a melhor escolha se o que desejamos é construir um movimentoe um programa(que necessariamente terão de ir para lá do Bloco) capaz de derrubar o regime e substituir a “democracia novembrista” por uma nova República que responda aos problemas da Crise de forma Democrática. A certeza que tenho é que os actuais equilíbrios sociais e políticos são cada vez mais precários e a parte de Abril que ainda há na tal “democracia novembrista” será varrida se não construirmos nós a tal nova República.

Tenho a certeza também que, neste momento, há uma falta imensa de criatividade e imaginação para encontrar novas soluções e caminhos. É que é exactamente quando as actuais instituições de poder estão mais desacreditadas perante as massas populares, que mais o Bloco, no seu funcionamento e atitude, está “institucionalizado”.

Em cerca de 4 a 5 milhões de Portugueses elegíveis só quem está muito fossilizado é que acha que o BE só tem duas escolhas a fazer...

Reflexões sobre o Presente

A crise que se vive no Bloco vai para além dos resultados eleitorais catastróficos, a militância e activismo estão em retrocesso, o número de eleitores para a VII convenção de há um mês (menos que para a VI em 2009) são disso um indicador. E o Bloco já não conta com o efeito novidade, após 12 anos é mais um dos 5 partidos do sistema.

Esta crise mais do que fruto de uma conjuntura adversa, é resultado das decisões tomadas pela direcção do Bloco no plano Político e Organizativo.

Na última convenção houve intervenções que me pareciam de outro planeta... Louçã disse que o “Bloco” está maior, vários e várias disseram que éramos grandes e estávamos a crescer... O que lá se deu não foi um debate com base no real e orientado para a resolução dos desafios com que nos confrontamos. O que lá se passou foi um comício recheado de ilusões auto-elogiosos completamente desfasadas do mundo real. O argumento de que foi há apenas um mês não faz qualquer sentido, podia ter sido há uma semana, ou há um dia. O que lá se debateu e decidiu não nos equipa para os duros combates do momento.

Deve neste momento proceder-se a um intenso debate que deverá desaguar numa Convenção (Extraordinária, Ordinária adiantada, chamem-lhe o que quiserem…) onde se possam tomar decisões.

A crise do país só se agravou, estamos perante um governo de talibãs neoliberais dispostos a rupturas radicias, benzidos pelo Presidente da República, apoiados pela Troika e a chantagem da dívida. Olhando para a Grécia torna-se claro que a estratégia Alemã e da União Europeia é espoliar o povo grego até ao tutano e quando já nada restar senão os ossos esses serão atirados para o lixo. A não ser que algo de extraordinário aconteça a curto prazo a Grécia será expulsa do Euro. Portugal será o próximo, e o Bloco que diz a isto? Deve Portugal continuar a fazer o papel do criado escorraçado do palácio que se ajoelha perante o senhor e implora para não ser expulso sujeitando-se a todo o tipo de trabalhos e favores que lhe são impostos? Será difícil e duro sair do Euro? Com certeza, mas neste momento não há soluções fáceis. Não há solução para a crise que não implique custos, a questão não é se vai haver ou não sacrifícios. A questão é saber para que é que irão servir os sacrifícios.

A isto junta-se a questão do regime. As instituições políticas, sociais e económicas actuais não estão à altura do momento e das necessidades do Povo Português. A direita propõe um programa de ruptura, mas reaccionário (moderno? é mas é um regresso ao século XIX…) vai no sentido completamente contraditório ao dos interesses da maioria da população e a prazo põe em risco até a Democracia formal. Mas defender o regime é suicidário, ele é insustentável, a única alternativa se queremos derrotar o projecto das direitas é propor uma nova Revolução que abane a sociedade portuguesa, reestruture o estado e ponha na linda os grandes interesses (a começar pelas empresas que vivem à custa das PPP´s).

No Balanço publicado pela mesa nacional é referido o seguinte: “Sem um terceiro pilar, um campo que reúna socialistas de esquerda, independentes, activistas e meios académicos que se situem para lá do BE e do PCP não há atalho que transforme a ideia de um “governo de esquerda” numa força propulsora capaz de mobilizar a sociedade portuguesa.”

Então porque é que, como assumido em Louçã em plenário de adererentes, quando Alegre antes das legislativas de 2009 sugeriu a Louçã sair do PS, Louçã aconselhou-o a ficar no PS. Sobre isto a recente entrevista de Miguel Portas ao jornal “I” é também elucidativa não é tão categórica, mas vai no mesmo sentido: A aproximação com Manuel Alegre é feita no parlamento, sobre políticas concretas, tendo-se depois concretizado numa convergência que podia ter vários desenvolvimentos. Não se compreendem os 11% que o BE tem nas europeias e os 10% nas legislativas de 2009 sem essa convergência. Há um problema político quando o Manuel Alegre decide que vai ser candidato à presidência da República. O BE discutiu com ele vários caminhos, mas a decisão foi dele. Parece que a Direcção do Bloco não quis ser consequente com a tal “Esquerda Grande”, em vez de fazer tudo para que Alegre saísse do PS preferiu que ele aí ficasse. Esta decisão foi um dos maiores erros de avaliação já alguma vez cometidos pelo Bloco. Porquê? Para quê? Para depois o apoiar nas presidenciais em conjunto com o PS e o Governo Sócrates odiado pelo Povo? Numa estratégia suicidária para o Bloco que assim se amarrou a um navio que se afundava, numa estratégia perdedora à partida. Que hipóteses teria o candidato apoiado pelo governo? Como poderia ele alguma vez derrotar Cavaco? O que se passou era previsível, o resultado obtido foi metade do que Alegre e as forças que o apoiaram obtiveram em 2005. O Bloco descredibilizou-se como alternativa ao PS e a um dos Governos mais odiados pelo Povo, queimou terreno para a construção do tal terceiro pilar e com isso só ajudou a direita a assumir o manto da alternativa ao governo existente.

O futuro mais imediato

Face a 2005, a única vantagem que o Bloco tem é a da experiência acumulada, mas isso só será vantagem se estivermos dispostos a fazer um sério balanço dessa experiência. A partir daí estaremos melhor equipados para as seguintes tarefas cruciais, por ordem de importância:

- Luta Social e dinamização do movimento popular contra a troika, os talibãs no governo e por uma nova República. Algumas propostas da mesa nacional não parecem más, referendo a exigir uma auditoria é uma excelente ideia. Este tem de ser a preocupação número um para o Bloco de Esquerda, é na Rua que se vai jogar o futuro do país;

- Construção da alternativa política que responda a essa luta social. O referido “terceiro pilar” é, de facto, uma necessidade. Aí deveremos (mais até que no passado recente) estar muito atentos à dinâmica das lutas e aos novos actores que irão surgir. Mais, é necessário construir uma frente institucional, mas a frente social será a mais determinante, devemos desde já estar conscientes que uma nova República deverá ser legitimada pelo voto popular, mas a forma como isso decorrerá dependerá da dinâmica de luta e das massas mais do que dos calendários eleitorais do actual regime;

- Reforço da organização e militância bloquista. É preciso dar mais importância e margem de manobra à militância, o “centro” a Direcção, não pode querer abafar ou marginalizar tudo o que não controlaa 100%. Não pode haver medo do confronto e discussão aberta.

Neste momento há três qualidades que não podemos dispensar: Coragem, Inteligência e respeito pela Verdade. Mesmo que a Verdade seja dura e tenha preços no curto prazo, é sempre mais rentável a longo prazo.

Um apontamento final para a questão da renovação/decapitação da direcção do Bloco. Neste momento não vejo quem mais, se não os lideres Históricos, poderá liderar o Bloco. A sua remoção neste momento seria destruir um dos maiores obstáculos a que se transforme o Bloco numa espécie de “Verdes” à moda do Rui Tavares… Dito isto é também verdade que a actual direcção está esgotada, depois das eleições o melhor que tinham a fazer era demitir-se, seriam certamente reeleitos e re-legitimados em convenção extraordinária, que melhor maneira de calar adversários internos e externos? Que melhor forma de começar este novo ciclo de cara lavada? Há uma falta de “rasgo” imensa nesta direcção… A forma como se lidou com Alegre é também evidência disto.

Este é um quebra cabeças de muito difícil resolução.

Francisco Furtado, aderente nº 391

PS – Para os textos completos do prólogo consultar http://mundoemguerra.blogspot.com/